Feitor da história

A gente vive falando do narcisismo da nossa geração. Toda hora alguém explica como é nocivo ter os olhos grudados no mundo perfeito da internet, onde a vida dos outros é sempre melhor que a nossa. Isso alimenta em proporções inesperadas nossas duas amigas, depressão e ansiedade, sempre presentes aqui no blog.

A religião deveria ser um escape da loucura mundana. O que ela propõe é a contemplação de um plano superior, onde questões existenciais e eternas ganham mais valor do que toda vaidade e frenesi desta vida. Veja o Budismo, por exemplo. Ele oferece um caminho onde você esquece o ego, aceita o presente momento como é, sem a necessidade de rotulá-lo e sem desespero por modificá-lo. Enquanto isso, nós, de criação evangélica, carregamos a Síndrome do Mais de Ti. Cedo ou tarde percebemos que a maior parte da cultura cristã potencializa nossos hábitos de comparação e megalomania.

O evangelicalismo está cheio de “grandes homens e mulheres de Deus”. A história da Igreja, registrada em livros quilométricos sobre os “avivalistas”, que levaram centenas de milhares à salvação ou curaram mais gente num dia do que o próprio Jesus Cristo. Nossos pastores adoram exaltar os heróis da fé no livro de Hebreus. Logo após lotar um ginásio de fiéis, eles dizem que ainda não fizeram nada pelo Reino de Deus, numa attitude que consideram humilde, mas não passa de autocomiseração e delírio de grandeza. Afinal, estão se comparando ao tele-evangelista da década de 1980, que lotou estádios, ou ao alemão dos anos 2.000, que levou literalmente milhões de africanos a confessar Jesus como seu salvador.

Mitch, clicado por Carla Faria

A parte da minha geração que está na Igreja sonha com o grande momento em que nos tornaremos um marco histórico, e o último e mais poderoso de todos os avivamentos cobrirá a Terra. A outra parte, que deixou a religião organizada, está tentando sarar da constante sensação de ser um fracasso.

De maneira consciente, eu escrevo para um público pequeno. Uma minoria passando por desconstrução e reconstrução da sua fé ou pelo divórcio dela. Dentre essa galera, sempre aparece alguém dizendo que isso aqui faz diferença. Alguns me contaram que meus textos mudaram ou salvaram suas vidas. Tenho plena noção de que não é todo mundo que ouve algo desse naipe. É uma declaração muito forte de se ouvir, mas seu impacto dura trinta segundos. Logo a seguir alguma coisa bem dentro do peito desperta a gente para a realidade de que não passamos de “pastorzinhos de cem ovelhas”, como já disse um famoso pregador. Já cansei de me perguntar se deveria parar de escrever por conta da quantidade pequena de visitas mensais ao blog. Como se receber muitas visualizações fosse mais importante do que tocar uma única vida de maneira significativa.

Quando você passa anos cantando que será um “pai de multidões” que tocará “muitas gerações”, qual medida de sucesso é suficiente? Se o chamado da sua geração é ser como Paulo, Kathryn Kuhlman, e Charles Finney, não importa o que você faça e quantas pessoas toque, está sempre aquém do seu potencial — sempre atrasado.

Os crentes da minha idade perderam as contas de quantas vezes ouviram que deveríamos ser a melhor geração de santos que pisou a terra. Geralmente esse discurso incluía “Só que vocês são os piores”. Aparentemente nossos pais e avós eram crentes de categoria muito superior, e nossa falta de santidade, abnegação, renúncia e comprometimento é a causa de o mundo ainda não ter sido salvo pelo retorno de Cristo; um privilégio que, se não corrermos, será tragicamente relegado à geração dos nossos filhos ou netos. Não bastasse o desapontamento que somos para nossos pais, também nos tornamos a decepção de nossos pastores, da Igreja, do mundo, e do Céu. Por que não de Deus?

Sob esse discurso, eu e muitos outros deixamos de estudar, de seguir carreiras, de namorar, e de viajar para poder nos dedicar ao ministério. Deliberadamente entregamos nossos sonhos a Deus e os fizemos morrer como “sacrifícios no altar”. Quem não me entende nunca esteve ajoelhado diante do palco de uma igreja ou conferência, chorando amargamente enquanto a banda insistia que “grandes coisas estão por vir” e a gente renunciava a todos os nossos desejos em favor do avivamento. Mas saiba que somos milhares, que assistimos a juventude passar e nunca vimos nada assim, tão grande quanto nos prometeram.

Mitch, clicado por Carla Faria

A galera da minha idade que respirou e transpirou o delírio do chamado chegou aos trinta sem saber quem era, de que gostava, e o que queria fazer da vida. De repente, o prazo para o avivamento prometido com segundas e terceiras chances venceu, deixando a gente sem rumo e com a sensação de acordar de um sonho sem lembranças. Como assim, eu não tenho mais vinte e poucos?

Quando você visita um pastor, a primeira coisa que ele faz é mostrar o prédio da sua igreja, descrevendo em detalhes quanto pagou pelos bancos de couro, pelos projetores tridimensionais e pelo equipamento de som de última geração. Depois ele conta quantas filiais sua denominação tem em Uganda e quantos missionários por ano envia ao exterior. No momento em que apresentam você como o preletor convidado em qualquer igreja do Brasil, todo mundo, do bispo à tia da cantina, manifesta o mesmo interesse sobre o seu ministério: “Quantos membros vocês têm lá?”.

Quando penso em minhas opções para o futuro, não consigo evitar cogitar qual me traria maior visibilidade. É difícil não me desmotivar em relação a coisas de que gosto só porque penso que, se eu fizer e ninguém ouvir, não vai ter valor. Este pode ser um mal que aflige todo mundo em certa medida, especialmente no contexto em que a gente vive agora. O problema é eu ter dedicado a vida a uma religião que, em vez de aliviar essas aflições, potencializou todas elas, me tornando obcecado por fazer algo notório — não; algo grandioso! Alguém assombrado pelo pavor de que o aqui e o agora sejam o máximo que me resta, porque são pequenos demais. Diariamente aflito porque o que eu sou e o que eu tenho não trazem a “glória da segunda casa”, a “porção dobrada”, a “medida recalcada, sacudida e transbordante”.

Eu cresci sob a inspiração de pastores que espelhavam minha geração no profeta mais reverenciado da Bíblia. Disseram que seríamos a Geração de Elias. Justamente o cara que, ao atingir o ápice do seu ministério, chorou. “Que droga! Não sou melhor que meus pais!”

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