No armário, mas rebelde

Mais jovens rebeldes poderiam fazer muita diferença na Igreja. Não tem nada errado em respeitar tradições religiosas, claro, desde que não signifique fazer silêncio diante da injustiça só para não desobedecer. Isso já é anticristão.

O principal trabalho de Jesus foi a favor da justiça social e contra a opressão religiosa. E hoje, cristãos demais toleram estruturas e líderes opressivos.

E eu sei como é. A gente tem medo de se posicionar. Desde muito pequenos, ouvimos que Deus abriu a terra para engolir as pessoas que se rebelaram contra Moisés, e que a rebeldia é como o pecado da feitiçaria. Somos doutrinados para continuar passivos e submissos. E, desse jeito, como podemos esperar mudanças?

Vamos esclarecer algumas coisas. Ninguém espera que o grupo de jovens da sua igreja aplique um golpe para tomada da liderança. Não estou incitando você a desobedecer cada ordem pastoral para se fazer ouvir. Estou falando de não ser cúmplice da opressão.

Recebi uma mensagem de um jovem cristão gay no Instagram meses atrás. Ele lamentou porque estava encarregado da escola bíblica da sua igreja, onde ensinaria outros jovens de acordo com um roteiro pronto, numa aula ensinando que o “homossexualismo” é uma “abominação aos olhos do Criador”. Esse é o resumo da conversa que a gente teve:

— Você não vai repetir isso para os seus alunos, certo?

— Infelizmente, sim. Não posso dizer claramente o que penso ainda.

— Não faça isso. O momento de ser cristão é frente à injustiça. E é injusto propagar uma doutrina discriminatória.

— Mas tem gente lá que concorda com essa doutrina. E eu não sou assumido. O que eu posso fazer?

— Você não precisa sair do armário para deixar de ratificar uma cultura de opressão. Existem muitas coisas que você pode fazer, dependendo do risco que cada uma acarrete. Mas, por exemplo, você poderia dizer algo assim:

Pessoal, o roteiro do nosso estudo bíblico de hoje fala sobre homossexualidade, mas está muito mal informado, infelizmente. Eu já tive a chance de estudar vários pontos de vista teológicos sobre o assunto e o nosso material só apresenta um. Eu não vou simplesmente afirmar que a comunidade gay, que é tão oprimida no mundo todo, inclusive por cristãos, está em pecado, porque isso seria um erro teológico. Então vamos seguir para o próximo assunto.

— Se você não tem tempo para explicar as questões teológicas sobre isso ou se não é o objetivo da escola se aprofundar assim, não significa que você precise ensinar algo que sabe que é mentira e com que não concorda. Não seria honesto nem cristão.

Claro que não foi uma conversa fácil, porque envolve política de igreja, reputação, e o status desse seguidor. É super delicado. Mas a gente conseguiu dialogar, e esse jovem crente acabou realmente se recusando a ensinar aquele absurdo. Ele foi corajoso para se rebelar e, como Jesus, não ficou em silêncio diante da opressão religiosa.

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