Romanos 1: nada sobre os gays

A passagem bíblica mais importante na luta antigay está no primeiro capítulo de Romanos. Isso é super curioso porque, claro, o texto não é sobre sexualidade. Aliás, a carta inteira passa longe de ser sobre os gays.

A troca

O livro de Romanos realmente menciona homoerotismo. Isso não é sinônimo de homossexualidade, só para constar. Paulo parece obcecado por essa questão em vários momentos na Bíblia, como era normal para a maioria dos pensadores de sua época, o que você pode entender melhor conferindo o contexto histórico deles — é só clicar aqui. Mas nesse discurso específico aos romanos, o apóstolo usou palavras-chave, destacadas nos seguintes versos:

Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. (Rm 1:26-27)

Observe o que está escrito sobre certas mulheres no contexto dessa carta. Sabemos que trocaram relações sexuais naturais por outras, mas não sabemos por quais. O texto não diz nada sobre mulheres se deitando com mulheres, mesmo porque isso era comum e não havia nada na Lei de Moisés que condenasse tal prática. Quanto aos homens, nada é dito sobre afetividade ou amor entre eles. Em vez disso, trata-se de homens que abandonaram suas mulheres por mero apetite sexual.

Isso acontecia, mesmo, na época de Paulo. Para gregos e romanos, sexo entre homens era normal, (inclusive para iniciar rapazes sexualmente), o que certos homens casados passavam a preferir, deixando suas esposas desamparadas. Mas esses caras não eram considerados homossexuais em suas sociedades. No máximo, eram tidos como maus esposos.

Mais de 2.000 anos depois de esse texto ser escrito, já comprovamos cientificamente que as pessoas não se tornam homossexuais trocando uma inclinação por outra. Na verdade, a orientação homo surge tão naturalmente para os humanos quanto a orientação hetero. A Organização Mundial de Saúde atesta.

Se você acredita que a Bíblia é a palavra imutável de Deus, que não precisa ser contextualizada pois carrega a sabedoria divina para gente de todas as épocas, é preciso levar a sério quando Paulo diz que trocar sua inclinação é uma coisa abominável. Se Deus odeia quando alguém muda de orientação, a “terapia de conversão” é um pecado muito grave.

Neste mapa dos EUA, estados e cidades que proíbem “terapias de conversão” estão marcados em azul. (SPQRobin, usuário Wiki)

Entendendo a carta

Romanos é uma carta do apóstolo Paulo para os judeus convertidos ao Cristianismo em Roma. Como você deve saber, os judeus sempre se sentiram espiritualmente superiores ao resto do mundo — escolhidos e separados por Deus. Naturalmente, os cristãos de origem judaica se achavam melhores que os cristãos de outras origens, como os crentes gregos, por exemplo.

Foi esse problema que originou a carta aos romanos. Ela é, acima de tudo, um esforço de Paulo para demonstrar a judeus cristãos que todos são iguais diante de Deus.

Apóstolo Paulo escrevendo suas epístolas, Valentin de Boulogne

Contrário à natureza

Essa é uma expressão favorita do discurso antigay, tirada de Romanos. Mas, por questão de coerência, não deveria ser. O movimento evangélico não aceita mesclar a Bíblia com a filosofia grega, e é justamente dessa mistura que Paulo tirou o famoso termo “contrário à natureza”. Não se trata da palavra de Deus nem de Paulo sobre a homossexualidade, mas de uma ideia judaico-helenística que estava na moda quando o apóstolo escreveu aos crentes em Roma. E o que essa terminologia está fazendo no texto paulino? Simples: por quase todo o capítulo um, Paulo não está usando suas próprias palavras. Ele está citando um filósofo da moda; ao que tudo indica, Fílon.

Retrato de Fílon, André Thévet

Uma coisa muito comum na retórica do Novo Testamento é a citação. Jesus mesmo recitava o Antigo Testamento para concordar e discordar dele o tempo todo. Pedro, Paulo, Tiago, todo mundo costumava citar o AT ou um discurso judaico corrente antes de apresentar seu próprio ponto de vista sobre espiritualidade. Sem isso, eles nem conseguiriam chamar atenção dos judeus para o que tinham a dizer. Paulo não fazia diferente.

A estratégia do apóstolo na carta aos Romanos é essa, bem familiar de quem leva a Bíblia a sério. Primeiro, ele apresenta o pensamento judaico do momento. Então, quando seu público está atento e confortável ao se sentir reafirmado em suas crenças, chega o cajado de Jesus passando a rasteira em todo mundo, reinterpretando e contextualizando ensinos antigos, apresentando novas perspectivas sobre pensamentos que precisavam mudar.

Como identificar a citação

Os crentes geralmente não percebem isso porque não costumam ler a Bíblia. Mas é fácil notar que Paulo está repetindo a fala de outra pessoa em Romanos porque ele expõe um raciocínio que não concorda com outras cartas que escreveu. Para começar, o apóstolo fala de um Deus que abandona pessoas a pensamentos e disposições reprováveis para praticarem o mal. Hein? Como é que Paulo, antigo fariseu, podia dizer uma coisa dessa sabendo o que a Bíblia afirma nos Salmos?

Ainda que me abandonem pai e mãe, o Senhor me acolherá. (Salmos 27:10)

Em segundo lugar, Paulo sempre se desgastou ao ponto de ser perseguido por pregar as boas notícias de que Jesus podia e queria salvar o mundo inteiro. Aliás, ele diz que, em Cristo, todos foram justificados, sem distinção de raça, religião e mais:

Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. (Gálatas 3:28)

Romanos 1 lista uma série de pecadores que não estão simplesmente fazendo o que querem. São pessoas que fazem o mal porque o próprio Deus as entregou a disposições mentais propensas à prática do mal, o que é muito bizarro se você pensar que a Bíblia diz que Deus é amor e que ele é bom, e se você acredita que a justiça dele é restauradora, não punitiva. Sem falar que o apóstolo Tiago, maior que Paulo na Igreja Primitiva, escreve o seguinte na Bíblia:

Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: “Estou sendo tentado por Deus”. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido. (…) Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes. (Tiago 1:13-17)

As pessoas gastam tanto tempo discutindo sobre sexualidade baseadas em Romanos 1 porque não percebem algo muito mais importante em jogo: elas precisavam mesmo analisar se acreditam no Deus descrito ali. Afinal de contas, ele só distribui boas dádivas e dons perfeitos ou também presenteia os gentios com disposições incontroláveis para o mal? Cuidado com os calvinistas que vão tentar fazer você achar que um deus que controla quem é bom e quem é mau pode ser bonzinho.

Por fim, Paulo falava de um Deus que queria vida nova para todo pecador, mas o começo de Romanos diz que as pessoas abandonadas por esse mesmo Deus para pecar são indesculpáveis e merecem a morte. Não seria possível Paulo acreditar nisso e pregar o Evangelho “a toda criatura” ao mesmo tempo. Você sabe, a história de um tal de Jesus, que perdoou um criminoso crucificado por Roma e que morreu no lugar de outro, Barrabás. Essa parte do primeiro capítulo de Romanos é totalmente incompatível com o que Paulo pregou em todo seu ministério.

Uma análise de texto como esta é a parte fácil, que qualquer um pode fazer. Nem precisa ser teólogo. Porém, os estudiosos da Bíblia possuem muitas outras ferramentas e técnicas para dissecar textos antigos. Por exemplo, conhecem o idioma em que foram escritos originalmente, o estilo retórico de Paulo, e seu vocabulário de costume. Também por causa desses fatores, os acadêmicos em geral concordam que estamos falando de uma citação.

Não é sobre gays

Quando o judeu convertido lia a introdução dessa carta de Paulo, vibrava. “Ele concorda com a gente! Ele condena as mesmas pessoas que nós! Somos mesmo separados!” Mas essas pessoas condenadas pelo Judaísmo, quem eram? Vamos olhar direitinho? O texto está falando de pessoas que:

  • adoraram e serviram a coisas;
  • abandonaram seus parceiros e foram castigados por indecência;
  • eram cheios de injustiça, maldade, ganância, e homicídio;
  • eram inimigos de Deus;
  • inventavam maneiras de praticar o mal;
  • eram desleais, sem amor pela família, e implacáveis.

Em primeiro lugar, qualquer um reprovaria gente desse tipo, independentemente da religião. Em segundo lugar, quando os cristãos encontram uma lista dessas e acham que se trata dos gays, dão uma clara demonstração de que são tão obcecados com homossexualidade, que nem conseguem ler a Bíblia direito. Afinal, somente alguém muito ignorante colocaria uma pessoa LGBTQ+ na mesma categoria de um homicida.

O motivo da citação

Vamos nos aprofundar agora, mas deixa eu recapitular primeiro. Antes de cumprir o objetivo da carta, que era mostrar que todos são iguais diante de Deus, Paulo repete o pensamento judaico corrente, sobre sua superioridade em relação aos outros, inflando o balão do ego judeu para, logo a seguir, estourá-lo sem dó. Basta ler o capítulo um inteiro e continuar para o dois, que não fica dúvida. Vou resumir para você.

Paulo vem falando o que seus fiéis em Roma pensam: “Não-judeus são um bando de gente que não obedeceu a Deus e, por isso, foi abandonada por ele para fazer todo tipo de maldade.” Logo a seguir, ele emenda: “Sabem de uma coisa? Não existe diferença entre vocês e eles. Vocês julgam essa gente, porque vocês têm a Lei para dizer o que fazer e o que não fazer, coisa que eles não receberam. Mas eles têm consciência. Deus sabe como julgar cada um. Para ele, não tem diferença entre vocês e toda essa galera que mencionei no primeiro capítulo, porque ninguém será salvo pela Lei, e sim pela graça.”

O restante da carta é sobre isso. Paulo quer que todo mundo entenda que Jesus destruiu as separações entre as pessoas e que Deus não as divide em categorias, tipo “pecadores e santos”. Ele quer deixar claro que, por meio do Espírito Santo, não importa seu sexo, sua raça, sua religião, sua orientação, nem qualquer outra coisa: todos têm o mesmo acesso a Deus. Em outras palavras, ele usa o restante da carta para discordar da citação que faz no primeiro capítulo.

Quem somos nós nessa dinâmica?

O crente sempre lê a Bíblia se colocando no lugar do povo judeu. Ele pensa que as pessoas de quem Paulo fala em Romanos 1 são os “ímpios”, os de fora da Igreja. Mas não. Isso é um erro clássico, de esquecer que as cartas dos apóstolos foram escritas para certos públicos dois mil anos atrás, e não diretamente para o crente no Brasil em 2020. Aquele discurso que Paulo cita é a antiga visão judaica das culturas que não praticavam o Judaísmo. Provavelmente, a gente se encaixaria aí.

Paulo não estava tentando dizer que os evangélicos são “mais santos” porque não praticam a lista de pecados no capítulo um de Romanos. Ele estava ensinando que os judeus deviam parar de pensar que o resto do mundo se encaixava na descrição desse capítulo. Isso significa que o crente que lê a Bíblia não deveria pensar “Graças a Deus, eu não sou como esses pecadores de Romanos 1”. Ele devia pensar “Que bom que Paulo lutou para que os primeiros judeus cristãos parassem de me rotular como esse pessoal em Romanos 1. Que bom que, apesar de gentio, Deus me vê em pé de igualdade com o povo que ele escolheu.”

Conclusão

Isso não é dizer que Paulo era a favor da comunidade LGBTQ+, porque seria impossível, já que faltava séculos para a raça humana sequer conceituar sexualidade. Mas quer dizer que Paulo não estava fazendo separação entre certos e errados, pecadores e santos, gays e heteros, porque o problema do capítulo um é apenas uma ferramenta de oratória — o pensamento filosófico que Paulo quer desmantelar. E o assunto de Romanos 1 e 2 é o seguinte:

Não importa quanto você pensa menos de pessoas que praticam o que você, suas Escrituras, e sua religião consideram pecado — todos são iguais diante de Deus. Você só deveria parar de se preocupar com o que os outros fazem da vida deles, porque Deus sabe que você é igualzinho às pessoas que você julga. O problema é que seus julgamentos falam mais sobre você do que sobre elas, e a coisa não está bonita para o seu lado.

Pode ler esses dois capítulos de novo na Bíblia, que agora você vai entender direitinho. E não esqueça de compartilhar como se não houvesse amanhã. Continue corajoso!

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