Ui, mas eu não sou homofóbico!

Pastor André Valadão, que recentemente alegou que Igreja não é lugar para gays. (Foto: redes sociais)

Os cristãos sempre dizem que não são homofóbicos. Pergunte a um gay, e ele vai discordar.

Quando o termo “homofobia” vem à tona, a Igreja costuma pensar em atos de ódio deliberado. Ela legitimamente não entende como condenar a homossexualidade por questões de fé implica discriminação. Nem tem condições de compreender tão cedo, por motivos complexos demais para explicar aqui.

Outro dia, um amigo cristão me perguntou com sinceridade o que eu entendia por “homofobia”. Se me referia a intolerância ou a não achar correto ser gay. Vou colar aqui a resposta que dei para ele. Porque é isso que os cristãos não entendem.

Quando falo em homofobia, me refiro a um comportamento discriminatório. Mas você não precisa ser um inimigo nem precisa ser intolerante para discriminar. Discriminar é fazer distinção, é tratar com diferença. E, a partir do momento em que se encara a natureza de alguém como incorreta ou antinatural, essa pessoa passa a ser tratada com diferença.

Houve um tempo em que os cristãos não queriam a liberdade das pessoas pretas escravizadas por não acharem correto ir contra o que a Bíblia diz sobre os escravos. A escravização de pessoas pretas era vista como algo natural, e justificada com “princípios bíblicos”. Assim, os cristãos trataram os pretos de forma diferente do que tratavam os outros, e foram grandes opositores ao fim da escravatura.

Houve um tempo em que os cristãos rejeitaram o ministério feminino por não acharem correto dar voz às mulheres na igreja devido ao que a Bíblia diz e, por conta disso, negaram a elas as oportunidades e status que os homens recebiam. Essa tratativa especial foi justificada teologicamente, mas continua sendo uma distinção entre grupos de pessoas. É discriminação contra a mulher.

No nosso tempo, os cristãos não acham correto ser gay, e por isso negam aos homossexuais o status de cristão, a posição de santidade e justiça equivalente à dos heteros, colocando-os em posição de degenerados, como uma classe de pecadores inferior à dos pecadores heterossexuais, impedindo que tenham os mesmos cargos e ministérios que eles, e tratando-os como doentes. Ou seja, assim como discriminaram mulheres e pretos por não acharem correto lhes dar a mesma dignidade considerada normal para os homens brancos, agora discriminam os gays. Isto é, fazem distinção entre esse grupo e os demais, oferecendo a ele tratamento diferenciado.

A Igreja acredita em grande parte que ama os gays e os recebe de braços abertos. Mas a realidade é diferente. Se quiserem se tornar heteros, os homossexuais serão acolhidos. Caso não consigam alcançar essa mudança, serão convidados a viver em celibato. Pedidos tão radicais não são feitos a nenhum outro tipo de “pecador”.

São muitos os cristãos LGBTQI+ que se sujeitam a esse tratamento porque acreditam que podem mudar e que precisam fazer isso para agradar a Deus. Seguem em ambientes cristãos apenas até se darem conta de que, embora tolerados, jamais serão vistos ou tratados como os demais, o que significa que serão sempre discriminados de uma maneira ou de outra, ainda que em meio a um discurso de amor.

Termino explicando. Não estou dizendo que a Igreja parou de discriminar pessoas pretas e mulheres. Não parou. Estou dizendo que os cristãos reinterpretaram a Bíblia para condenar a escravatura, que antes defendiam, e para dar às mulheres a chance de ser pastoras, que antes combatiam. Mas o discurso quanto aos gays segue a mesma ladainha: “A Bíblia é clara”.

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