Eu não senti o vento

As vantagens de ser invisível

Durante a semana passada, tive dois episódios muito estranhos. Do nada, quando eu estava curtindo o momento, me senti fora do corpo, olhando para mim mesmo naquelas cenas. Nick Carraway, meus cumprimentos. De repente, eu me senti mortificado pela possibilidade de que minha vida pudesse ser apenas o que é, e nada mais. O filme da minha vida seria um que ninguém assistiria. Um senso de que tudo poderia terminar ali mesmo, naquele instante tão comum e irrelevante, me encheu de tristeza, e precisei fazer força para voltar ao meu corpo e chutar a morte para longe.

Eu acho que, em certo grau, é normal começar a encarar a realidade da morte como parte da vida humana quando a gente chega aos trinta. Mas tenho a impressão de que não precisa ser assim, tipo o assalto de uma assombração.

Vai parecer que mudei totalmente de assunto, mas não. Me acompanhe.

Quando vejo o Charlie curtindo o vento na cara, da caçamba de uma camionete em As Vantagens de ser Invisível, e quando vejo Seth, Marissa e Ryan deslizando por O. C. de bicicleta e skate, sinto um buraco negro abrir dentro do meu peito. Eu adoraria não soar exagerado nesses momentos, mas não posso porque, primeiro, sou naturalmente dramático e, segundo, não expressaria a verdade se pegasse leve. Eu lamento profundamente não ter lembranças queridas de moleque. Eu não senti o vento.

The O. C.

Ontem um amigo me escreveu algo com que me identifico totalmente.

Eu estava ouvindo um cara cantar que, quando era jovem, se sentia imortal. E percebi que nunca me senti assim na adolescência. Aquela sensação de que todo mundo fala, de se sentir infinito e invencível e acabar fazendo muita bobagem nessa idade? Parece que tive isso roubado de mim sem perceber.

Tinha muita coisa que eu queria viver e não fiz por puro medo do constrangimento que poderia sofrer em casa e na igreja. O que eu fazia, era com medo de alguém me ver ou sei lá. Sendo que eu não fazia nada errado, nem para os parâmetros da minha igreja na época. Ainda assim, eu vivia constantemente cuidando tudo o que fazia e falava. Meu Deus, que doentio, né?

O Grande Gatsby

Mesmo sem ter jamais me sentido infinito, sempre neguei a possibilidade de morrer. Não porque eu era jovem, estúpido, e cheio de vida e energia. Mas porque a religião, romantizando a vida eterna, me ensinou a tratar a morte como algo distante e ilusório. E me ensinou a considerar esta vida como uma passagem pelo deserto rumo a Canaã. Desse jeito, meu tempo no mundo não precisava ser aproveitado nem bonito. E acabou que quase não foi, mesmo.

É claro que acreditar em vida após a morte pode ser um grande consolo em certos momentos. Para algumas pessoas de fé, é uma coisa definitiva. Não tem nada de errado com isso. Mas eu assimilei um desapego desrespeitoso pela minha realidade presente porque tinha certeza que viveria para sempre.

Sou viajante com pé na estrada / Um visitante com hora marcada / O tudo do mundo, pra mim, não é nada / Eu não estou em casa

Roberta Spitaletti

Pode até ser que exista um Paraíso. E, se existir, deve ser uma realidade bem superior à que a gente conhece. Mas esta, de aqui e de agora, vai ter um fim de qualquer jeito. E a que eu perdi não volta mais. Se não existe vida após a morte, às vezes eu acho que vou lamentar minha juventude perdida até os oitenta anos de idade. E se o Paraíso existe, acho que vou ser um cara que não foi jovem para todo o sempre.

Me disseram para não descansar, porque eu teria a eternidade para fazer isso. Para abdicar dos meus sonhos, vontades e prazeres, porque nada se compararia ao que me espera no porvir. Que eu podia cuidar de todo mundo, que deus cuidaria de mim. E eu literalmente vivi abnegado. O que eu faço agora, que me dei conta de que não existe nenhuma prova concreta da existência de vida após a morte? Como eu lido com a dor de não ter o que cantar sobre os meus vinte e poucos anos? Mesmo que eu possa viver para sempre em outro plano, estou em luto pela minha juventude que morreu sufocada, cedo demais. Como dói chegar aos trinta sem nunca ter provado os vinte.

2 comentários

  1. Faço 26 anos agora em setembro e por vezes tenho esse mesmo pensamento, de que não aproveitei meus anos anteriores. Primeiro, porque não posso ser quem realmente sou, o que acaba por prejudicar todo o restante. Tenho medo, as vezes, de nunca poder viver ou sentir-me infinito, nem que seja por um breve momento. Fazer o que quero, amar qem eu quero, viver como quero.

    1. Gleidson, o bom é que, quando a gente compartilha, percebe que não está sozinho, não perdeu a cabeça. Ter esse medo é normal. Mas não quer dizer que a gente precise se sujeitar a ele. Agora, que vemos as coisas como são, temos a chance de escolher outra rota. Coragem custa caro, mas vale a pena. Seja você, porque só assim você pode receber amor verdadeiro: uma que não é dedicado a uma versão irreal de você, mas ao seu eu verdadeiro. Seja você, porque negar-se a chance de ser autêntico é uma das piores aflições psicológicas que alguém pode enfrentar. Seja você porque a gente só tem uma chance. Um grande abraço!

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