Jesus, terapia e meditação

A gente faz terapia porque nossas dores do passado e angústias a respeito do futuro estão nos impedindo de viver em paz no presente. A gente medita para colocar uma pausa em nossas ruminações a respeito de tudo o que deu e pode dar errado, num longo treinamento para aprender a aceitar cada momento como é. Nos dois cenários, uma das coisas mais difíceis de enfrentar é a noção da identidade.

Eu mudei? Quem sou eu? Quem é que eu quero e deveria ser? Às vezes, parece impossível resolver qualquer outro dilema sem antes ter noção exata de quem somos. Afinal, não queremos apenas fazer o que é “correto”, mas pelos “motivos corretos”. Compramos a ideia que C. S. Lewis combate em Cristianismo Puro e Simples, de que qualquer atitude virtuosa não tem valor se não partir de uma pessoa virtuosa, e buscamos nos tornar a “pessoa certa”, numa cultura que promete que adultos saudáveis são pessoas de caráter inabalável, seguras de si, livres de dúvidas e medos, “bem resolvidas”. Nunca conhecemos alguém que se encaixasse a esse perfil porque, para ficar desse jeito, seria preciso deixar de ser humano, mas insistimos em tentar chegar lá.

Na terapia, você aprende a aceitar suas limitações e falhas. Aprende a se desapegar das expectativas que adotou sobre quem deveria ser, para aceitar que mudar faz parte da vida. Na meditação, você observa sua mente e seu corpo sem julgamento, para alcançar a percepção de que está em constante transformação como tudo o que existe no universo. Isso deve resultar numa percepção de que todas as coisas estão conectadas, e na aceitação dos fenômenos da vida que não podemos controlar, incluindo o fim.

A longo prazo, tanto a terapia como a meditação visam nos libertar da nossa mania de controle e da fantasia de que tudo gira ao nosso redor. Em síntese, a dissolução do ego.

Ben Stiller em A vida secreta de Walter Mitty

Uma pessoa livre do próprio eu é alguém com maior compaixão por si mesma e pelos outros porque onde não existe ego não há lugar para egoísmo. Quando o eu já está morto, também mitigamos nossa obsessão por autopreservação, abrindo espaço para correr riscos, e ser mais generosos, vulneráveis e corajosos.

Quando a preservação do ego era nossa prioridade, fazíamos de tudo para nos distrair do fim; desde lotar a agenda de trabalho até checar o celular 150 vezes por dia atrás de novidades ou pisar os outros para garantir o próprio conforto. Mas agora que o ego deu lugar à compaixão, que tavez seja uma mistura de coragem e vulnerabilidade, criamos laços mais profundos com as pessoas ao nosso redor, e nossa sensação de interconexão aumenta.

Estamos falando de viver de peito aberto. E um desconforto inevitável que se segue a isso é que fica impossível negar a iminência da morte. Paramos de mentir, de nos distrair, de nos isolar. A vida se tornou mais real e, com ela, os seus diversos aspectos inegáveis. Viver corajosamente é sentir com força inédita “Estou vivo” e “Vou morrer”.

Ben Stiller em A vida secreta de Walter Mitty

Agora considere não fugir desse desconforto. Seguir com sua jornada de autodescoberta e aceitação da realidade. Imagine sua mente expandindo até que a percepção da interconexão universal e a constante transformação de tudo sejam claramente compreendidas e abraçadas. Sementes se tornam plantas, que se tornam alimento para criaturas, que se tornam adubo para novas sementes. Com a assimilação dessas duas realidades, a morte deixa de assustar, porque percebemos que uma vida que termina não desaparece. Em vez disso, se torna outro tipo de existência que passa a integrar o universo numa nova maneira.

Acredito que as possibilidades que narrei aqui são experimentadas de maneira cíclica, mas vou resumir essa trajetória toda de maneira linear. Se eu aceito o que não posso controlar porque não sou o centro do universo, mas uma parte intrinsecamente ligada às outras pessoas e coisas, é então que aceito a morte como parte da minha existência, o passo seguinte da minha união ao Tudo. E se eu não tenho medo da morte, não preciso me distrair do momento presente; posso aproveitá-lo em vez disso. E, uma vez que estou livre do egocentrismo, minha curtição do presente não se manifestará na forma de hedonismo desenfreado, mas no aproveitamento máximo dos eventos e relacionamentos do meu dia a dia. Se você achou tudo isso maluquice demais, saiba que deixei a verdadeira bomba para o final. Para mim, esse é o sentido do convite de Jesus, “Negue-se a si mesmo”.

Sean Penn em A vida secreta de Walter Mitty

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