Negar a si mesmo: outra coisa que te ensinaram errado

Não tem um cristão que não conheça a frase “Negue-se a si mesmo”, atribuída a Jesus. Vou contar minha experiência com ela porque sei que é a mesma para 90% dos evangélicos ou mais.

Por que eu deveria negar a mim mesmo? De acordo com a teologia tradicional, especialmente o Calvinismo, por causa da minha depravação. Disseram que eu (como todo mundo) nasci essencialmente podre. Um pecador inveterado, um egoísta incorrigível, uma pessoa incapaz de amar, alguém sempre inclinado a fazer o mal. Não havia nada em mim de que Deus pudesse gostar, e eu precisava me transformar. Como uma lagarta que vira borboleta, uma analogia que ninguém na época parecia achar muito gay, eu tinha que me tornar outra pessoa. Alguém igual a Jesus. Esse cara, sim, Deus amava. E o único jeito de eu ter um relacionamento com ele era me santificar — virar uma réplica de Cristo na terra.

Na minha vida, o #Negue-se veio acompanhado de vários outros versículos isolados de seu contexto. João Batista, dizendo “Importa que eu diminua, e ele apareça”. Paulo dizendo “Não vivo mais eu; Cristo vive em mim”. Por causa disso, não sei quantas músicas cantei dizendo que queria me esvaziar, quantas milhares de vezes repeti um dos principais mantras gospel dos anos 2.000, “Mais de ti, menos de mim”. Aprendi que João vivia em abnegação para dar glória a Jesus. Que Paulo tinha deixado de ser Paulo para se tornar o cara tão especial que foi. Tinha deixado de viver. Agora, a personalidade, os gostos, as vontades, os sonhos do cara, tudo que ele era, enfim, tinha sido substituído pela pessoa de Jesus.

Passei anos orando fervorosamente para que Deus anulasse o Mitch. “Por favor, Senhor, eu suplico que guie cada passo meu. Não quero fazer nenhuma escolha que não seja o melhor que você tem para mim. Me livre de viver apenas sua vontade permissiva e me faça viver sua vontade perfeita”. Cara…! Poucas coisas na teologia evangélica são tão massacrantes quanto a ideia do centro da vontade de Deus. Como se já não fosse difícil o bastante descobrir e fazer o que ele pede, a gente ainda vive morto de medo de um dia ouvir Jesus dizer “Sim, meu servo, você até fez o que eu queria, mas não exatamente. Foi minha vontade, só que não estava bem ali no centro. Não foi dessa vez. Nota seis para você.”

Capitão América: Guerra Civil, 2016 – Marvel Studios

Eu não conseguia escolher que faculdade cursar porque não tinha descoberto o que Deus queria. Não sabia se devia ou não iniciar uma carreira porque achava que o plano divino para mim era uma vida integralmente dedicada ao ministério. Estou falando de grandes decisões, mas eu também tentava passar as pequenas coisas do meu dia-a-dia pelo mesmo filtro de submissão. “Tudo entregarei.” O tempo todo tentando ouvir a direção do Espírito Santo sobre como lidar com cada gosto, cada escolha, cada atitude. Tudo para não perder a comunhão com ele por um só instante. Parecia nobre e poético na época. Mas se parece bonito para você agora, é porque não tentou viver desse jeito por tempo suficiente. Nenhum relacionamento saudável inclui esse tipo de pressão.

Alguém que exija de você constante vigilância é uma pessoa tóxica; um tirano. Eu, com toda a maior parte da minha geração de adoradores, cheguei aos trinta sem saber quem era nem de que gostava ou com que sonhar. Quis tanto que Jesus vivesse em mim, que literalmente me anulei por ele. E isso não é bonito. O que é um ser humano sem personalidade? Ele é qualificado para alguma coisa? É apto para a vida? Da última vez que chequei, não tinha ninguém procurando um ministro nem um esposo nem um filho sem personalidade. Gente assim só é procurada para ser funcionária de patrão abusivo.

Os estudiosos do Novo Testamento entendem que a pessoa cheia do Espírito Santo, segundo a linguagem bíblica original, é alguém cheio de entusiasmo, impulsionado adiante pelo dinamismo divino. Mas alguém que vive abnegado, tentando experimentar a substituição da sua natureza por outra, é exatamente o contrário. É um zumbi de Jesus, esperando que o Espírito de Deus seja um parasita convidado, controlando suas ações. Involuntárias, mas santas. Eu questiono o valor moral de uma boa ação inevitável.

Sempre vou insistir nisto. Jesus não anula a sua personalidade. Ele a glorifica. A graça não está em abafar quem somos, numa linha de produção de gente igual a Cristo. A graça está em a luz não ser contida pelas nossas imperfeições, iluminando o mundo até mesmo por entre as rachaduras das nossas personalidades defeituosas.

Mas e o “Negue-se a si mesmo”? Ainda hoje converso com gente jovem que acredita que Jesus espera que eles deixem de fazer o que querem e amam só para agradá-lo, mas isso me parece mais o pedido de um menino mimado do que de um deus. A ideia de Jesus era a negação do ego, e não da personalidade. Do egoísmo, e não da liberdade. Jesus pregou que o mundo seria melhor se fôssemos menos egocêntricos, e não menos humanos. Aliás, ele frustrou a expectativa da sua geração a respeito de pessoas santas justamente por desfilar escandalosamente por aí como alguém “humano demais para ser o Messias”.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça – Warner

Se Jesus viesse pregar uma vida abnegada e sacrifical, saiba que não teria feito o sucesso que fez, porque essa mensagem já era muito velha e familiar para o seu público. Tudo o que aquelas pessoas conheciam era o sacrifício, por milhares de anos. Jesus revolucionou as coisas dizendo que Deus odeia e rejeita sacrifícios, mas aprecia gentileza. E gentileza é coisa de gente, não de zumbi. É por isso que preferimos o Batman ao Super-homem, o Homem de Ferro ao Capitão América. Um dos motivos de valorizarmos a virtude e a gentileza é que elas partem de gente imperfeita.

Negar a si mesmo não é se sacrificar até ser substituído por Deus, mesmo porque ele não está comandando um espetáculo de marionetes santas. É bem mais simples e generoso que isso. Negar a si mesmo é dar espaço à gentileza no lugar do egoísmo.

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