História real de um desviado

Hoje resolvi contar minha história como nunca antes para vocês. Pelo menos alguns momentos que me marcaram e moldaram a minha vida.

Um garotinho no interior

Na primeira série, fiquei muito interessado por uma garota chamada Mariana. Quando a gente conversava, eu queria pegar as mãos daquela menina magrela e dizer que gostava dela. Mas nunca fiz isso porque sabia que era cedo para namorar.

Morei naquela cidade até o terceiro ano. Nessa época, reparei que eu achava meus amigos meninos muito bonitos. Bem mais que a Mariana e qualquer outra menina. Eu era criança e não sabia por que isso me impactava tão profundamente. Tentava não pensar no assunto, mas ficava muito difícil sempre que eu via o baterista adolescente da igreja.

Minha primeira escola em Itapeva, SP. Na época, EEPG Cel. Acácio Piedade / Foto: IHGGI

Mudando para a cidade grande

Entrei na quarta série em São Paulo, e logo percebi que as crianças estavam bem adiantadas. Os meninos usavam palavras que eu nunca tinha ouvido. Contavam piadas de adultos. E eu, filhinho de pastor que não falava palavrão, não xingava, nem me defendia, comecei a sofrer bullying.

Minha primeira escola em São Paulo, Colégio Batista Brasileiro / Foto: Hamilton B Furtado

Eu não sei até hoje por que não contava para ninguém o que enfrentava. Acho que tinha a ver com não querer ser um dedo-duro. Mas aprendi que o silêncio é bem comum entre crianças que são vítimas de intimidação.

Isolado na escola, sucesso na igreja

Quando eu morava no interior, era a estrela da minha congregação. O filho do pastor, inteligente, bonitinho, e palhaço da turma. Mas as crianças da minha nova igreja na capital não eram menos precoces que as da escola.

Lá havia vários filhos de pastores além de mim. De todos eles, só eu nunca tinha beijado ninguém. Mas tudo mudou quando a loirinha que eu adorava me chamou num canto, depois que todas as crianças já tinham subido da ala infantil para encontrar seus pais no andar superior após o culto.

Bruna era o nome dela. Veio acompanhada pela Mari e pela Helô, as meninas mais experientes da turma, que insistiram que todo mundo sabia que a gente se gostava e devíamos nos beijar. “Ninguém vai ver!”, elas disseram. A Bruna concordou. “Vai!” E nosso primeiro beijo foi um selinho bobo que garantiu que a gente parecesse normal, caindo na fofoca pré-adolescente. Da noite para o dia, passei a fazer parte de um círculo de amigos.

Meses depois, quando a Bruna e eu viramos história, Mari e Helô estavam entediadas e disseram que me amavam. Ao mesmo tempo. Beijei as duas também, e agora eu tinha uma posição e uma autoestima inabaláveis. Tinha beijado as duas garotas mais populares da igreja.

Virando o jogo no colégio

Estudei no mesmo lugar do quarto ao sétimo ano. Eu tinha um tipo de vida dupla, tentando compensar a solidão da escola com a popularidade na igreja.

No sétimo ano, me transferi para outra instituição, onde ficaria até terminar o Ensino Médio. Eu tinha aprendido que ser diferente não funciona na escola, e agora estava decidido a me enturmar de cara.

Mergulhei em tudo o que os meninos da minha sala curtiam. Futebol, Pokémon, jogos de cartas, e Dragon Ball. Enchi meu vocabulário de palavrão. Voltei a ser o palhaço da turma. Não perdia nenhuma festa. Se ficava com uma garota, dizia que tinham sido três. Eu não era super popular, mas tinha meu lugar na roda de amigos. Eu era o engraçado inteligente que sabia cantar.

Foi no colégio que comecei a experimentar. Cigarro, cerveja, maconha. A estratégia funcionava muito bem — eu me encaixava. Fui esfriando na igreja, mas foi difícil ver o problema nisso, porque meus amigos “do mundo” eram muito mais próximos que os meus irmãos em Cristo. Eu me sentia mais livre e aceito com a galera do colégio, e fui me afastando da religião. Isso abriu a porta para uma grande descoberta.

Então ele é?

Na adolescência, o incômodo que me perseguia desde a infância cresceu. Além das meninas do colégio, eu fiquei com algumas da igreja também. A gente se beijava, mas o fogo de que todo mundo falava não aparecia. Não podia mais negar para mim mesmo. Eu me sentia muito mais atraído por caras do que por garotas. E, depois de dois anos e meio de descobertas no colegial, só faltava uma experiência definitiva, que chegou no último semestre.

Um garoto da igreja e eu decidimos ficar. Foi esquisito para os dois, mas nos ajudou a ver que a gente não era exatamente heterossexual. Fomos juntos a algumas baladas gays e pronto. Depois de conhecer uns três caras cada um, tínhamos nos encontrado. Não sabíamos como conciliar a realidade e a nossa fé, mas a gente era definitivamente gay.

Fora do armário

Eu cresci com medo de me desviar um dia. Mas, aos dezessete anos, quando terminei o Ensino Médio, sabia que já não tinha mais espaço para mim no meio evangélico. Meu único amigo gay e eu conversamos e estudamos sobre a nossa sexualidade, e resolvemos sair da igreja juntos. O suporte que tivemos um do outro foi essencial.

Durante a faculdade, fiz vários amigos dentro da minha nova comunidade. Passei pelo fim da adolescência e entrei nos meus vinte e poucos anos com um crescente senso de identidade e pertencimento, coisa que nunca tinha experimentado na igreja. Isso me trouxe a autoconfiança necessária para transitar com tranquilidade para a fase adulta, seguro de mim e do meu lugar no mundo.

Só tem alguns detalhes

Boa parte dessa história é real. Tirando alguns fatores, que mudaram o curso dela drasticamente. Deixa eu contar como foi de verdade.

Quando garoto, eu não beijei a Bruna naquele cantinho da igreja. Nem as duas garotas populares que tentaram alavancar minha vida social. Eu tinha aprendido direitinho que ficar era pecado, e desobedecer aos pais era pior ainda. Eu realmente sofria bullying na escola, mas também não tinha amigos na igreja além da Bruna.

Na adolescência, eu realmente tentei me enturmar no colégio. Mas não me rebelei. Eu estava começando a ministrar na igreja, e o discurso da santidade ganhou mais ênfase na década de 2.000 do que na época de Jonathan Edwards. Pókemon era do Diabo. Música secular era portal satânico. Futebol era idolatria. Eu não fui a nenhuma festa nos meus três anos de colégio, não tinha nenhum gosto em comum com meus colegas de sala, e achava que era pecado mentir sobre isso. Eu não falava palavrão nem experimentei nada importante com minha turma.

Quando finalmente me tornei parte de uma panelinha, foi por ser engraçado imitando os outros, desenhando caricaturas de professores, e batendo boca com eles na frente de todo mundo. Mas, no meio da “minha roda”, eu só ouvia, eu não participava. Minha realidade era tão fechada em torno da religião, que eu não tinha assunto com os colegas que eu via todo dia. Todos eles mantêm amizades sólidas até hoje, e eu sou o único que ficou de fora. Eles nunca chegaram a me conhecer de verdade.

Nessa época, eu realmente sentia que vivia uma vida dupla. Eu já estava numa igreja pequena de novo, onde meus pais eram pastores e eu cantava. Ganhava certa atenção. Mas, em todos os meus anos de igreja, nunca fui realmente popular, no sentido de ter vários amigos. Sempre foram un ou dois, que mudavam conforme as pessoas iam embora sem dizer adeus. Nem podiam ser muitos, porque me ensinaram que a fofoca poderia arruinar a vida da minha família. Eu não sentia que podia ser eu mesmo com muita gente. E, quanto mais “ungido” eu me tornava, mais solitário ficava. Eu tinha que ser um modelo de perfeição. Invulnerável. Amizades profundas não pareciam possíveis.

Realmente houve um garoto. A gente se policiou para não se beijar e nunca chegar aos finalmentes. O que fazíamos, não reconhecíamos como parte da nossa expressão sexual e autodescoberta. Acreditávamos que eram recaídas por causa de alguma coisa quebrada dentro da gente. A igreja ensinou que tínhamos sido violados, e isso pervertia nossa orientação. A gente estava convencido de que, se tentássemos o bastante juntos, poderíamos pegar nojo, e finalmente ficar livres da tentação homossexual. Cada experiência que tivemos nos levou a um nível mais profundo de vergonha e culpa avassaladoras, ao ponto de eu chegar bem perto de me suicidar antes dos dezoito. Acabamos descobertos, proibidos de nos falar, e nossa amizade morreu. Não tivemos ninguém para nos ajudar em nossa autodescoberta mais tarde.

Dos quinze anos até os trinta, eu me apaixonei por pelo menos uns seis caras, e tive crush em nem sei quantos, mas não enxergava isso. Não conseguia entender que sentia atração por homens, porque aprendi que qualquer orientação não hetero não passava da ilusão de uma mente problemática ou enganada pelo inferno. Tudo que eu sentia era reinterpretado pela ótica do Cristianismo, como produto de trauma, carência, resultado de abuso, e demônios. Sem contar a infância, estou falando só aqui de quinze anos me sentindo uma fraude. Sujo. Quebrado. Doente.

Nesse período, me apaixonei pelo total de duas garotas. E tentei dar uma chance para gostar de mais uma. Saí com duas delas, não ficamos, e eu nunca entendi por que elas não quiseram repetir o rolê. Eu era um cristão sério. Não beijei nenhuma delas. Iria namorar para casar. Meu primeiro beijo para valer veio aos trinta e dois anos de idade.

Foi mais de uma década crescendo cada vez mais no ministério. De apoio vocal a líder de louvor com disco gravado. De aluno a professor de escolas bíblicas. De intérprete voluntário a pregador itinerante. Fui ungido pastor e profeta e me tornei o rosto por trás da visão e organização da minha igreja local, inspirando milhares de jovens. Reparti palavras de conhecimento e sabedoria certeiras com muita gente, e curei centenas de enfermos. E tudo isso teve um preço. Não apenas de jejum, oração, Bíblia e muito choro. Custou minha juventude.

Eu no palco da Conferência Flames, em 2015. / Foto: Carla Faria

Eu nunca achei a minha tribo. Não tive uma fase de experimentos e autodescoberta. Não aprendi quem eu era ao lado de amigos que afirmavam minha identidade como uma segunda família. Nunca tive senso de pertencimento. Eu pulei a adolescência e caí direto na crise de identidade dos trinta. Sem saber quem eu era nem do que eu gostava. Sem um propósito fora de uma religião que não fazia mais sentido para mim. Numa fase em que é mais difícil que nunca fazer amizades, numa cidade nova. Não sou parte da comunidade cristã nem da budista nem da maconheira, da sertaneja, da funkeira. Nada. Não me sinto nem parte da comunidade LGBTQI, porque minhas amizades com pessoas do arco-íris ainda estão em construção.

Prometeram vida abundante em Cristo para mim a vida toda. E, de todos os cristãos com quem convivi, eu sou quem mais se dedicou a buscá-lo, e quem mais se aproximou dele. O Espírito Santo se tornou meu melhor amigo. E, por um bom tempo, o único. Quanto mais perto cheguei dele, mais distante fiquei de todas as outras pessoas, e desconectado de mim mesmo. Eu não compreendia minha própria orientação, não reconheci quando fiquei deprimido nem quando tive crises de ansiedade após alcançar o ápice ministerial.

Quanto mais perto eu estava do Reino de Deus, mais longe ficava da vida real de aqui e agora, que passa tão rápido. Tenho vontade de chorar quando penso nos meus vinte e poucos anos que voaram. Quanto mais pessoas eu curei, mais doente fiquei. Quanto mais me entreguei a Deus, menos sobrou para mim, até eu perceber que não tenho nem sequer um lugar no mundo.

Hoje, eu só pertenço a duas coisas. Minha jornada corajosa, quase sempre solitária, e o amor do homem da minha vida. Sem minha coragem e sem meu parceiro, eu não sei onde estaria.

“Santo” quer dizer “separado”. Todo crente sabe disso. Por isso mesmo os cristãos costumam se sentir tão aquém do chamado à santidade. Porque não conseguem se separar da vida real como eu fiz, e como tantos outros na minha geração. Sorte deles. Esse é o depoimento de alguém que se santificou da infância à fase adulta. Eu acabei separado de tudo e de todos. Até de mim mesmo.

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