Quebrar a cara é bom

Ryan Reynolds em A Proposta – Walt Disney Studios, 2009

As coisas estão especialmente difíceis para mim desde a semana passada. Tem muita coisa na minha cabeça e, quando tento descobrir onde ela começou a ficar bagunçada, lembro de dois acontecimentos bobos.

Primeiro, eu publiquei meu texto mais importante sobre Bíblia e homossexualidade na terça passada, e a repercussão não foi como eu esperava. Vivo dizendo para mim mesmo que valorizo demais a chance de ajudar uma pessoa, que seja. Mas também quero ter alcance. Porque eu sei a qualidade e importância do meu conteúdo.

Tenho mania de acreditar que boa parte dos problemas entre os gays e a Igreja é a simples ignorância, e quero que o maior número possível de pessoas tenha acesso às informações que eu tive a sorte de descobrir, e que não se encontram tão facilmente em português. Eu mesmo só soube das coisas que compartilho porque falo inglês e tropecei nos gringos certos na internet. Então é difícil trabalhar por uma semana num conteúdo essencial para o cenário em que a gente se encontra e não ver ele bombar.

O segundo probleminha foi que, umas três semanas atrás, me marcaram numa publicação evangélica homofóbica no Instagram, só para eu ver. Era um conteúdo super nocivo, e meu coração quebrou por ver vários jovens gays dizendo que criam naquilo, que ainda seriam “libertos”, e até aceitando sugestões para conhecer uma equipe que trabalha com “terapia de conversão”. Deixei um comentário explicando que tudo aquilo estava equivocado, e que minha caixa de mensagens estava aberta a qualquer cristão gay que quisesse conversar.

Passaram dias. De repente, uma resposta. Mas era uma cristã fundamentalista querendo me “ensinar em amor”. Já cresci o bastante para não ficar discutindo com essas pessoas na internet, então mandei um link para o meu último texto para ela se informar. Leu e retrucou. Respondi tentando dar fim ao assunto. Retrucou de novo, com uns nove comentários. Encerrei de novo com um só e ela desistiu.

Não foi nada de mais. A irmã Zuleide mal conseguiu me irritar, o que é um ótimo sinal de que estou sarando. Meses atrás, eu teria ficado muito nervoso e responderia com sarcasmo. O problema foi a garota não aprender absolutamente nada com o que leu. Ela respondeu com contradições que nem notou. Fazendo perguntas que achou serem perspicazes, mas que eu já tinha respondido no texto. A ignorância era tamanha, que ela nem entendeu o que escrevi.

Depois de muitos anos trabalhando com cristãos, me dei conta de que boa parte deles não estava mal por questões espirituais ou de caráter. Um dos maiores obstáculos para o diálogo com os crentes é que a gente vive num país onde apenas a minoria tem acesso a boa educação, e isso complica qualquer comunicação, especialmente de temas complexos. Por maior que seja o meu esforço para usar uma linguagem acessível, muita gente não vai me entender.

Esse acontecimento também me fez lembrar outra coisa, relativa à Dinâmica em Espiral. Quando você está em certo estágio, a visão de mundo do estágio seguinte sempre parece grego para você. As pessoas não discordam apenas porque não querem entender, mas porque realmente não conseguem entender.

Isso quer dizer que toda vez que eu penso que nossas discussões com os evangélicos vão terminar se eles simplesmente forem apresentados aos fatos, estou viajando. Você e eu, que estamos em desconstrução, não chegamos aqui por causa da verdade. Não questionamos o que nos ensinaram porque esse é o nosso jeitão. Chegamos aonde estamos porque nos desiludimos. Frequentemente, uma pessoa religiosa fundamentalista só passa a entender o discurso dos desconstrucionistas quando sofre um desapontamento insuperável dentro da Igreja. Tentar convencer pessoas confortáveis na religião é geralmente inútil.

Eu já sabia disso há muito tempo, mas é bom deparar de novo com a desilusão. Talvez fosse isso que faltasse para eu finalmente desistir de ajudar cristãos com o que escrevo. Afinal, eu já tinha decidido escrever para quem está em desconstrução, e não para quem ainda acha que a Bíblia é a “palavra de Deus”.

Conforme encerro este texto, sinto meu corpo sinalizar a ansiedade. Sei que é porque tomei outro golpe no sonho infantil de ajudar a Igreja. Se deus quiser, o golpe fatal. Tenho fé de que esse desapego me impulsione para o estágio seguinte do meu crescimento, em que estou em paz por não poder mudar os outros. E por não precisar ou querer fazer isso. Esse é o destino para o qual venho me dirigindo há algum tempo.

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