Flordelis não representa os evangélicos?

Flordelis em divulgação do clipe no YouTube “Vai passar”, da MK

A cantora, deputada e pastora cristã Flordelis foi apontada como mentora do assassinato do próprio esposo que aconteceu em junho do ano passado. A trama envolveu outras dez pessoas no que terminou em mais de trinta tiros que mataram o pastor Anderson do Carmo.

A essa altura, você deve saber que uma das justificativas mais famosas da pastora para o que fez ao marido foi esta:

Fazer o quê? Separar dele, não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus.

Para quem não tem vivência cristã, pode parecer maluquice. Fica a impressão de que Flordelis pensava que um assassinato seria escândalo menor que um divórcio. Eu não acredito que esta seja a questão, até porque a pastora não esperava ser descoberta. Só quem já foi crente entende o poder opressivo da cultura cristã antiescândalo. Para mim, a lógica do discurso da pastora é o seguinte: “Qualquer medida, por mais drástica que seja, é melhor do que escandalizar a comunidade evangélica”.

Já escrevi vários textos sobre essa obsessão cristã com a “aparência do mal”, que você pode checar nos seguintes links:

Eu não sei expressar a importância desse tema. Se você não tem tempo ou saco para ler a série toda apesar de curta, leia pelo menos o último texto, que não vai se arrepender. Precisamos falar sobre isso.

Mas o motivo desta postagem não é a cultura cristã antiescândalo. Resolvi escrever por causa de uma coisa que vi a @prethayna dizer no Twitter:

Eu mesmo usava esse argumento quando era cristão. Ele ganha várias caras, como “Fulano não nasceu de novo”, “tem uma religião, mas não teve um encontro com Jesus”, “é cristão, mas não foi cheio do Espírito” e por aí vai. O @conflictucast fez o tweet perfeito sobre a questão:

Eu sei que existem bons cristãos. Todo mundo sabe. Tenho amigos e familiares que jamais consideraria farinha do mesmo saco que Flordelis. Mas isso não significa que o Cristianismo não sofra de graves problemas sistêmicos que afetam bons e maus.

O que se consegue quando respondemos ao discurso antirracismo que “Nem todo branco é racista”, ao discurso feminista que “Nem todo homem é machista”, e aos protestos contra a discriminação policial que “Todas as vidas importam”? Estamos ignorando a voz da minoria, respondendo sem antes observar sua realidade. Essa costuma ser a resposta de quem não olhou para dentro, não observou seus privilégios, não entendeu que o fato de haver exceções às regras não anula os problemas coletivos.

Não adianta dizer que a pastora e deputada não representa os evangélicos, pois ela é, sim, uma evangélica de imensa representatividade. Foi eleita por cristãos, com o apoio de líderes religiosos e políticos evangélicos de diferentes denominações, e cantou a crentes de todo tipo Brasil afora em palcos cristãos.

Quanta gente anda por aí fingindo ser cristão? Os evangélicos maus continuam dizimando, ofertando, orando, jejuando, sendo discipulados, e não precisariam de tudo isso se quisessem apenas a fachada, em vez da experiência espiritual legítima. Quase ninguém está mentindo sobre sua fé. Eu sei perfeitamente que ser cristão é, em tese, seguir Jesus. Mas as pessoas mais glorificadas pelos evangélicos como exemplos de caminhada cristã frequentemente estão longe de parecer com ele.

Cristãos maus, porque seguem um código de conduta comum a outros cristãos, passam despercebidos entre eles no que diz respeito ao seu caráter, enquanto ganham posição de prestígio ministerial. Cantando sobre amor e vitória, gritando contra o aborto e os gays, Flordelis arrastou uma multidão de fãs e apoiadores, pois apresentou um testemunho que satisfaz a expectativa evangélica a respeito de um bom cristão. O Cristianismo não tem condições de avaliar quem é santo e quem não é.

Flordelis não é um caso isolado, coisa que pode ser confirmada por sua família contando dos pastores estrangeiros que se deitaram com as filhas adotivas da deputada. Como bem observaram muitos tuiteiros esta semana, é fácil perceber que Flordelis não é caso isolado quando você se dá conta de que, na semana passada, cristãos “pró-vida” protestavam contra o aborto legal de uma garota de dez anos violentada pelo tio, exigindo que ela deixasse a infância para se tornar mãe. Mas a respeito do pastor Anderson, onde estão os pró-vida? Por que não tem sequer um líder proeminente evangélico se pronunciando sobre esse assassinato?

Os cristãos possuem todo o tempo do mundo para caçar pelo em ovo de pecadores, desde que estes sejam os gays, os “pró-aborto”, os “liberais”, os “hereges”, os “hipergraça”, e os “apóstatas”. Mas sobre um escândalo de proporções gigantescas, eles fazem silêncio porque:

  • Os donos de impérios têm medo de se pronunciar e acabarem tendo suas famílias investigadas, como tuitou @yago_ws;
  • Porque “os silêncios são tão importantes quanto os discursos na manutenção da religião enquanto sistema de controle social”, nas palavras da @meninadaviola;
  • E, na minha visão, por causa da tendência de considerar qualquer evangélico em escândalo como não-evangélico, que é uma postura muito mais fácil do que analisar os problemas sistêmicos da religião, coisa que os cristãos naturalmente não fazem pois se entendem escolhidos, santos, separados, superiores.

Dizer que Flordelis não é cristã de verdade é insinuar que o apoio em massa que ela recebeu da comunidade evangélica não diz nada sobre a Igreja, e isso seria irresponsável. O caso da pastora dá à comunidade cristã a chance colocar de lado a impossível tarefa de definir quem é santo e quem não é para, em vez disso, se reavaliar. Passou da hora de a Igreja assumir suas falhas e dialogar sobre elas para resolver.

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