Nem mocinho nem vilão

Hoje assisti a uma conversa ao vivo no Instagram, entre um ateu e uma cristã. Ele é o Will Thorpe, e ela, a Jo Luehmann.

A primeira coisa legal sobre o diálogo dos dois é que jamais atacariam um ao outro. A Jo não tem a intenção de evangelizar o Will, que também não espera que ela se torne ateísta. O assunto dos dois era o que tinham em comum — sua desconstrução.

Isso tem tudo a ver com minha última publicação, quando eu disse que você não vai necessariamente crer como eu um dia, só porque está desconstruindo sua fé. A desconstrução levou a Jo a reinterpretar a divindade sem deixar sua tradição cristã, enquanto levou o Will a abandonar qualquer fé numa divindade, enquanto eu não estou nem aqui nem ali.

Semana passada, eu recomendei que os gays cristãos que precisam de referências seguissem meus amigos Marília e Gustavo [@_mariliag / @gustavobalieiro]. Esqueci de mencionar que você pode encontrar a gente conversando no perfil deles no maior respeito e carinho apesar de eles serem cristãos, e eu, não.

O que quero dizer é que você não precisa chegar aonde ninguém está. Fica mais fácil lidar com seu processo de desconstrução quando você não está tentando se encaixar na visão de mundo do outro. E, nesse caminho, você vai encontrar gente que não espera concordar com você para respeitar e validar a sua experiência.

Também quero dizer que, assim como você precisa aceitar o momento em que se encontra e lembrar que está fazendo o melhor que pode com as informações que tem, quase todas as pessoas que discordam de você estão na mesma situação. Então você também não tem a responsabilidade de trazer ninguém ao seu estágio. Deixe esse comportamento para os fundamentalistas.

Quando converso com outros desconstrucionistas, sempre quero saber se também estão se encaminhando para o niilismo, o ateísmo e o agnosticismo, como eu. Mas a maioria deles, que vêm de tradições cristãs, não está. E uma parte de mim vai sempre imaginar que eu aprendi mais que eles ou sou mais iluminado, mas eu já sei que isso é besteira. Tenho que me lembrar que os outros e eu sabemos o mesmo do universo: nada. Estamos todos usando o melhor das nossas habilidades e experiências para dar sentido à vida de uma maneira pessoalmente satisfatória.

Quando o assunto é gente que não está desconstruindo, fica mais difícil. Especialmente se são religiosos, porque tendem a ser fechados para o diferente. E aí, preciso lembrar que já fui parecido com eles, e não porque eu fosse um cretino, mas porque era tudo o que eu sabia ser. Muita gente que nos olha de longe e critica nossa desconstrução está sinceramente fazendo o melhor que pode com as melhores intenções.

A gente briga quando foca nas diferenças e as rejeita como coisas ruins. E, como você deve saber, é muito difícil para mim não sentir raiva e tristeza quando certas pessoas me abordam com certos discursos. Mas, para todo mundo sair ganhando, o jeito é se reeducar. Sempre lembrar que todo mundo é gentil em certos momentos e todo mundo é cretino em outros, em vez de separar o mundo entre heróis e vilões. Pensamos e cremos diferente. Expressamos nossas crenças de maneiras diferentes. Mas, no fim, todo mundo está tentando acertar com o pouquinho que sabe da verdade.

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