Eu já virei homem?

Toda pessoa do sexo masculino já levou essa bronca. “Vira homem.” Nunca nos ocorreu responder “Defina homem”, e acabamos sem saber o que se espera da gente para conquistar o direito de se definir assim.

Você se entende como pessoa desde sempre. Todas as outras pessoas enxergam você como pessoa também. Se alguém te dissesse “Vira uma pessoa”, essa frase provavelmente soaria como nada.

É interessante, porque definir “pessoa” não é simples. Mas parecemos todos entender que ser uma pessoa é algo intrínseco à simples existência em estado humano. Não existe a noção generalizada de que pessoa seja algo que você precisa se tornar. Você apenas é e pronto.

Com a palavra “homem”, é diferente. Por exemplo, a expressão “coisa de pessoa” não existe. Mas vira e mexe estão discutindo se algo é “coisa de homem” ou não. A ofensa “Você não é pessoa” nunca foi inventada, mas poucos insultos são mais pesados do que “Você não é homem”. Supõe-se que ser homem implica o cumprimento de pré-requisitos que ninguém listou.

Naturalmente, as pessoas do sexo masculino não costumam se sentir homens a vida toda. Aprendem que precisam merecer o título. Desde a infância, quando escutam o primeiro “Vira homem”, já sabem duas coisas fundamentais sobre si mesmos: que são pessoas e que não são homens. Como virar pessoa, essa coisa tão complexa, ninguém precisou explicar. Como virar homem, é algo que vão tentar descobrir por muitos anos ou pelo resto da vida.

Nos mandam “virar homem” em vários momentos, pelas razões mais diversas. Algumas neutras, umas negativas, e outras até positivas.

  • A roupa que vestimos naquela ocasião
  • Um gesto que fizemos espontaneamente
  • Nossa dicção
  • Uma atitude gentil
  • Algum traço que sugira imaturidade
  • Nosso tom de voz
  • O jeito como a gente caminha
  • Uma atitude ruim que tivemos
  • Um momento de vulnerabilidade
  • Sensibilidade emocional
  • Uma demonstração de afeto

Diferente da palavra “pessoa”, a palavra “homem” carrega uma legião de significados, que variam para cada pessoa, núcleo familiar, e cultura. Em certa comunidade, virar homem é completar tal idade. Em outra, é superar um desafio. Em civilizações modernas, ser homem pode significar ser honrável ou ser durão.

Quem diz “Vira homem” faz isso com um tom típico que envolve desdém, desconfiança, reprovação e rejeição. Se essa frase surge no meio de um grupo, é possível ver a mesma expressão em vários rostos. Uma mistura de nojo e raiva, indicando que a maioria concorda: tem algo errado com você.

O que a gente entende desde cedo é que o coletivo dos homens não nos reconhece como parte do grupo. Eles são iguais entre si, mas nós não somos iguais a eles. Falta algo. Falta engrossar a voz, crescer cabelo, se coçar de certa maneira, abandonar a gentileza herdada da mãe, deixar de se importar.

Começamos a observar o grupo que carrega orgulhosamente o título de “homens”, tentando encontrar padrões, e temos a impressão de que todos reproduzem um modelo. Juntamos o que eles têm em comum num estereótipo; nosso próprio Monstro de Frankenstein com um jeito de falar, uma maneira de se vestir, e até um modo de tratar os outros.

Às vezes parece que seguir esse modelo contra todos os nossos instintos seria uma idiotice e um massacre da nossa identidade que não vale a pena. Mas logo percebemos que destoar desse molde, por um detalhe que seja, é o bastante para ser identificado como um forasteiro. Alguém que passeia às margens da masculinidade, mas ainda não a alcançou. Não se decidiu a respeito de ser homem. A ideia de abrir mão da personalidade para combinar com a manada é sempre atraente, só para nos sentirmos parte — homens.

Mas não vale mostrar que quer mudar. Qualquer interesse por aprender a ser homem apenas evidencia que você mesmo não se vê como tal e é carente da aprovação e aceitação de outros homens. Carência é fraqueza e fraqueza não é máscula.

Aparentemente, homem é alguém que se fez sozinho. Porque apoiar outros homens em suas jornadas é coisa de mulherzinha. E é assim que, quanto mais você suplica pelo seu cadastro no Clube do Bolinha, menos interesse o clube tem em você, e mais isolado da masculinidade você se torna.

É natural pensar que isso aconteça especialmente com homens gays, mas não é privilégio deles. Isso passa com homens fisicamente fortes, cavalheiros, grosseirões, com todo tipo de homem. Porque, apesar de todos sofrerem cobranças por corresponder a certas expectativas, ninguém sabe ao certo qual é o código de conduta do homem. E, quando pensamos que superamos a necessidade de um, surgem novos movimentos masculinos que sentem a necessidade de reafirmar o que significa ser homem de um ponto de vista conservador.

Aí nascem os canais de YouTube com homens hiper-barbados que só ouvem heavy metal, os desodorantes para “homens de verdade”, e os pastores evangélicos com seus seminários sobre “roupa de homem” e “masculinidade bíblica”. Grupos que precisam provar a si mesmos que já viraram homens; que secretamente dependem de excluir os diferentes para se sentir identificados com algum padrão claro. Tudo para se sentir mais seguros sobre sua macheza, tão frágil quanto ela se tornou desde o primeiro “Vira homem”.

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