Cristãos odeiam melhor

O Phil Drysdale foi a única pessoa que vi desbancar esse bordão que os cristãos aprendem desde pequenos: Ame o pecador, odeie o pecado. Li o ponto de vista dele pela primeira vez quando já estava em desconstrução, então não me senti incomodado como um cristão conservador se sentiria. Na verdade, fiquei imediatamente interessado e me identifiquei com o discurso, na época. Então, coloquei abaixo minha tradução livre do que ele enviou por newsletter em janeiro de 2019.

Na foto por Alex Milan Tracy, a placa na mão do garoto traz a frase “Quem Jesus vai destruir?”

Ame o pecador, odeie o pecado

“O que você acha desse título? O que ele provoca em você? Postei isso ontem no Facebook e no Instagram, e as respostas que recebi me intrigam. Muita gente brigando para ter de volta o resto da frase. Muitos focando o pecado.

Acontece que meu intuito não era dizer que você não deveria odiar o pecado. Se ele está causando dor e sofrimento aos outros, tudo bem odiar que ele faça isso. Odiar aquilo que machuca as pessoas é uma resposta natural quando você as ama. E esse era o meu ponto: a maior parte da frase que usei como título aqui é irrelevante.

Se você ama como Deus primeiro o amou, então vai odiar o pecado quando necessário. Mas quando você se concentra em odiar o pecado, quando isso se torna parte de quem você é e do que você faz, fica MUITO fácil pisar na bola na hora de amar. A frase em questão aqui se originou com as melhores intenções, mas muitos hoje a empunham como um cassetete.

É impossível amar sem odiar a dor e o sofrimento que o pecado causa às pessoas ao seu redor. Mas é muito possível odiar o pecado a ponto de se perder nisso, e permitir que noções equivocadas de “juízo” e “santidade” engulam toda a nossa capacidade de amar direito.

Basta perguntar a algumas pessoas que foram atingidas por essa dinâmica de “amor / ódio”. É muito comum que um “pecador” acabe não se sentindo muito amado por quem lidou com ele a partir dessa perspectiva. Em vez disso, o imenso ódio ao pecado de alguém bem-intencionado transbordou e fez o “pecador” se sentir muito e verdadeiramente não amado.

Então, qual é o meu ponto? A questão é que, se precisamos de adendos, esclarecimentos ou instruções ao comando “Ame”, é porque ainda não entendemos o amor.

Vamos voltar para a prancheta. Vamos nos concentrar naquele que nos ama. Vamos permitir que seu amor por nós defina como amamos. Vamos permitir que tudo o mais se torne totalmente irrelevante. Que sejamos conhecidos pelo nosso amor, não por quanto odiamos o pecado.

Mais uma vez, não estou dizendo para promover o pecado ou dar um tapinha nas costas das pessoas pelas coisas destrutivas que fazem. Só estou dizendo que, se estivermos concentrados em amar, essas coisas vão se resolver. E vão se resolver de uma maneira amorosa até chegar a um patamar de amor.” | –Phil Drysdale

Implicações muito reais

Na foto por Jim Bourg, as placas dizem “Deus odeia veados” e “Veados condenam nações”

Quando odiar se torna parte determinante de uma fé, os desdobramentos são muito graves. Qualquer um é capaz de odiar, mas a história nos mostra que raramente algum ódio é mais violento e implacável do que aquele alimentado pela fé, pois passa a ser encarado como virtude. Não é sem motivo que C. S. Lewis escreveu que “de todos os homens maus, os homens maus religiosos são os piores”. Uma vez que, para ser considerado um bom crente, é mandatório odiar o pecado, os cristãos parecem ser as pessoas com maior potencial para odiar “pecadores”. Sim, estou generalizando, porque as exceções não anulam as regras.

Todo mês alguém me escreve dizendo quanto foi machucado por cristãos bem intencionados. São rapazes e moças não-heterossexuais, cansados dos discursos de familiares, líderes espirituais e colegas de igreja, que repetem frases desse tipo:

  • Eu não posso apoiar sua escolha, mas saiba que estou aqui quando quiser conversar.
  • Cada um tem direito de fazer o que desejar, mas você não pode mudar o que a Bíblia diz. Saiba que estou orando por você e que eu te amo.
  • As portas estão sempre abertas para você. Volte. Pois a verdadeira paz e felicidade, você já experimentou, e sabe que só Jesus pode dar. Eu vou ficar tranquilo quando souber que você está feliz de verdade.
  • Meu querido, você sabe que está se enganando; você conhece a Palavra de Deus. Ela não muda. Nós é que mudamos. Mas Jesus não vai desistir de você, e eu também não.

Não precisei imaginar nada disso. Essas palavras foram ditas a mim ou a alguém que me escreveu. As pessoas que falaram essas coisas acreditam que estão agindo por amor, e a gente sabe muito bem da sua boa intenção. Mas, por trás disso, sentimos o fedor que esse pessoal não sente mais, do ódio ao nosso “pecado”. E não nos sentimos amados.

Esta semana, no Recife, a verdadeira cara do discurso “Ame o pecador, odeie o pecado”, se revelou para todo o Brasil, revirando o estômago de qualquer pessoa sensata.

Uma garota que engravidou do próprio tio após ser estuprada por ele durante quatro anos exerceu seu direito ao aborto, garantido por lei. Cristãos que fervorosamente odeiam o aborto se reuniram na frente do hospital onde o procedimento seria realizado, em nome de seu amor pela vida. Gritaram para a vítima e o médico responsável pelo caso que eles são assassinos. Protestaram e oraram publicamente para uma garotinha de dez anos parir.

Ninguém ama o aborto. Se a gente acredita que ele é pecado ou não, nem vem ao caso, que a questão é outra. Para todo o mundo ver, o ódio cristão ao “pecado” está evidente. O amor ao “pecador”? Ninguém viu.

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