Pare de odiar o pecado

“Ame o pecador, odeie o pecado.” As pessoas que concordam com essa frase costumam ser as que não perceberam como isso faz mal para si próprias e para os outros. Eu sei porque, no meu caso, mesmo, a ficha demorou para cair.

Odiar o pecado não é coisa de somenos na cultura cristã. Eu acho que você não tem nem direito à sua carteirinha de crente se não levar isso bem a sério.

Calvin e Haroldo, de Bill Watterson. A placa diz “Ame o pecador, odeie o pecado”.

Lembro de uma conversa com um amigo anos atrás. Ele me contou, muito alegre e aliviado, que conseguiu se libertar da pornografia. Estava feliz porque agora tinha ódio dela. Eu, que vivia confessando para Deus que um dos meus maiores problemas com certos “pecados” era gostar deles, fiquei muito interessado. Perguntei se meu amigo tinha escolhido sentir aquele ódio ou se isso vinha de Deus, tipo uma dádiva. O garoto pensou e respondeu: Eu escolhi. Na época, achei nobre da parte dele. Dentro da religião, a gente é levado a acreditar que escolher odiar pode ser sinal de bravura, de devoção.

Eu fiz todo tipo de esforço para odiar as coisas que considerava pecado lá atrás. Nada foi suficiente para me fazer parar de “pecar”, mas não quer dizer que não surtiu resultado. Eu conquistei o ódio. Aprendi o nojo. Estou até hoje colhendo os resultados.

Cada vez que eu fazia algo que não devia, ficava mais difícil me levantar. Eu olhava meu reflexo no espelho e fervia de raiva. Olhava nos meus olhos e dizia que eu era estúpido, louco, pervertido. Orando e implorando perdão, esmurrava meu peito e estapeava meu próprio rosto. Quanto mais odiava o “pecado”, mais odiava o “pecador”: eu mesmo.

Tem um livro de Brennan Manning que recomendo a todo cristão. Se o título dele fosse traduzido ao pé da letra, ficaria mais ou menos assim: Filho do Pai — o clamor do coração por íntimo pertencimento. Doce. Romântico. Não venderia tanto quanto o nome que o livro ganhou no Brasil: O impostor que vive em mim. Agora sim, um título que apela ao público evangélico obcecado por autodepreciação. E aqui vai um trecho dele, quando Manning cita Henri Nowen.

A autorrejeição é o maior inimigo da vida espiritual porque contradiz a voz sagrada que nos chama de “amados”.

Viu o que destaquei? O maior inimigo da vida espiritual. Mas como pode alguém que odeia seus “pecados” não sofrer de autorrejeição, uma vez que se enxerga como o pecador?

Calvin e Haroldo, de Bill Watterson.

Isso tudo é obviamente problemático, mas ainda estou falando apenas de odiar a si próprio. É importante também se desfazer da ilusão de que posso “odiar o pecado” e ter meu coração imune em relação aos “outros pecadores”.

Minha última publicação aqui recebeu o nome Quem odeia o pecado odeia o pecador. Fora de contexto, é uma declaração simplista, claro. Um cristão que ouve isso se apressa em se defender. “Não concordo!”, uma pessoa respondeu no meu Instagram, provavelmente sem ler nada além do título da postagem. Sempre ouvimos coisas como “Posso odiar o alcoolismo e, mesmo assim, amar um alcoólatra”. O problema é a subjetividade do que seja amar.

Quando dizemos que existe amor entre duas pessoas, o sentimento determinante não deve ser o do amante, mas o do amado. Quer saber se um pai ama o filho? É ao filho que você deve perguntar. A mãe abusiva, que xinga e distribui bofetadas, pode dizer que a culpa de suas ações é o tratamento que recebe do esposo, o álcool, ou mesmo o comportamento da criança, que ela jura amar profundamente. Mas o filho sabe se foi amado ou não.

É confortável para as pessoas religiosas dizer que amam o pecador. Mas pergunte aos de fora se gostam de ser vistos como pecadores. Os cristãos dizem que odeiam a homossexualidade, mas que não odeiam os homossexuais. Então observe se os gays têm os mesmos direitos, as mesmas liberdades, se ocupam os mesmos cargos que os heteros, e se o ódio ao seu “pecado” não afeta o amor que experimentam na Igreja. Pergunte às mães solteiras, às crentes que transam antes do casamento, às que vestem roupas mais reveladoras, se são tratadas como as irmãs “consagradas”. Elas dirão se o ódio ao seu “pecado” não afeta o amor que recebem.

Quem odeia o pecado ganha o poder de determinar quem é o pecador. E é assim que as pessoas passam a receber tratamentos distintivos, e não o mesmo amor que os santos merecem. O nome dessa distinção é discriminação. E acho difícil alguém discriminado se sentir amado por quem o discrimina.

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