Tá tudo bem, nada faz sentido

Estou há uma semana pensando no que um leitor deixou aqui no blog. Um comentário super construtivo. Eu estava contando como às vezes é difícil reinterpretar experiências passadas que atribuíamos ao sobrenatural e que, hoje, não sabemos muito bem o que foram. Ele disse o seguinte:

Também tive várias experiências com Deus, com o Espírito Santo e com a minha fé durante os anos mais fervorosos da minha devoção. Hoje em dia eu não frequento mais nada, apesar de ainda me considerar católico. Para mim, não precisa de explicação. Se nos faz ou fez bem, e se não fere o direito do outro, tá valendo.

Eu acho super legal. Gostaria de ter uma visão tão leve e admiro quem consegue. Mas acho que talvez eu nunca enxergue as coisas assim. Eu sempre fui inquisitivo. Está na minha natureza.

Quem foi criança nos anos 90 deve se lembrar de um programa infantil da TV Cultura chamado Glub Glub. Dois peixinhos apresentavam atrações no fundo do oceano.

Arte do Glub Glub em camiseta da Enjoystick

Como qualquer criança, eu adorava as animações de stop-motion com bonecos de massinha e as piadas sobre o mundo marinho. Mas o motivo principal de eu grudar na tela? Eu achava que acabaria descobrindo como faziam o corpo dos atores desaparecer. Tinha seis, sete anos, e nunca tinha ouvido falar de chroma key. Eu queria saber!

Gisela Arantes, Carlos Mariano, e Andrea Pozzi nos bastidores de Glub Glub

Eu sempre quis entender os motivos das coisas. Sempre gostei de me guiar por fatos, e deve fazer anos que não passo um dia sem me perguntar alguma coisa existencial. Acho que sou programado assim.

Quando eu estava na igreja, queria entender por que todo mundo caía ao meu redor, e eu não. Quando conheci ministérios de cura espiritual, queria saber por que algumas pessoas eram curadas pela oração e outras, não. Quando comecei a estudar a Bíblia na adolescência, estava sempre perguntando como acreditar na bondade de um Deus que afogava multidões, consumia tropas com fogo, e abria a terra para engolir famílias inteiras. Estudei quem era o Espírito Santo, o que significavam os mandamentos de Jesus, e como aplicá-los à minha vida. Passei anos investigando os aspectos práticos da fé.

Deixar a religião e desconstruir minhas crenças deu num imenso “E agora?”. Antes, me sentia seguro sobre meu propósito, meu destino, e sobre como alcançar os dois. Agora que não acredito quase em nada que sustentava minha visão de mundo, realmente não sei como sentar e relaxar. Minha cabeça não me deixa em paz. Eu me sentiria como o cachorro do meme, tomando café em meio a um incêndio.

A parte da tira de KC Green que viralizou, da série Gunshow

Quando você percebe que as bases da sua cosmovisão não fazem mais sentido, o niilismo parece atraente. Aceitar que nada no universo tem um propósito, para simplificar. O problema é que esse pensamento pode ser abordado de maneiras sombrias, e acho que, para a maioria das pessoas, não vale a pena continuar vivendo sem um motivo para viver. Humanos são narcisistas e megalomaníacos em diferentes níveis, e variamos entre achar que o universo gira ao nosso redor, que podemos mudar o mundo, ou que precisamos deixar nossa marca na história. No mínimo, um legadozinho.

Tive uma conversa com minha melhor amiga sobre isso. A gente concordou que, se não existe um propósito supremo por trás da vida, entrar no bonde do Zeca Pagodinho é uma opção. “Deixa a vida me levar”. Mas eu nunca fui o cara que lida bem com essa filosofia de vida. Na verdade, acho que ela é uma antifilosofia. É a preguiça de levar a vida a sério o bastante para tomar as rédeas dela. O que, por outro lado, faz sentido, já que todo controle da vida que a gente acredite ter não passa de ilusão. Não é divertido estar na minha cabeça?

A questão, e isso foi o que disse para a minha amiga, é que eu acho a vida curta e preciosa demais para não dar a ela um significado. Aí falei de um vídeo que outro amigo me mostrou, Niilismo Otimista. Ele sugere que, se a vida não tem um motivo transcendental, ficamos livres para dar à nossa existência o propósito que quisermos. E é nessa busca que estou agora. Uma delas, pelo menos.

É por isso que não consigo simplesmente olhar para minhas experiências passadas, fazer a Taylor Swift, e shake it off. Embora elas não me apontem mais um caminho, ainda me definem mais do que eu gostaria. Criam um eco de possível sobrenaturalidade dentro de mim. Influenciam partes do meu cérebro que não consigo controlar e que, ao menor descuido, ainda me dizem “Viu como Deus existe? Viu como ele te ama e cuida de você?”

Se você leu essas últimas frases com uma voz angelical, não está entendendo. Eu escrevi com voz de serpente. Porque estou tentando encontrar um jeito de viver em paz desassociado da religião, da Bíblia, de Jesus e até de Deus. E não fica nada fácil quando eu experimentei tantas coisas que não consigo explicar sem usar o nome deles.

2 comentários

  1. Olha eu penso que esta é uma questão de várias nuances para simplificar por um lado só. A coisa de ir só indo creio que tenha a ver muito com as perpectivas de cada um. Tem quem se apoie em alguma religião, talvez seja mais fácil crer que tenha algo superior que comanda o nosso plano, ou até mais reconfortante. Outros acreditam em capacidade própria, em prosperar com seus próprios esforços, e tem aqueles ainda que acham que o governo deve prover tudo. Enfim, a gente sempre precisa de nossas muletas emocionais pra seguir adiante, algo que nos traga esperança.

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