Gay impondo as mãos

Eu em 2015, fotografado pela Carla Faria

Esta semana, alguns de vocês tiveram o privilégio de contemplar o comentário de um hater aqui no blog. Ele escreveu que achava “muito sério” eu saber que tinha sentimentos em relação ao mesmo sexo desde os oito anos e, mesmo assim, ter subido ao altar para ministrar, impondo as mãos sobre as pessoas.

Ele jura juradinho que não é hater. Achei tão bom, que até rendeu tweet. Escrevi que você não precisa odiar para ser hater. Na verdade, a gente quase nunca identifica um hater por causa de ódio. Geralmente, é por causa de um discurso inquisitivo, preconceituoso, prepotente, que diminui o outro nas entrelinhas.

Apesar de tudo, sei que esse episódio pode revelar a dúvida sincera de muita gente, e resolvi oferecer perspectiva. Não para a pessoa que começou a discussão, mas por causa de outros leitores, que chegam aqui de mente e coração abertos.

O pastor nervoso

Num domingo, no meio do sermão, um pastor revela sua fraqueza. “Meus irmãos, eu perco a linha no trânsito. Eu tenho o ímpeto de xingar, de gritar palavrões. Quando alguém me corta, minha vontade é descer do carro e encher o cara de porrada. Eu falo de quebrar ele, mesmo, amados! Já pensei em comprar um taco de beisebol! Mas eu não faço isso, meus irmãos. Eu canto um louvor!”

Ninguém duvida desse testemunho, porque a igreja toda sabe que o sacerdote realmente é muito… “enérgico”, como dizem. O pastor conta isso para que a galera se identifique com ele. Todos riem um pouco da teatralidade, e terminam o culto inspirados a trabalhar seu autocontrole. Funciona. O pastor é um modelo de “domínio próprio”. Ninguém se incomoda muito com a violência que ele sugere. Culpam a testosterona. A brutalidade é normalizada.

O pastor alcoólatra

Em outra igreja, alguém descobre o passado do bispo. Ele costumava espancar a ex-esposa e os filhos quando estava sob efeito do álcool. Os rumores se espalham quando descobrem que ele frequenta uma reunião dos AA, onde testemunhou. Já passou seis anos sem relar um dedo na nova família que formou depois do divórcio. Nesse intervalo, de vez em quando ainda bebe umas latas de cerveja ou umas doses de uísque, quando não consegue resistir. Mas não se embriagou mais.

Agora sabendo do caso, a congregação assiste ao sermão de domingo com olhos marejados. “Que homem de Deus!”, eles pensam. “Todos os dias triunfando contra o vício. Seis anos limpo! Louvado seja o Senhor!” Ninguém pensa demais na família que o bispo machucou. O importante é que ele achou forças para recomeçar. O vício, com suas consequências, é normalizado.

O pastor gay

Eu em 2015 fotografado pela Carla Faria

Tanto o nosso pastor iracundo quanto o nosso bispo alcoólatra sofrem diariamente com suas debilidades. No caso, não são inclinações naturais, mas hábitos aprendidos, e que consideramos comuns aos homens.

Quando sobem ao palco, é depois de chorar suas fraquezas pela milésima vez diante de Deus. Quando impõem as mãos, é tremendo de medo. Mas continuam. Porque se sentem vocacionados. Creem que seria um pecado não compartilhar com seus irmãos tudo o que têm recebido de Cristo, e esperam que ele seja misericordioso o bastante para usar vasos quebrados.

Os fiéis aceitam esses ministérios de bom grado. São privilegiados por ver a graça emergir da fragilidade e luta humana para poder abençoá-los. Sentem-se encorajados a enfrentar os próprios vícios porque, se Deus pode perdoar e usar seu pastor, talvez faça o mesmo com eles.

O gay? Já não tem a mesma sorte. Ninguém parece entender que sua orientação não é algo que pediu ou aprendeu e pode largar. A raiva e o álcool entraram na vida dos pastores heróicos por suas escolhas. Mas cristão nenhum escolheria ser gay, disso você pode ter certeza. Não importa. Sua inclinação natural ainda é considerada uma abominação, porque “a Bíblia diz claramente”. Ele não pode ser vocacionado.

Mesmo que o gay chore lágrimas mais amargas que as de um homem violento em suas orações, mesmo que sua luta interna seja mais constante e ferrenha que a de um alcoólatra, ele não tem o direito de inspirar outros irmãos gays. É verdade que ele não tem envolvimento com homem algum, vivendo em celibato. Mas não pode ser usado por Deus enquanto não se tornar um heterossexual. “Deus usa homens imperfeitos”, ouvimos no sermão sobre o trapaceiro Jacó, a adúltera samaritana, e o sanguinário rei Davi. Mas gays não podem impor suas mãos.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s