Por que demorei tanto para sair do armário

Eu tinha sete, oito anos quando senti uma atração eletrizante por alguém pela primeira vez. Foi muito difícil me controlar na frente do baterista da igreja, que devia estar na faixa dos dezesseis. Fiquei desesperado. Nem sabia que sensação era aquela, tão forte, exigindo minha atenção. Mesmo tão pequeno, já tinha aprendido que deveria gostar de menininhas. Sem ter feito nada errado, me senti um lixo-pecador-mirim.

Durante a vida, me apaixonei por uma garota ou outra. Tive o azar ou a sorte de quase nunca ser correspondido. Esse era um problema. Outro era o tesão inexistente. Eu não entendia meus amigos morrendo de culpa por ter sonhos picantes com garotas. Afinal, eu só tinha esse tipo de sonho com eles.

John Stamos, o tio Jesse de Três é Demais. Era demais para mim, mesmo.

Masculinidade é uma coisa que sempre me magnetizou. Eu queria a companhia e o afeto dos outros meninos. Achava muito difícil não poder abraçar e beijar a bochecha deles tanto quanto eu queria para que não me confundissem. Mas, apesar da minha preferência, era mais natural para mim fazer amizade com garotas. Elas gostavam bastante de mim e me davam muita atenção. Só que isso não ajudava muito meu ego. Se dez meninas me dissessem que eu era bonito, legal, beleza. Mas eu achava que, se fosse realmente gato, saberia disso porque outros homens me diriam. O elogio de um cara valia os elogios de dez garotas.

Todos os sinais da minha orientação me acompanharam durante toda a vida. E eu realmente não enxergava. A maioria das pessoas pensa que todo mundo que sai do armário numa fase mais avançada da vida estava se escondendo, mas não. Alguns nem sabiam que existia um armário. Por que aprenderam desde cedo que qualquer orientação não hetero simplesmente não existe.

O que acontece com um pré-adolescente que descobre seu corpo reagindo de maneira nova e estranha ao sexo oposto? Se ele fala com seus amigos ou familiares, ouve que está tudo bem. Que é tudo esquisito no começo, mas logo vai ser incrível. Que ele tem que experimentar enquanto é jovem para se conhecer, descobrir o que é bom. Os pais e os amigos basicamente dizem “Pega geral, meu querido”, e celebram o despertar da sexualidade desse moleque. Afinal, ele não inventou nada disso. Sua atração simplesmente aflorou naturalmente com seus hormônios. Nossa sociedade interfere nesse momento de vulnerabilidade do jovem heterossexual para elevá-lo ao ápice da sua autoconfiança. Para que ele se sinta amado, poderoso, aceito, cheio de potencial e… NORMAL.

O que acontece com um pré-adolescente que descobre seu corpo reagindo de maneira nova e estranha ao mesmo sexo? Seus hormônios passam exatamente pela mesma coisa que aconteceu com seu colega heterossexual. Ele também não sabe o que está acontecendo. Assim como o jovem hetero, está desorientado e tenso com as bizarrices em seu corpo e mente. E é nesse momento de vulnerabilidade que seus amigos e familiares perguntam o que tem de errado com esse moleque, por que ele inventou isso agora, e quem o influenciou. O mesmo fenômeno que leva o heterossexual a descobrir suas asas é o momento de o gay ser tratado como doente, endemoninhado, e ANORMAL.

Eu nunca passei por esse tipo de massacre de maneira deliberada, porque nunca contei para ninguém o que sentia. Aquilo era o meu segredo mais sujo, de que eu mais tinha nojo, medo e vergonha. Como ninguém sabia, ninguém disse na minha cara que eu estava doente e sob influência demoníaca. Mas eu ouvia as pregações dos pastores em todo canto. Eu via o que todo mundo diz que está na Bíblia. Eu estava cercado pela nossa cultura.

Sempre que tive oportunidade, pedi para expulsarem demônios de mim. Não dizia o motivo, mas era só porque eu não conseguia parar de achar homem bonito. De querer olhar para eles e simplesmente apreciá-los. Que pecado, não?

Se a gente falasse ‘crush’ no anos 90, o meu primeiro seria o Joseph Lawrence. O Joey de Blossom.

Eu aprendi muito cedo que todo comportamento não hetero é uma ilusão, um resultado de trauma, uma influência diabólica. Que heterossexualidade é a única orientação sexual normal, e o resto é fantasia. E assim, meus amigos, enquanto estive na igreja, nunca entendi a verdade mais básica sobre a minha sexualidade: que eu me sentia atraído por homens. Não precisei mentir para mim mesmo e para os outros sobre minha orientação, porque eu acreditava de todo o coração que o nome do que eu sentia era tentação. A palavra óbvia e correta, “atração”, nem passava pela minha cabeça.

Passei a vida toda perguntando para Deus, aos prantos, porque ele não tirava de mim algo que eu não tinha pedido nem buscado e nem queria. Eu jejuei, fiz inúmeros exorcismos, rangi os dentes batendo na minha própria cara, suplicando para Deus tirar aquela coisa de mim. E ele nunca me atendeu. Assim como não antendeu ninguém na história que fez essa oração. Até que dia, fora da igreja, pedi para Deus ficar do meu lado na minha jornada de autodescoberta, porque eu não podia mais não saber quem eu era. Finalmente ele teve espaço para me libertar da mentira, da verdadeira ilusão, que era a heteronormatividade.

2 comentários

  1. Sempre te admirei, hoje mais do que nunca. Ao ler o que escreveu me deu uma paz e tranquilidade.
    Todos nos temos nosso tempo para saber como lidar.
    Já ouvi muitos pastores me dizerem para segui como celibatária, no entanto não consegui fugir do que realmente me atraia. Obrigada de verdade por este texto. Um abraço e muito obrigada.

    1. Obrigado pelo carinho! Eu acho que a maioria dos pastores não se dá conta de quanto esse pedido é desumano. Porque não estudam a questão e não sabem do que estão falando. Que bom que você não se permitiu oprimir! 💙

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