Sim, eu tirei racha

Na minha última publicação, comecei a contar minha experiência com ansiedade e depressão porque eu sei que muita gente pode se identificar comigo. Vamos mais fundo nessa história hoje.

Ficando doido

Eu sempre fui tranquilo no volante. Dirigi por anos sem tomar multas nem me arriscar. Tinha esse mesmo comedimento com dinheiro. Eu nem usava meu cartão de crédito, e só comprava alguma coisa se pudesse pagar à vista sem sufoco.

Lembram das minhas primeiras crises de ansiedade aos vinte e poucos anos? Nessa época, bastavam cinco minutos dirigindo para eu perder a cabeça. O trânsito me deixava diabolicamente irritado. Comecei a cruzar semáforos vermelhos. Corria e costurava o tempo todo. Quando dei por mim, estava tirando racha.

Também perdi o controle com minhas finanças. Eu sentia que minha vida estava tão difícil, que não merecia mais privações. Passei o cartão como se eu tivesse um pé de bufunfa no quintal.

As multas de trânsito e os juros do cartão se empilharam. Só com meu carro e meu Visa, fiz uma dívida de dez mil reais.

E eu não sabia

Eu não consegui me importar com minha imprudência. Nem me dava conta de que estava agindo feito um idiota. E esse é um dos motivos de eu escrever sobre esse assunto: a gente pode enfrentar mudanças radicais por causa de questões psicológicas sem se dar conta de que não estamos saudáveis. Eu não reconhecia os sintomas dos transtornos mentais, e passei por eles de olhos vendados.

Nossa mente só pode suportar certa carga negativa, que precisa ser administrada. Só que a gente é presa fácil de um estilo de vida que nos pede para assumir o próximo problema sem dar atenção ao anterior, até ultrapassarmos nosso limite físico. Se não recebermos estímulos positivos para balancear essa equação, vamos acumular mais tensão do que nosso cérebro suporta antes de surtar. Aí ele vai procurar mecanismos de escape.

Dor emocional não é fraqueza

Ainda existe tabu a respeito de transtornos mentais, e um dos motivos para isso é que nossa cultura desassocia a mente do corpo. Se é uma infecção ou um osso quebrado, levamos a sério, porque são dores com evidências palpáveis. Como a dor emocional não se manifesta visivelmente, achamos que não é “dor de verdade”. Então só pode ser frescura. Mas, para a ciência, não existe diferença entre o cérebro e a mente. Isso quer dizer que uma dor que atinje suas emoções não está num mundo invisível, e sim no seu cérebro — uma parte essencial do seu corpo.

Observe os sintomas

O que acontece quando pegamos um vírus e ficamos doentes? Primeiro, a gente fica irritadiço. Perdemos a fome, nossa libido diminui. Sentimos cansaço o tempo todo, e zero vontade de viver. Um coração partido provoca exatamente as mesmas reações. Ou seja, o cérebro reage da mesma maneira a estímulos físicos e emocionais.

A depressão e a ansiedade também se manifestam assim, além de vários outros sinais. Anos atrás, eu não sabia que precisava prestar atenção se ficasse irritado demais por qualquer coisa. Eu pensava que era um problema de temperamento, mas era um sintoma. Meu corpo estava reagindo à ansiedade da mesma forma que reage à gripe. Tudo irrita.

A mente no controle

Nosso corpo precisa dormir para sobreviver. Então, se nos privamos do sono por tempo demais, nosso cérebro ativa “apagões” ao longo do dia. Isso pode ser perigoso, porque podemos cair ou não ver alguma coisa prestes a nos atingir. Mas o corpo pode ignorar a lógica para preservar uma necessidade básica.

A mensagem do nosso cérebro é: “Você não recompensou meu esforço com o sono. Então eu vou ativar o modo emergencial, mesmo que não seja o ideal, e mesmo que seja perigoso”.

Foi assim que eu comecei a dirigir e gastar que nem maluco. Eu estava debaixo de muitos estímulos negativos, e não sabia como cuidar da minha saúde psicológica. Então meu cérebro desconsiderou o perigo para ir atrás das recompensas que estavam ao meu alcance. Alguma emoção, alguma atividade que o ajudasse a se sentir no controle. Assim ele poderia produzir um pouco de adrenalina no meio do poço de negatividade em que eu me afundava.

Leia os sinais

Nós fomos treinados a dar atenção a dores físicas e a remediá-las. Mas somos incentivados a ignorar nossas dores emocionais em nome do trabalho, dos outros, e de parecer fortes. O que não aprendemos é que nossa mente vai assegurar escapes das tensões emocionais que não administramos.

Assim começamos a falar mais palavrões do que de costume. A dormir além da conta. Temos acessos de fúria. Ficamos viciados em jogos ou não conseguimos desligar a TV. Nos isolamos num mundo de pornografia ou nos masturbamos por horas sem parar. Recorremos ao álcool e às drogas descontroladamente. Buscamos práticas radicais como o racha ou viciamos em compras. Por quê?

Quando não tratamos ansiedade e depressão, podemos perder o controle para um cérebro que vai fazer tudo o que puder para encontrar estímulos que o ajudem a produzir hormônios que tragam sensações de bem-estar e euforia. Mesmo que isso envolva escolha ruins. Nossa mente tem um superpoder chamado racionalização: ele consegue justificar qualquer decisão que tomemos sem consideração pela lógica, mas priorizando o instinto.

São doenças — busque ajuda

Uma pessoa infectada por um vírus que não se trata pode arder em febre e acabar morrendo por isso, que é tratável. Assim é com a ansiedade e depressão. Não são sentimentos. São doenças que afetam o funcionamento do seu cérebro. Isso inclui sua capacidade de produzir hormônios essenciais para o seu bem-estar, e também sua capacidade analítica e de tomada de decisão.

Vou falar mais sobre como tenho enfrentado isso pessoalmente e como me sinto quando não estou bem, além de dar dicas do que você pode fazer a respeito da sua própria saúde mental. Mas já adianto: você procura um médico sempre que está doente. Faça o mesmo a respeito de transtornos mentais, porque eles são questões de saúde tão importante quanto qualquer doença ou até mais. E também são tratáveis.

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