A bruxa Sabrina: mais evangélica do que pensa

O Mundo Sombrio de Sabrina não é meu seriado favorito. Mas, cara, como eles acertam ao retratar o fundamentalismo religioso!

Para quem está dentro da igreja, Sabrina pode ser um pecado capital. Uma zombaria de Deus. Uma apologia do ocultismo. Mas a série reflete sobre opressão social, coisa que acontece no mundo inteiro e de um jeito todo especial em ambientes religiosos.

O Mundo Sombrio poderia tranquilamente retratar uma igreja evangélica numa cidadezinha do interior americano. Tocar os mesmos temas que toca com pequenas alterações no roteiro, tipo trocar Satã por Jesus. Mas não teria o mesmo apelo. Primeiro, porque os cristãos iriam à loucura ao ver sua realidade exposta na TV de uma maneira que não conseguem enxergar ainda. Segundo, porque o macabro é mais curioso que o sagrado, né?

O falso Deus

O Mundo Sombrio não parece interessado em criticar Jesus, Deus, e a Bíblia. Mas uma das coisas mais potencialmente ofensivas que os satanistas no seriado fazem é se referir ao deus cristão como “falso deus”.

Os crentes devem ficar com muita raiva. Mas como os cristãos se referem a todas as entidades de todas as outras religiões? Isso mesmo: “falsos deuses”. Os evangélicos botam esse apelido até em Buda e nos santos do Catolicismo, que nem são considerados deuses por essas tradições. O desdém por outras religiões em Sabrina é bem tipicamente evangélico.

Os bordões

Os membros da Igreja da Noite, no Mundo Sombrio, adoram dizer “Praise Satan!” quando algo sai… não necessariamente do jeito ideal, mas do jeito que eles queriam.

Qualquer pessoa com uma tradição cristã se choca com essa subversão do famoso “Glória a Deus”. Mas, se você foi evangélico por bastante tempo, deve ter ouvido muitas expressões de louvor que flutuavam entre o cômico, o absurdo e o revoltante.

“Graças a Deus, apesar de todos terem saído feridos, eu fiquei ileso.”

“Os médicos trabalharam incessantemente e, graças a Deus, estou curado.”

“A Igreja está se lembrando que mulheres não deviam falar durante os cultos, graças a Deus.”

Os satanistas de Sabrina usam sua versão desse bordão com a mesma insensibilidade e egocentrismo super comuns no meio cristão.

Outra frase importante em Greendale, onde se encontra a igreja satânica de Sabrina, é “Ore a Satã para que isso aconteça”.

Essa é super interessante, porque geralmente não provoca nenhum alívio. Quando dizem isso, fica no ar que ninguém sabe se orar vai funcionar, se Satã vai ajudar. Orar é sempre incerto. Justamente como acontece no meio cristão quando alguém diz “Ore a Deus para ter misericórdia de você” ou coisa do tipo, num tom que parece mais ameaça do que consolo. O crente que ouve isso nunca sabe bem se Deus vai ser piedoso ou se vai ignorá-lo totalmente como ele sente que merece.

Os páreas

A Igreja da Noite também tem “desigrejados”. Existem muitos bruxos que simplesmente não se enquadram às regras do coven satânico e, por isso, são excomungados. Eles têm tanto ou mais poder do que os satanistas que integram a igreja sombria e, logicamente, são vistos como ameaças e tratados como hereges. São marginalizados, vivendo em cavernas ou montanhas. Até lembrei do documentário O Rebeliado.

O machismo

O poder, na Igreja da Noite, está com os homens. O sumo-sacerdote é homem. Ele quer uma esposa, claro, mas para estar linda e submissa ao seu lado. Sem voz. Existe até uma organização secreta totalmente composta por homens pronta para fazer valer a vontade do Sumo Sacerdote, de maneira que as mulheres têm poucas chances de estar no poder.

As tradições

Sabrina sempre arranja problemas porque questiona as tradições. Muitas coisas, na opinião dela, deveriam deixar de ser praticadas pelos bruxos. Mas as respostas que ela escuta quando protesta? “Está nas Escrituras. Fazemos assim por séculos. É sagrado.” E a Igreja da Noite continua com rituais em que nem mesmo todos os bruxos acreditam, independentemente de quanto machuquem outras pessoas.

A tradição é colocada acima da liberdade e do bem-estar do indivíduo, que deve fazer tudo para proteger sua família e seu coven. Nada está acima disso. Cabe a cada um se sacrificar e se abnegar para garantir o bom testemunho dos seus familiares junto à sua comunidade.

Gente, me deu calafrios. Acho que alguém vai colocar a Sabrina “de banco por rebeldia” e por “escandalizar os irmãos com a aparência do mal”.

Os fundamentalistas

Escrevi tudo isso mais por entretenimento do que qualquer coisa. Mas de verdade, o seriado toca temas super importantes e retrata o mundo fundamentalista de maneira muito precisa sem zombar da fé de ninguém.

Aliás, a escolha do satanismo deve ter a ver com o fato de que ninguém sabe o que satanistas fazem de verdade, e assim a gente tem um veículo para tratar de opressão religiosa sem precisar expor os dogmas verdadeiros de alguma religião conhecida.

Para a gente ficar um pouco mais nerd, vou incluir que O Mundo Sombrio de Sabrina apresenta os lados negativos e os positivos do estágio azul do desenvolvimento da consciência humana, pelo qual todo mundo passa e que é mais difícil de superar para os religiosos, de acordo com a Teoria da Dinâmica em Espiral. Apesar de tudo, os satanistas de Sabrina sabem o valor da comunidade, da família, e da estrutura social, por exemplo. Não fazem só besteira, assim como os evangélicos também não por mais que me doa admitir isso. Para pessoas que transcenderam essa realidade e agora estão no estágio laranja da espiral ou a caminho dele, essa observação pode ser muito útil. No mínimo, o modo como Sabrina subverte tudo que “não pode” é bem divertido.

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