Crentes: um gatilho

Esta semana, uma garota insistiu que eu não quero papo com quem pensa diferente de mim. Disse que não respeito a opinião de quem não apoia meu discurso integralmente.

Discutimos no Twitter. Num momento de fragilidade, eu tinha compartilhado lá que tem sido difícil sair do raso nos meus novos relacionamentos, agora que mudei de cidade. Americana tem fama de ser dura para amizades, coisa que a tal garota não sabia. No espírito de me ajudar, ela resolveu dizer que a culpa era minha de meus relacionamentos serem rasos, porque eu sou um narcisista. Lembremos do versículo em Evangélicus, capítulo 13, quando Jesus disse: “Não apenas julgueis, como também chutai cachorro morto”.

Não é a primeira vez que alguém diz, sem me conhecer e pela internet, que eu me recuso a escutar quem pensa diferente. Como se essas mesmas figuras não se recusassem a escutar…

Estas são algumas das pessoas com quem eu conversei ou tenho mantido contato nos últimos dois meses. Tem um casal que não aceita a maior parte do que o movimento evangélico representa: ele não vai à igreja e ela curte frequentar a Batista. Tem um cara sofrendo porque não se vê mais no ministério e também não sabe como viver sem ele. Uma amiga minha que acredita em Deus, mas não que Jesus seja esse cara. Um apóstolo nacionalmente renomado. Um cristão gay e uma cristã budista (sim, eles existem). E tem um amigo com quem nunca falei de religião, mas sei que adora LSD, que é quase a mesma coisa, só que melhor, pelo que dizem.

Todas essas pessoas são muito diferentes entre si e, obviamente, diferentes de mim também. E nossas conversas têm sido ótimas, no maior respeito. As coisas em que a gente não concorda só nos fazem crescer e não criam problema algum. O apóstolo famoso que mencionei, sabe? Foi ele que me escreveu, do nada, e chegamos a ser carinhosos um com o outro embora a gente não concorde em praticamente nada. Como é que eu posso ter essa rotina e ainda levar fama de intolerante?

Deixa eu contar uma parada que ouvi hoje para explicar. Uma dessas pessoas aí, que é um amigo, veio a público sobre sua homossexualidade um dia desses. No Facebook, um cara que ele adorava o apunhalou com um textão sobre como se assumir significa “inventar um Deus”. Ao ser retrucado, disse que não poderia ajudar meu amigo, que já estava trabalhando com “verdades absolutas”.

Agora, diga para um evangélico que não existe verdade absoluta. Ele pira. Vai bufar que a “palavra de Deus” é uma verdade absoluta. E ele estará se referindo à Bíblia, por mais cômico que pareça. A real é que ninguém acredita mais em verdades absolutas do que os evangélicos. Fato sabido. É por isso que eles não abrem mão de conceitos que o mundo inteiro já superou e tornam um diálogo científico frequentemente impossível com sua cabeça-durice. Mas quando você diz no que eles estão errados, lá vem o “Ah, que horror! Não dá para conversar com quem já está munido de verdades absolutas!” O que falta na Bíblia é um livro sobre ironia.

Cara, todo mundo cria seu próprio deus. É natural, uma vez que estamos falando de algo invisível, e já que ninguém concorda sobre a Bíblia, a Torá ou o Alcorão. Essa é uma das coisas mais inevitáveis sobre qualquer pessoa de fé, e que os cristãos não enxergam sobre si próprios. Não percebem que, quando nos acusam de criar deuses à nossa imagem, é porque não acreditamos num deus à imagem deles. O deus que eles adoram tem que ser o único correto e verdadeiro. Mas, assim como católicos, espíritas, e wiccas, cada evangélico crê na sua versão do divino. Uns mais vingativos, uns parecidos com seus pais ou mães, e outros com o perfil do amigo que sempre quiseram ter.

Todos os crentes escolhem que parte da Bíblia “as pessoas não entenderam direiro”; que parte “não é bem assim”. E, quando é você que faz isso, eles odeiam. Já percebeu como os cristãos dizem uns pros outros coisas do tipo “Meu Deus jamais faria algo assim”? Exato. O seu deus. O que você imagina ou interpreta por meio da Bíblia e dos ensinos pastorais, e das suas experiências de vida, com a certeza insana de ser privilegiado com a visão mais correta sobre Deus no mundo inteiro, enquanto os demais evangélicos e pessoas de outras religiões fazem exatamente o mesmo exercício de fé que você, com diferentes vieses: a abstração.

É com esses evangélicos que eu perco a cabeça. Eu e a maioria das pessoas que preferem conversar com adultos minimamente humildes. Quem está passando por desconstrução não apenas aceita ouvir opiniões diferentes, como adora isso. Quanto mais, melhor. Desde que venham de pessoas igualmente abertas. Porque nenhum de nós tem paciência para a soberba evangélica. Ela é uma das coisas que desperta nosso lado mais feroz.

Dois amigos meus, esta semana, coincidentemente usaram a mesma palavra ao descrever o resultado de suas experiências no mundo evangélico. “Gatilho”. Existem certos comportamentos típicos de cristãos que ativam a parte do nosso cérebro responsável pelo instinto de autopreservação. Uma vez acionados, nossos gatilhos nos colocam em modo defensivo e disparam nossa raiva, porque o que essa gente nos fez ainda dói. Simples assim.

Por isso, não vamos conseguir tolerar a condescendência de pessoas que vêm falar com a gente com pena, como se estivessem em posição espiritual superior. Essa arrogância asquerosa disfarçada de piedade nos tira do sério. Todo mundo enxerga o delírio de grandeza e santidade dessas pessoas, menos elas. Eu falo por mim: não tenho o menor remorso de retribuir a arrogância nesses momentos.

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Vai chegar a hora em que a gente terá superado a dor, e nossos gatilhos perderão seu poder. Eu sinceramente não vejo a hora de estar acima disso em vez de me pegar com ódio discutindo com quem literalmente não desenvolveu o aparato necessário para escutar aos outros porque ainda não escuta sequer as próprias incoerências. Pelo menos a gente torce, faz terapia, e medita para chegar um dia a esse estado de iluminação. Mas até lá, não venham nos dar “dicas”. Não venham nos “ajudar por amor”, que a gente reconhece de longe o fedor do amor cristão: condicional e megalomaníaco.

Não é que a gente não queira ouvir ninguém que pense diferente e não esteja aberto a quem não concorde conosco. É que a gente sabe que esse é o seu caso. E que vocês nem se deram conta disso ainda porque se enxergam como pessoas amorosas, consagradas, escolhidas. Sua falta de modéstia sobre sua espiritualidade os impede de notar o espinafre no seu dente, que todo mundo já viu. E enquanto vocês estiverem convictos de que detêm a verdade absoluta e isso lhes dá o direito de expressá-la quando quiserem a quem quiserem do jeito que quiserem, nossos gatilhos estarão exatamente onde vocês os instalaram.

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