Eu tocava e as pessoas caíam

Eu geralmente não gasto tempo com lembranças ruins sobre a igreja. É até curioso. Uma das coisas mais difíceis de administrar ultimamente tem sido as memórias boas daquela época. O que mexe comigo é não saber interpretar as sensações de êxtase, as intuições assertivas, e mais uma série de coisas inexplicáveis que rolaram lá atrás.

Eu na conferência Flames em 2015, por Carla Faria

Antigamente, era fácil. Qualquer coisa boa vinha da “unção”. Era a presença de Deus, o mover do Espírito. Eu tinha “dons espirituais”, de acordo com a carta de Paulo aos Coríntios. Talvez você não tenha tradição religiosa ou não me conheça de quando eu era evangélico, então vou explicar um pouco.

Eu vi muita gente ser curada instantaneamente através de orações. Não tenho ideia de quantas vezes disse para estranhos algo como “Sinto Deus me mostrando você dessa e dessa forma”, e as pessoas choravam, porque eu listava direitinho umas paradas que ninguém sabia. Elas se sentiam amadas, e eu sentia uma energia incrível correndo pelo meu corpo. Essa força misteriosa às vezes derrubava gente ao meu redor quando eu passava perto delas. E eu tinha explicação bíblica para tudo.

Sempre digo que o modo como encaro Deus e a espiritualidade mudou muito nos últimos dois anos. Eu não interpreto minhas vivências do passado como antes. Mas isso não as torna menos importantes. Só mais difíceis de entender.

Já colecionei fenômenos com a convicção de serem sobrenaturais. Hoje questiono a natureza deles, com um ceticismo que é comum e saudável no estágio onde me encontro. Só que, por mais importante que seja, minha incredulidade não traz respostas. E a gente não consegue simplesmente esquecer anos de experiências supostamente transcendentais. E se elas não eram o que eu pensava, o que eram?

Eu na conferência Flames em 2015, por Carla Faria

Um sonho não é uma série de acontecimentos verídicos, mas ele é real. Um delírio não é uma manifestação da verdade, mas com certeza molda a realidade da pessoa delirante. Então, quando alguém diz que sentiu a presença de Jesus, ouviu a voz de Deus ou sentiu seu poder, é quase sempre inútil discutir se tudo isso aconteceu de verdade. Foi real para a pessoa. O molde que a crença dá à nossa realidade só se quebra quando enxergamos algo que não cabe nele com nossos próprios olhos.

Tudo isso é para dizer que existe diferença entre verdade e realidade. Uma experiência não é necessariamente verdadeira só porque aconteceu dentro da minha realidade. Mas, no fim das contas, quando o assunto é Deus, quem sabe a verdade?

Este é um dos meus maiores dilemas atuais. Acho prepotente dizer que Deus falava comigo, sendo que tinha certeza disso antes. Qualquer coisa inexplicável e boa que eu via ou realizava só podia ser Deus. E hoje essa visão parece um pouco primitiva para mim. Tipo quando o mundo não sabia o que causava a chuva e ficava rezando para os deuses molharem o solo.

Tem momentos em que eu só queria descobrir a origem daquelas sensações e curas. Como raios eu sabia da vida de gente que nunca tinha visto antes, e como eu “enxergava” experiências delas dentro de mim como se fosse o flash de um filme ou uma memória. Talvez haja explicações científicas ainda não descobertas para isso. Videntes e mentalistas também têm esses superpoderes. Talvez fosse mesmo Deus, mas a divindade a quem eu atribuía esses “dons”, hoje acho que não existe. Então outro ser ou… outra coisa deveria estar em ação.

Mas também tem dias em que eu acho que tudo bem não saber. Mistério não é ruim. Seja qual for a origem daqueles fenômenos, fez umas coisas bem esquisitas e outras muito positivas. Tudo importante para eu chegar aonde estou hoje. É a melhor etapa da minha vida até agora, onde questiono o que vivi, mas não sinto falta nem saudade de nada. Hoje, sem aquela aura de sobrenaturalidade ao meu redor, estou mais em paz, mais livre, e mais feliz do que nunca. E parece que mais espiritual também, numa profundidade que eu jamais tinha experimentado.

10 comentários

  1. Bom, eu não terei palavras tão bem colocadas, até porque essa não é minha intenção e sim comentar minha experiência com relação ao que “acontecia”. Quando o vi em uma ministração em uma igreja eu vi sim que você lutava com a sua sexualidade e sinceramente eu não tinha nada com isso. O fato é que vc foi acertivo no que disse sobre uma pessoa, algo que ninguém ali sabia mas era a palavra que ele ouvia desde os 3 anos e ouviu até se tornar adulto. Sua opção sexual? era, é e será sempre um problema seu e acho que nem devia explicar tanto, porque como você mesmo citou no texto, se fossemos fazer uma CPI dos bastidores “santos” fecharíamos quase (senão) 100% das portas.
    No mais, sempre teremos um dedo apontado em nossa direção seja por sua sexualidade, seja por minhas tatuagens ou seja lá pelo que for. A diferença é que em alguns casos dá pra esconder muito bem a sua merda e em outros não tem como e aí os ratos fazem a festa.

    1. Faz muito sentido isso, Eliz! Eu explico mais por conta das pessoas que estão desconstruindo sua fé e não sabem o que fazer com as crenças que aprenderam, mesmo. Quando o assunto é sexualidade, tem muito a ver com os gays cristãos poderem se identificar com minha história e se sentirem menos sozinhos do que eu me sentia. E você tá super certa! Todo mundo é falho, não tem ninguém no altar livre de tentações ou pecados. A igreja é que gosta de criar uma escala de pecados e escolher qual é o pior. Sempre o do outro e nunca o nosso, né? Hahaha! Um beijo!

  2. Escrevo essa resposta para responder “gioully78”, que fez uma indagação escrota no segundo comentário. Querido, não sou amigo do Mitch; sou apenas um leitor que se identifica com o que Ele escreve. Fiz questão de te responder e dizer:
    1- tenha bom senso: ninguém é obrigado a ouvir suas merdas recheadas de preconceito e com uma pitada de cristianismo corrompido.
    2- seja um bom cristão, e pare de atacar.

    Cara, eu era “pregador”; iniciei o “ministério” aos 13 anos, fiz cursos livres de teologia. Me dediquei dos 12 aos 25 à igreja, ministrei em várias igrejas, era “referência” para jovens e pastores! Fui até consagrado a Diácono, acredita? Mas tudo isso caiu ao chão no momento em que eu disse que era bissexual. E acredite: nada ou tudo de bom que eu fiz (aos olhos da igreja) foi suficiente para eles! Atacado, excluído e prejudicado!

    Sua fala sobre “algo estranho”: o nome disso é sexualidade humana, tá? Outra coisa, talvez ele sentia, porém não sabia. O nome disso é: descoberta de si mesmo! Outra coisa a respeito de impor as mãos e fazer tudo isso que vocês acreditam — o fato dele se sentir “estranho” não significa nada pra Deus (estou usando esse termo pelo contexto). Pois tem gente mentirosa que impõe as mãos, ladrões e até preconceituosos como você, que IMPÕEM AS MÃOS. Se você acha muito sério isso, então seja você, querido, a referência de Cristão de que nós, gays e bissexuais precisamos, pois atitudes como a sua só reforça o nojo que tenho de religiosos, prepotentes cheios de justiça própria !
    A paz

    PS: saia no armário; aqui fora é mais lindo de se viver !

  3. Desde a época do Flames eu já achava vc estranho, se achava o erudito… se vestia estranho.. Até comentei com com alguns neste evento que achava q vc era gay. Mas se tudo que vc viveu vc está ressignificando, por que não volta a usar seu nome Misael? O Mitch era aquele do passado.

    1. Péssimas notícias. Eu me acho muito mais erudito agora do que naquela época. Você não tem ideia de quanto sou metido. E se você achava que eu era gay porque me vestia estranho, pode entrar na fila. É foda, mas muito comum não entender construções sociais sobre masculinidade nem moda. Mas você podia ter me avisado na época que seu gaydar tava funcionando melhor que o meu, que ainda não sabia da minha orientação. Quanto ao Mitch, acho que esqueceram de te contar, mas você não decide nada sobre ele. Não é você quem diz se ele era do passado, se é do presente ou do futuro. Quem decide quem é o Mitch sou eu. O mesmo Misael, o mesmo Mitch, o mesmo príncipe esnobe erudito fashionista viado que se veste estranho.

      1. Eu não sou um hater que veio trazer ódio ou deboche. Ñ sei em qual tom vc leu meu comentário, mas fui sincero somente. Minha intenção foi mostrar que mesmo naquela época já era perceptível algo diferente em vc, ainda qd nem vc mesmo percebia. Acredito que não só eu mas várias pessoas percebiam mas ninguém teria coragem de trazer isto a vc justamente por vc ser metido. Só questiono uma única coisa: Se vc já sentia algo estranho desde os 8 anos, pq levou isso até o altar? Impôs mãos? Acho isso bem sério.

      2. Tá vendo como você não sabe do que tá falando? Muita gente me trouxe isso, metido ou não. Eu apenas não tinha conhecimento suficiente para assimilar, porque aprendi que isso nem existia.

        E não, você não questiona apenas uma coisa. Tem muita coisa que você tá questionando e qualquer pessoa esclarecida que ler você pode notar.

        Você acha muito sério uma pessoa no altar impondo as mãos sendo que sente atração pelo mesmo sexo desde pequeno? Isso só mostra que você é homofóbico e mal informado a respeito do que a Bíblia fala sobre sexualidade. Mas escrevi bastante sobre isso aqui e você pode se informar.

        “Muito sério”. Faça-me o favor. Você não tem ideia do que é sentir que você é uma aberração desde criança e mesmo assim se consagrar a vida toda para servir os outros no altar de graça. Você não tem ideia do que é tremer diante de Deus sempre que vai impor as mãos sobre alguém, implorando que apenas o que vem do Espírito Santo toque essa pessoa. Você não tem ideia do que é ser gay sem saber, sem entender, e mesmo assim se dedicar tanto à oração, à Bíblia, e ao ministério, a ponto de curar dezenas e dezenas de pessoas, e de ouvir que mudou a vida delas e o relacionamento delas com Deus.

        Você não tem ideia do que é triunfar sobre você mesmo numa batalha contínua e diária para estar no altar impondo as mãos sem ganhar nada em troca.

        Não foi muito sério. Foi muito nobre. E se você não enxerga isso, faria um favor a si mesmo ficando quieto, que sua ignorância está à mostra.

    2. mano vai a merda? Kkkkkkk q comentários mais desnecessário e pedante. Poderia ter gastado o tempo fazendo outra coisa mais útil, sei la, lendo um livro ou simplesmente vegetando num sofá, deitada. Sem fazer nada. Nem importunando ninguém com comentários besta que nem esse. Eu hein.

      Mas duvido mt que tu curta fazer coisa útil. Até pq gasta tempo em evento gospel comentando com os amiguinhos o que acha da sexualidade dos outros. Essa inutilidade pra comentários aparente já vem de anos né? kkk triste.

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