Desigrejada

“Ela está se desviando!” / “Eu estou crescendo!” Ilustração de David Hayward (@nakedpastor)

Rafa estava na lanchonete, comendo fritas e bebendo refrigerante com seus fones de ouvido. Quando Pedro entrou, seus olhares se cruzaram. Ele acenou com um grande sorriso e ela respondeu sem jeito.

Durante a maior parte da adolescência, tinham sido melhores amigos. Nunca mais se falaram desde que Rafa saiu da igreja. Já fazia um ano e meio. De repente, aquele cumprimento caloroso, que ela não entendeu.

O rapaz recebeu seu pedido. Escolheu uma cadeira num canto e começou a comer. Depois de cinco minutos, levantou, pegou suas coisas, e foi até a mesa da antiga amiga.

— Ei. Posso sentar aqui?

Encurralada, Rafa limpou o canto da boca e disse “Claro”. Pedro sentou, adotou um olhar embaraçosamente carinhoso, e começou a falar.

— Fazia tempo que eu queria falar com você. Até orei para Deus me dar uma oportunidade. Estava um pouco nervoso até agora, mas o Espírito Santo ficou me incomodando, e eu tinha que vir.

Rafa não acreditava mais nesse tipo de coisa, mas respondeu “Tudo bem” da maneira mais educada que conseguiu, encorajando o rapaz a continuar.

— Quando você vai voltar, heim, garota?

O ar de paternalismo naquele rosto deu um nó no estômago de Rafa. Ela engoliu seco.

— Pedro, já faz quase dois anos. Eu não vou voltar. Eu estou feliz.

— Qual é, Rafa! Você sabe que tem um lugar à mesa para você. Não importa o que você esteja passando, o Pai continua de braços abertos. E seus irmãos também. A galera sente sua falta.

O ex-amigo tentou segurar a mão da garota. Ela recolheu o braço. Tremia por dentro, queria sair correndo. Se concentrou numa mancha de ketchup pisada no chão, respirou fundo e encarou o novo pastor da rede de jovens do outro lado da mesa.

— Você sabe quantas pessoas me procuraram desde que eu saí da igreja? Uma. Minha antiga líder de célula queria saber se eu ia continuar fazendo as unhas dela de graça. Desde que eu saí, foi como se eu morresse para vocês. Agora já estou de boa com isso, porque muita coisa precisou morrer em mim também. E, não sei se você escutou, mas eu disse que estou feliz, mano. Pela primeira vez em anos. Eu não tenho mais nada a ver com aquela garota que você conheceu. Com aquele mundo. Eu respeito vocês, mas isso tudo já não me faz bem, sabe? Então só peço o mesmo respeito de volta.

Sem mudar sua aura pastoral, Pedro respondeu.

— É aí que está. Você diz que respeita, mas e todas aquelas publicações suas na internet? Combatendo a Igreja, Rafa! Puxa vida, eu não entendo porque todos vocês, quando saem, precisam se fazer de coitados, se revoltar, e falar mal do Corpo de Cristo. Sinceramente.

— Eu não combato a Igreja, Pedro. Meus pais são pastores, esqueceu? Eu só tenho conversas francas sobre coisas que não são legais lá dentro. Coisas que me machucaram e machucam muita gente. Não é porque eu amo vocês, que vocês são perfeitos, sabe? Não é porque vocês são bem intencionados, que não erram. Mas olha, nada disso é sobre vocês. Eu estou abrindo o diálogo para quem está na mesma situação que eu e precisa se encontrar como eu me encontrei. Nem é sobre a Igreja; é sobre os de fora, mesmo.

— É claro que a gente não é perfeito! Mas homofobia, Rafa? Racismo? Olha as coisas de que você acusa a Igreja. Estou orando para os seus olhos serem abertos. Porque você está se juntando a um movimento de perseguição à Palavra de Deus. E eu realmente não entendo isso e…

Rafa ficou em pé calmamente e interrompeu o rapaz.

— Pedro, você já foi vítima de homofobia dentro da Igreja? Não, que você é hetero. Você foi vítima de racismo, por acaso? Não, porque, diferente de mim, você é branco. Você não entende a revolta dos outros com a opressão religiosa porque não foi atingido por ela. Só que ninguém está pedindo que você entenda, Pedro. Isso não tem nada a ver com você. Você está confortável na sua igreja e, nossa, que bom para você. De coração. Porque não é o caso de todo mundo. Você é privilegiado. Se você sofresse a mesma opressão que eu muita gente por aí, você nos entenderia perfeitamente. Mais que isso! Se você fosse alvo do preconceito, da discriminação, da perseguição, e da opressão dos cristãos, você também estaria tão revoltado quanto eu.

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