Quem odeia o pecado odeia o pecador

Kronk, em A nova onda do Imperador – Disney

Faz bastante tempo que comecei a rejeitar a mentalidade dualista. Mesmo dentro da Igreja, eu já pregava contra o hábito de separar as coisas em duas categorias opostas porque isso pode ser simplista e perigoso.

Lembro que, anos atrás, achei o máximo um artigo evangélico sobre mentira. Cresci ouvindo que mentir é pecado em qualquer cenário e, para mim, isso era sério ao ponto de eu me tornar ridiculamente verdadeiro. Desde criança, falava a verdade mesmo quando sabia que ia me ferrar. E aquele artigo, escrito por uma jornalista evangélica, apresentava a seguinte questão.

Você está no meio da Segunda Guerra. Tem judeus escondidos na sua casa. Um oficial nazista bate à sua porta e pergunta quantas pessoas estão morando ali. A atitude mais correta, moral e cristã não seria mentir?

A minha grande referência, o Phil Drysdale, me ajudou muito com a mania de separar tudo entre certo e errado. E agora também estou aprendendo isso com um podcast sobre budismo secular.

Meditar, como falei para vocês outro dia, é um exercício para aceitar o momento presente como ele é. Tem a ver com abrir mão da obsessão por controlar todos os eventos da vida, porque isso gera ansiedade, depressão, e mais um monte de coisa.

Um dia desses, ouvindo o podcast que mencionei, me peguei pensando sobre como a vida evangélica pode estimular o pensamento dualista. Se a gente não toma cuidado, cada escolha do nosso dia acaba girando em torno de certo e errado, pode e não pode, céu e inferno. Ficamos viciados em rotular as coisas. Temos dificuldades para fazer escolhas por que não sabemos se algo é pecado ou não. A gente até avalia cada traço da nossa personalidade, apelidando tudo de “bom” ou “ruim”, geralmente, com ênfase no segundo, já que a teologia tradicional diz que somos todos inerentemente depravados e incorrigíveis, vermes carentes do favor imerecido de Deus, e tal.

“Ame o pecador, mas odeie o pecado”. É o que todo cristão aprendeu. O problema é que essa separação é impraticável. A gente vai se autoavaliando dia a dia, percebendo mais coisas “ruins” a nosso respeito do que imaginava e, de repente, estamos com raiva de nós mesmos. “Como posso ter tantas coisas horríveis dentro de mim? Como posso fazer tanta coisa ruim? O que tem de errado comigo, para eu não conseguir mudar? Por que eu sou assim?!” Pronto. A gente se odeia. E a aversão que temos de nós mesmos fica cada vez maior, conforme aumenta o número de coisas na gente que rotulamos como pecado. Incluindo aquelas que fazemos sem querer. No fim das contas, quanto mais ódio ao pecado, mais ódio ao pecador.

Vencer essa mentalidade imatura dualista é um dos principais objetivos da minha desconstrução pessoal. É uma das coisas mais poderosas que eu descobri na meditação e que tem me ajudado diariamente a vencer a depressão decorrente do passado e a ansiedade relativa ao futuro. E é por isso que eu gosto de estender a minha mão para vocês, que estão desconstruindo. Continuem corajosos.

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