Como Deus me ajudou a sair do armário

Jesus dança com a ovelha LGBTQ, de David Hayward (@nakedpastor no Instagram)

Não vejo a hora de contar a história que você veio ler, mas preciso antes explicar minha abordagem.

Quero fazer jus à importância das experiências que tive para chegar aonde estou, e também quero me comunicar com boa parte das pessoas que lerão esse texto, que são cristãs. Para isso, escolhi falar honestamente de acordo com a perspectiva que eu tinha quando vivi o que vou contar aqui.

Eu não escondo que hoje questiono grande parte das minhas vivências antigamente inquestionáveis, incluindo a própria natureza e existência de Deus. Mas, seja qual for a verdade, nossa realidade é moldada pela nossa crença. E, quando eu era cristão, essa foi a minha realidade. No fim das contas, quando o assunto é Deus, quem sabe a verdade? Então vamos à história.

Como saí do armário

No meu último ano dentro da igreja evangélica, eu estava arruinado emocionalmente. No fundo do poço, tive a chance de conversar, sem querer, com um cara considerado um grande profeta mundo afora. Ele começou a falar da minha vida sem nunca ter me visto, tudo certinho. E encerrou com esta bomba:

Apesar da sua idade, você não sabe quem é. Aprendeu a ser bom, mas não aprendeu a ter uma personalidade.

Aquilo me assombrou por meses. Porque era verdade. E, de tantas coisas que eu não sabia sobre mim, a que eu não aguentava mais era não saber se eu gostava ou não de homem.

Deixe-os comer bolo, de David Hayward (@nakedpastor no Instagram)

Na época, eu gastava muito tempo falando com Deus. Eu me dirigia ao Espírito Santo como meu melhor amigo e conversava abertamente com ele sobre tudo. E um dia, exausto e em prantos, orei mais ou menos assim:

Eu não quero te decepcionar. O que você sente me importa muito, e a ideia de te machucar é meu pior pesadelo. Mas eu não aguento mais não saber. Não é justo. Então eu ouso pedir que você passe por isso comigo. Por favor, não vá embora. Eu vou me descobrir, mas fique do meu lado. Por favor.

Para a mentalidade cristã que eu carregava, esse pareceu o pedido mais absurdo que eu podia fazer. Mas eu tinha desenvolvido uma amizade tão real e profunda com Deus, que tomei coragem mesmo assim.

Tive minha primeira experiência intencional com um cara. E foi sublime. Sempre ouvi dizer que as primeiras vezes são estranhas e desconfortáveis, mas foi tudo perfeito para a gente.

Na mesma época, me permiti ter uma primeira experiência com uma garota também. Ela era confiante e bonita e qualquer cara teria sorte em se envolver com alguém como ela. Mas algo estava fora do meu controle. Eu não tinha como reproduzir com aquele mulherão a mágica que tinha rolado com aquele molecão, quando tudo dentro de mim achou um encaixe perfeito muito além do físico.

Quando percebi que me sentia sexualmente pleno com outro homem, entrei num turbilhão de pensamentos, orações e leituras que duraram meses. Mas não me permiti estudar teólogos que contrariavam as ideias homofóbicas cristãs tradicionais porque eu não queria “trapacear com Deus”, “cair num engano”, “escolher uma interpretação que me convinha”, ou “me justificar”. Você sabe, todo o papo de que sempre acusam qualquer um que leva a Bíblia a sério.

Agora eu orava que finalmente sabia do que gostava e tinha matado minha curiosidade. Agradecia porque em nenhum momento senti o Espírito Santo se afastar. Mas eu continuava implorando para Deus tirar aquilo de mim. Minha orientação.

Fiquei com poucos caras. Por um, me apaixonei. E ficou impossível continuar acreditando que Deus reprovasse a homossexualidade. Porque, nos braços desse rapaz, eu finalmente sentia que era o bastante. Que o amor era tangível. Quanto mais eu me envolvia com meu novo amor, mais perto me sentia de Deus, e não tinha culpa religiosa que me fizesse sentir sujo. Em vez disso, eu me sentia cada vez mais limpo.

O que a gente aprende na religião é uma desassociação entre sexualidade e identidade. Tratam nossa orientação como um comportamento, e não como parte da nossa natureza. Mas quando a gente aceita a própria sexualidade, está abraçando uma parte muito íntima de nós. Estamos finalmente nos dedicando à parte do garoto interior que mais sofreu rejeição ao longo da vida. Imediatamente começamos a aceitar nossa identidade como um todo em níveis antes desconhecidos.

Fazia tempo que eu não ia a qualquer evento religioso, por razões totalmente desassociadas da minha orientação. Mas meus pais seriam os anfitriões de um evento cristão muito importante para eles e eu quis comparecer porque sabia que isso os deixaria felizes. Afinal, eles não sabiam o que estava acontecendo comigo.

A essa altura, eu tinha assistido a alguns filmes que foram importantes para eu me aceitar (listados na sessão Filmes e Séries aqui do blog). Some a isso o companheirismo do meu novo amor, e eu estava finalmente me sentindo mais próximo de Deus, de uma maneira nunca antes experimentada.

Na primeira noite do evento, a banda tocava num daqueles momentos super emocionantes. Em paz com Deus depois de tantos anos, me deixei envolver, levantando as mãos e cantando com todo amor. Eu não tinha nada disso que estou contando em mente quando aconteceu o seguinte.

De repente, senti a presença de Deus me envolver. Como se ele me abraçasse por todos os lados. Totalmente fora de contexto, senti a voz sorridente dele dentro de mim me interromper:

Está tudo bem, filho. Eu estou aqui. Eu sei quem você é. Eu sei direitinho. E está tudo bem. Eu amo você exatamente como é. Você é perfeito para mim.

Eu e o Mateus comemorando um ano de namoro em Montevidéu, no Uruguai, em 2019

Eu chorei de alegria, de alívio, e por me sentir amado. Completo. Íntegro. Limpo.

Nunca tinha ouvido ele dizer que eu era gay, em todos os anos da minha vida perguntando tantas vezes. Mas acontece que eu não estava pronto até aquele momento.

Pensei muitas vezes que Deus, que conhecia meus sentimentos por homens desde pequeno, poderia ter me avisado mais cedo. Mas antes dos 31, eu não sabia quem era e não me permitia experimentar, e Deus respeitou o meu tempo. Mais que isso, ele não quis definir minha orientação por mim, e me deixou descobrir. Porque não é papel de um pai dizer ao filho “Você é hetero” ou “Você é bi”. Isso seria uma violação.

Por muito tempo, senti a voz dele sussurrar o que eu precisava ouvir. Que não, eu não era gay. Afinal, eu nem sabia o que era isso, e achava que fosse a pior coisa do mundo. Um bom pai não me deixaria pensando que eu era assim. Mas quando finalmente me encontrei, senti a voz de Deus mais forte que nunca. Não era um sussurro; era claro como o dia. É curioso lembrar como a voz dele parecia insegura e triste antes, e como essa voz estava firme, confiante, e radiante quando disse que já sabia quem eu era.

Acabei me dando conta de que sofreria muito se ouvisse a verdade antes da hora. Se Deus me dissesse, anos atrás, que sou homossexual, eu entenderia que era uma aberração condenada ao inferno, e isso me destruiria. Então ele não me rotulou. Deus não me julgou quando pensava que era hetero nem quando entendi que sou gay. Ele apenas me amou e aceitou integralmente nos dois momentos.

Após a reunião naquele evento, subi para o meu quarto de hotel, ajoelhei ao pé da cama, e disse para Deus: “Você é a primeira pessoa para quem eu vou sair do armário.” Sorri em meio às lágrimas e senti de novo aquele abraço, como se meu Pai aprovasse a minha descoberta. Só então fiquei de frente com o espelho e falei para mim mesmo, pela primeira vez: “Eu sou o Mitch. Eu sou gay.” E senti o peso do mundo cair dos meus ombros.

Na semana seguinte, me dediquei a horas de estudo teológico sobre sexualidade, ouvindo cada argumento pró e anti gay do meio cristão, frente aos textos bíblicos que pautam os ensinos homofóbicos tradicionais. Agora eu sabia que não queria me justificar, mas aprender a verdade bíblica que esconderam de mim. Foi assim que descobri que a Bíblia nunca falou absolutamente nada sobre homossexualidade, e aprendi como os textos bíblicos famosos sobre homoerotismo foram distorcidos ao longo de séculos para chegarmos à compreensão enganosa que temos do assunto hoje.

Depois disso, contei para a minha família, o que já é história para outro dia. Vou contar para vocês no futuro. Até lá, quero que saiba que escrevo por sua causa, e que você é amado. Continue corajoso.

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