Um hobbie: distância

Comecei a caminhar todas as noites. Uma hora por dia, na avenida mais bonita da cidade, desde que a academia fechou de novo por causa da pandemia.

Sempre cruzo com um grupo de atletas. Não sei que esporte praticam. Deve ser segredo, porque é só quando não estou olhando. Quando vou, estão se aquecendo e, quando volto, estão se despedindo. Talvez eles se juntem só para fazer alongamento com roupa de malhar.

Sinto inveja deles de vez em quando. A mesma que sinto de outro grupo que costumo ver por aqui, passeando de patins, e que também senti de uma galera que vive numa quadra pública, jogando basquete ao ar livre. Eu invejo essas pessoas porque elas se comunicam e combinam atividades juntas. Elas escolhem fazer algo de interesse comum e aparecem no horário combinado. Basicamente, gente maluca.

Eu já vivi três décadas e ainda não descobri o segredo de seres humanos que encontram outros semelhantes, que não apenas compartilham um interesse em comum, mas se encontram para curtir essa coisa.

Sempre idealizei fazer parte de um círculo social. Nem faço questão de que esse milagre envolva um hobby — nunca fiz. E se eu praticasse alguma atividade em grupo, com certeza não seria um esporte. Talvez algo nerd. Mas, por mim, se fôssemos sair e conversar, já estaria ótimo.

Na última vez que vi aquele grupo de atletas sentados numa calçada perto de casa, notei um cara em particular. Enquanto todo mundo conversava e ria, se encaixando em uma das diversas rodas de bate-papo, ele ficou do outro lado da rua.

Esse cara estava olhando a tela de um celular. Digitando alguma coisa. O motivo de encontrar aquelas pessoas era uma atividade concluída. Ele estava apenas esperando, impaciente, que o líder do grupo despedisse todo mundo.

Minha inveja passou. Me dei conta de que, se eu fosse um dos atletas, seria como o cara do celular. Teria atravessado a rua para evitar papo furado.

Eu gosto de pessoas e adoro conversas. Mas tenho zero paciência para assuntos que não decolam, e nenhum talento para papos de elevador. Apesar da minha habilidade de parecer extrovertido, sou intro.

A inveja que sinto das pessoas bem encaixadas em seus círculos quase não faz sentido, porque detesto trabalhar em grupo. Fui uma criança que gostava de brincar sozinha porque achava que as outras crianças abordavam as brincadeiras de maneira imprecisa. Não é que eu não gostasse de estar com elas, não quisesse ter mais amigos. Sempre quis e ainda quero. Mas parece que atravessar a rua sempre vai ser um dos meus principais interesses.

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