Você foi tudo o que podia ser

Uma das coisas mais difíceis em evoluir é se arrepender de quem a gente foi. Não só do que fizemos. Mas olhar para trás e não gostar da pessoa que a gente era.

Quando deixei a igreja, deparei com um ressentimento contra mim mesmo. Eu pensava: “Como pude ser tão cego? Como pude acreditar naquilo? Por que me dediquei tanto a certas coisas?”

Que estranho. Eu nunca me arrependi da vida que vivi. Tenho orgulho da minha criação e da minha jornada na religião. Sempre digo isso. Mas não fui capaz de evitar essa raiva de mim mesmo.

Aprendi que se ressentir de quem éramos é parte natural e geralmente inevitável de crescer. Pense, por exemplo, num pré-adolescente. Ele mal pode acreditar que, aos seis anos, botava fé na Fada do Dente.

Condenamos nossa antiga maneira de ver o mundo a vida toda, sempre desapontados por não ter sido mais sábios. Só que a sabedoria, o que é? É a virtude de aplicar da melhor maneira possível o conhecimento que você tem. E o conhecimento se adquire ao longo do tempo, pela coleção das nossas experiências.

Hoje, se a gente é mais esclarecido do que há dez anos, é justamente porque esses dez anos se passaram. Nesse tempo, a gente teve oportunidades que nunca tivéramos antes. Fomos expostos a informações inéditas e a muitas experiências pela primeira vez. Isso é o que tornou nossa visão mais abrangente.

É humano olhar para trás e pensar “Que boboca eu era”. Mas a repetição de ideias desse tipo pode resultar em problemas.

  • Sentimos que desperdiçamos nosso tempo.
  • Pensamos que nos roubaram oportunidades.
  • Acreditamos que perdemos nossa “grande chance”.
  • Tememos nunca mais recuperar coisas que poderíamos ter curtido.

Observando minha própria jornada e o pouco que estudei sobre a psicologia do desenvolvimento, cheguei a uma conclusão. Quanto mais radical a mudança que enfrentamos, mais rigorosa a nossa autocrítica tende a se tornar. Toda mudança significativa incorre em autoanálise, mas mudanças drásticas podem gerar crises.

Essa é a importância de entender como você se tornou a pessoa que é. Você só é capaz de condenar seu antigo comportamento hoje porque passou por um aprendizado. Um que ainda não tinha vivenciado naquela época. Por isso, você não tinha antes condições de ser quem é hoje.

Você agiu no passado com base nas informações que possuía, nas experiências que havia tido, nas influências do seu meio. Você pode ter errado, e certamente errou. Mas a maioria de nós tenta acertar o tempo todo. Não erramos porque éramos ruins. Geralmente, éramos só ignorantes. Em síntese, você foi tudo o que podia ser.

Sua mente pode acusar: “Mas as informações estavam ao seu alcance. Não aprendeu antes porque foi teimoso. Não foi melhor porque não quis”. Mas argumentos assim não têm utilidade. Vou explicar com o seguinte exemplo.

Imagine uma criança que deixou de acreditar no Papai Noel recentemente. Ao saber disso, sua mãe lhe diz: “Puxa, já era hora. Estava na cara que era seu tio que se fantasiava de Noel todo ano. Não reconheceu os olhos? A voz? Era tão óbvio!”

Nesse cenário, você percebe que o idiota é o adulto, e não a criança. Quando pequena, ela não tinha o aprendizado suficiente para procurar pelas evidências que, para o adulto, “estavam na cara”. Ela olhava o mundo pelos olhos da magia, e interpretava tudo de forma que um adulto não pode entender. Seria ridículo condenar uma criança por não ver o mundo como um adulto vê. Então por que se odiar por não ter no passado o olhar que você tem hoje?

Tente estender ao seu passado a compaixão que você estende a uma criança. Você tem paciência com os pequenos porque sabe que são ignorantes. Eles não tiveram o tempo e as oportunidades para adquirir o mesmo aprendizado que você e, por isso, não enxergam o mundo da forma como você enxerga. Então, não importa se você sente raiva do seu eu adolescente ou de quem você foi há três anos. Lembre-se que o mundo era diferente para você. Você não sabia o que sabe hoje. Você foi tudo o que podia ser.

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