Por que você levou isso para o altar?

Eu em 2015, por Carla Faria

Eu recentemente trouxe perspectiva sobre o questionamento que um leitor fez outro dia, mas não cheguei a responder a pergunta dele para vocês. Se eu já sentia atração pelo mesmo sexo desde os oito anos, como pude exercer ministério por tanto tempo, no altar e impondo as mãos?

Acho que quem me acompanha não precisa dessa resposta. Tenho certeza que os gays cristãos não precisam. Mas também acredito que todo mundo sai ganhando se eu colocar minha experiência em palavras, que é a mesma de tanta gente em silêncio na Igreja. E também porque existe muita ignorância sobre o assunto.

Em primeiro lugar, sentir atração não é a mesma coisa que saber o que sente. Crianças não são gays ou heteros, porque os humanos só despertam sexualmente na puberdade, via de regra. No meu caso, entender o que eu sentia por homens só aconteceu aos trinta e um anos, fora da igreja. Já escrevi aqui que a palavra atração nem passava pela minha cabeça antes disso, sempre substituída por outras que a religião me ensinou.

Desde pequeno, quando um homem chamava minha atenção, eu repetia para mim mesmo que estava sob tentação demoníaca, e isso não mudou durante a adolescência e juventude. Eu me sentia muito culpado, mas sabia que sofrer tentação não é o mesmo que pecar, porque a gente não escolhe.

Fui crescendo e passei a interpretar meus sentimentos como resultados de trauma, ausência, e carência. Todas as pseudoexplicações que o evangelicalismo usa sem saber que foram cientificamente desbancadas.

Com uns dezesseis anos, tive um envolvimento com um amigo. Para muita gente, esse seria o momento de sair do armário. Mas eu acreditava sinceramente que a homossexualidade não passava de uma ilusão momentânea. Na minha cabeça, eu era um heterossexual caindo na tentação de praticar “pecados homossexuais”, o que me causava tanta culpa e vergonha, que quase me suicidei. Não houve nada romântico entre a gente. Eu permiti que aquilo se desenrolasse para tentar provar para mim mesmo que eu não gostava de homens. Genial, eu sei.

Meu amigo e eu fomos descobertos, afastados um do outro e dos nossos ministérios, e eu me senti aliviado porque poderia me consagrar a Deus sem jamais me envolver com outro homem. Passei meses longe do altar, me dedicando à oração, à Bíblia e ao jejum.

Foi anos depois disso que meu ministério começou a crescer. Eu ainda me sentia “tentado”, mas não tocava em homens. Segundo o que eu tinha aprendido, eu não era um gay carregando o pecado da homossexualidade para o altar, mas um heterossexual triunfando sobre a tentação para poder seguir Jesus. Uma tentação que eu nunca quis, e que implorava quase todo dia para Deus tirar de mim. Impor as mãos nessa condição pode parece “muito sério” para alguns, mas é muito nobre para quem está na nossa pele.

A igreja não exige de ninguém que viva livre de tentações antes de impor as mãos. Ela pede que você viva lutando contra o pecado, porque ninguém pode evitar ser tentado. E eu lutei de todas as formas que pude, em congressos de libertação, varando madrugadas em oração e prantos, e pedindo a quem pudesse para expulsar de mim os “demônios da homossexualidade”.

Durante todo esse tempo, vivi esmagado pela culpa por não conseguir ser um “homem normal”. Morria de vergonha. Mas eu ainda procurava conhecer alguma garota com quem pudesse namorar, sempre me considerando um heterossexual e odiando homossexualidade, já que me disseram que eu podia amar o pecador, mas devia odiar o pecado. E como eu odiava.

Tinha aprendido que Cristo usava pessoas imperfeitas, fosse qual fosse a dificuldade delas, como a própria Bíblia mostra. Que ele escolhia as coisas fracas para confundir as sábias, que a graça transbordava na nossa fraqueza. Davi, ao ser tentado, matou para satisfazer seu desejo sexual, e ainda foi chamado de “homem segundo o coração de Deus”. Então eu, que não fazia nada de errado, cria que também poderia ser um instrumento de bênção. Mesmo assim, só Deus sabe quanto eu suplicava que apenas o que vinha dele fosse transmitido às pessoas com quem eu falasse e tocasse. Quanto medo eu tinha de ser um canal do mal.

Nessa época, várias pessoas que não sabiam de nada vinham orar por mim e diziam: “Deus me pede para avisar que suas mãos são limpas. Não tenha medo de impô-las sobre os outros. Você é canal de benção”. Se Deus limpava as minhas mãos da pornografia que eu não conseguia largar, eu precisava continuar. Ele via o meu arrependimento e sofrimento, amargo a ponto de me levar a estados depressivos cada vez mais graves. E continuei. Me confessava com algumas pessoas, me humilhava para sentir que não estava carregando pecados para o altar.

Eu guardava o que tinha ouvido da Ana Paula Valadão numa reunião exclusiva em Alphaville. Ela disse que não tirava pessoas do ministério se soubesse que pecaram, porque Deus pode usar qualquer um apesar dos seus erros, e o próprio altar, afinal, costumava ser o lugar de restauração daquelas pessoas. A Ana foi interrompida pela Valnice Milhomens, que tomou o microfone e disse que “Deus tem maior compromisso com a semente do que com o semeador”. Ela explicou que, mesmo que um ministro seja falho, a semente, que é a Palavra de Deus, o próprio Jesus, ainda pode alcançar vidas através dele. E aquilo mudou minha vida. Afinal, eu nem queria ter os desejos e apegos que tinha, e era no altar que eu me sentia mais perto de Deus e útil para ele.

Eu subi ao altar porque queria fazer a vontade de Deus mais do que qualquer coisa. Pessoas profetizaram por toda a minha vida que eu seria uma bênção no ministério, e servir à Igreja era o meu maior sonho. Eu impus as mãos porque acreditei de coração que o poder de Deus era muito superior ao poder dos meus erros e fraquezas, e porque vi, através delas, inúmeras pessoas sendo curadas, libertas, e encorajadas. E ninguém sabe o preço que paguei por isso.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s