Gays: as principais mentiras sobre o Novo Testamento

Muita gente não sabe que a palavra “homossexuais” não esteve sempre na Bíblia. Em versões brasileiras, por exemplo, isso é facilmente verificável. Basta comparar sua NVI com a Revista e Atualizada do seu tio e a Corrigida da sua avó.

Existem duas expressões em grego no Novo Testamento forçadamente traduzidas como “homossexuais” em composições mais recentes. Vamos começar olhando para a mais complicada: αρσενοκοιτης, que aparece apenas em I Coríntios e I Timóteo.

O problema da autoria

Esses dois livros são comumente atribuídos a Paulo. Mas é importante dizer que algumas expressões em I Timóteo significam coisas diferentes do que significavam em outros escritos do apóstolo. Isso indica grandes chances de que a carta em questão tenha sido escrita por alguém desconhecido que imitou o discurso paulino e escorregou. Para facilitar nossa conversa, vamos deixar essa hipótese de lado.

Neologismos não são universais

A palavra grega que estamos investigando poderia ser transliterada para arsenokoitai. Ela nunca é mencionada na literatura grega antes de o Novo Testamento ser escrito nem na mesma época em que ele surgiu. Isso quer dizer que Paulo usou um neologismo; ele inventou a expressão.

Os cristãos costumam dizer que arsenokoitai “claramente” significa “homossexuais passivos e ativos”, mas a verdade é que nenhum grego que lesse I Coríntios entenderia essa palavra dois mil anos atrás. Claro, daria para sacar a mistura que Paulo fez: juntou a palavra “homem” com a palavra “cama”. Mas até aí, na Grécia da época, nada demais. Nada óbvio. Homem na cama com homem era algo normal e glorificado. Provavelmente, as únicas pessoas capazes de entender essa expressão eram as que conheciam Paulo e sabiam o que ele queria dizer quando a utilizava.

Uma progressão preconceituosa

Quando arsenokoitai surge no pedaço, não existia ainda uma palavra em grego para sexualidade. Porque não existia no mundo um conceito de sexualidade. Demorou vários séculos para que a raça humana o vislumbrasse e criasse um nome para ele. Quando Paulo escreve aos coríntios e Timóteo, nem mesmo a palavra “heterossexual” existe, obviamente. Por isso é uma aberração linguística traduzir arsenokoitai como “homossexuais”.

Enquanto os fundamentalistas dizem que não é tão difícil traduzir esse termo, os linguistas vão dizer que nem dá para dizer que é difícil traduzi-lo, mas sim impossível. Ele não tem tradução segura. Tanto que, a longo dos anos, ganhou vários significados que expressam ideias distintas. Olhe como a Bíblia em inglês interpretou a mesma palavra em traduções de anos diferentes:

  • Em 1963: pervertidos;
  • Em 1966: sodomitas;
  • Em 1978: os que praticam homossexualidade.

A primeira tradução não fala de gays porque pervertidos podem ter qualquer orientação sexual. “Sodomitas”, por sua vez, é um termo que nasceu do relato bíblico de Sodoma, amplamente mal interpretado e nem ao menos verídico. (Podem se informar clicando aqui.) Ele foi originalmente usado para designar pessoas sexualmente desenfreadas, o que também não significa “homossexual”, porque heteros também podem ser desenfreados. Conforme a história de Sodoma deixou de ser lida como um mito sobre hospitalidade e passou a ser encarada como uma lição de castigo divino sobre a homossexualidade, “sodomita” virou sinônimo de gay. Preciso dizer quanto isso é historicamente equivocado e degradante?

Quanto à tradução “os que praticam a homossexualidade”, parece que nos anos 1970 as pessoas ainda achavam que sexualidade era questão de prática e não de identidade, coisa que hoje o mundo todo sabe que não é o caso. Os únicos alheios a esse fato são os cristãos, os judeus, e os muçulmanos que tratam ciência como fábula e vice-versa.

Cama + homem = Levítico 18

Dizem que Paulo provavelmente criou a palavra arsenokoitai para espelhar uma ideia de Levítico 18:22, onde a Bíblia diz que é uma “abominação” um homem deitar com outro como se fosse uma mulher. (Atenção a essa especificação, que será importante depois.) Os fundamentalistas adoram reforçar essa possível ligação entre Paulo e Moisés para insinuar que arsenokoitai não é misteriosa e “claramente” se refere à homossexualidade. A essa altura, você já sabe que isso é absurdo, mas vamos lá.

Falamos anteriormente sobre Levítico 18 aqui. Vou recapitular e acrescentar alguns fatos importantes.

Em primeiro lugar, o próprio Cristianismo diz que não estamos debaixo da Lei. O homem que mais bateu nessa tecla na Bíblia foi o próprio apóstolo Paulo. E Levítico, o que é? A própria Lei dos judeus. Destaque para a palavra “judeus”.

Em segundo lugar, quando Moisés se é que ele escreveu Levítico cita abominações, elas não são necessariamente pecados. São hábitos que permeavam outras culturas e não fariam parte dos costumes judaicos a partir da introdução da Lei. O conceito antigo-testamentário de “santificação” (isto é, distinção ritual e cultural) foi emprestado pelos hebreus dos povos ao seu redor, como os egípcios, por exemplo, que consideravam uma abominação dividir a mesa com um hebreu. Tcharam! A lista de abominações em Levítico inclui coisas como misturar alimentos ou tecidos, comer lagosta, e não se casar com a viúva do seu irmão e engravidá-la. Questões culturais.

O paralelo com Levítico não resolve nada

Dizer que Paulo criou uma palavra em grego para espelhar um conceito da Lei e achar que isso resolve tudo em “homossexualidade é pecado” é pura falta de estudo.

Nas épocas de Moisés e de Paulo, o povo de Deus não tinha problema algum com uma mulher que se deitasse com outra. Inclusive, os textos originais em Levítico, em I Coríntios e em I Timóteo, que hoje enganosamente apresentam a palavra “homossexuais”, usam expressões especificamente relacionadas a homens. E olha que Moisés e Paulo foram bem detalhistas sobre o que mulheres podiam ou não fazer.

Tem mais. Assim como arsenokoitai, o versículo de Levítico 18:22 que Paulo provavelmente espelha ao criar essa palavra também sempre foi problemático para os tradutores e estudiosos da Bíblia. Até mesmo rabinos encontram dificuldade em determinar qual é a questão apontada ali em Levítico porque:

A) O contexto está proibindo sexo entre familiares, então só faria sentido que o versículo 22 também fosse sobre isso.

B) Lembra que falei que a especificação desse texto seria importante? Esta é uma das 13 regras judaicas da hermenêutica para interpretar a Torá: em caso de generalização seguida de especificação, é a segunda que conta. Isso torna o verso aberto a interpretação e enigmático.

C) Ao longo do capítulo, o padrão linguístico adotado pelo autor é quebrado de modo injustificado, o que sugere corrupção textual. Em outras palavras, é muito provável que esse texto tenha sido alterado ao longo dos séculos de acordo com o viés de quem o copiou, o tipo de coisa que, caso você não saiba, comprovadamente acontece em toda a Bíblia. Pode checar as notas de rodapé da sua NVI de estudo.

Contexto histórico — ou aquela parada que os religiosos agem como se não interferisse em textos milenares

Sempre que lemos, automaticamente encaixamos no texto a realidade que conhecemos. Soube de uma pessoa que publicou uma profecia bíblica a Ciro em sua página do Facebook como se fosse sobre o Bolsonaro, em época eleitoral. É cômico, e ninguém consideraria uma boa interpretação de texto. Do mesmo modo, ler sobre homoerotismo na Bíblia e pensar “homossexualidade” é colocar num texto milenar a perspectiva que temos no século XXI. É um erro. O mundo registrado na Bíblia é um muito diferente do nosso.

Casar por amor, por exemplo, é uma ideia que não tem nem 500 anos. Há dois milênios, as pessoas se casavam por motivos primários como proteger e ampliar sua linhagem e riqueza. Os papéis masculino e feminino eram restritivamente separados e não havia espaço na consciência coletiva para ver sentido em se casar e não se reproduzir em seguida. Ninguém  imaginava como uma família não convencional funcionaria na sociedade.

Escritos de filósofos sérios contemporâneos de Paulo se perguntavam coisas como “Se um homem se casar com o outro, quem será a mulher?”. É uma questão infantil e ridícula para os nossos dias porque, independentemente da sexualidade, os papéis sociais das pessoas não se encontram restritos como lá atrás. Isso nos ajuda a ver como aquela geração era incapacitada para discutir sexualidade — homo ou hetero.

Os afeminados

Durante o período histórico em que o Antigo Testamento foi escrito, era totalmente normal um homem penetrar outro. Mesmo que fosse casado com uma mulher e tivesse concubinas. O pré-requisito era pertencer a uma classe social superior à do homem penetrado. O problema, então, era receber a penetração. Era vergonhoso para aquela época “tornar-se como uma mulher”, porque consistia em uma inversão de papéis sociais e porque as mulheres eram consideradas inferiores aos homens. Ou seja, sexo entre homens não era considerado errado, mas estava sujeito a uma mentalidade geracional de casta e aversão ao feminino. Alô, Idade do Bronze!

É por isso que Paulo escreve outra palavra que os fundamentalistas adoram usar sem saber de onde vem: afeminados. A palavra no original grego é μαλακοὶ, que poderia ser transliterada para malakoi. Era usada pelos gregos para descrever desde um tecido macio até um homem com características consideradas femininas.

Esse era um termo pejorativo para descrever homens que não fossem “másculos” ou homens que se permitissem penetrar — fazer o “papel da mulher”. Estamos falando de uma era de sociedades patriarcais, onde um homem passivo seria interpretado como alguém “tentando ser uma mulher” e ultrapassando as fronteiras que dividiam os sexos socialmente; homens no topo e mulheres subservientes. Sociedades longe de representar o ideal cristão e que, portanto, não estão em condições de moldar a visão cristã da sociedade moderna.

Aquela geração não tinha se desenvolvido socioculturalmente a ponto de fazer separação entre sexo e papel social. Hoje sabemos que nem todo homossexual quer ser uma mulher, que as mulheres são cada vez menos subservientes no mundo todo, e que existem homens heterossexuais mais femininos do que certos gays, mulheres heterossexuais mais masculinas do que certas lésbicas, homens gays másculos e lésbicas delicadas. Nossa sociedade já não depende mais de fronteiras entre os sexos para se sustentar e, depois de muito estudo, entendemos que todos possuem características masculinas e femininas em medidas distintas independentemente da sua orientação sexual. Os termos “afeminado”, “masculino” e “feminino” têm se tornado cada vez mais subjetivos e inúteis no Ocidente, e isso é uma coisa geralmente positiva, porque aponta para a superação coletiva de normas e expectativas comportamentais irrealistas e opressoras para homens e mulheres de todas as orientações.

Opressão sexual

Paulo viveu numa realidade imersa na cultura greco-romana, que ainda não tinha superado as dinâmicas de abuso e injustiça ao redor das relações homoeróticas. Elas ainda aconteciam entre um homem poderoso penetrando seu escravo, muitas vezes a contragosto, por exemplo. Isto é, não estamos falando de homoafetividade. E agora havia uma nova tendência para agravar o cenário: a pederastia.

Na Grécia, era normal que tutores iniciassem seus pupilos sexualmente.  Então Paulo, que já carregava a noção judaica de que homens não deveriam subjugar outros sexualmente, enxerga nos gregos a pior atitude possível, pois estariam “afeminando” rapazes inocentes. Como poderia um homem feito tornar um jovem numa coisa tão vil quanto uma mulher?

Tanto na época do Antigo como do Novo Testamento, o mundo  considerava  apenas os passivos em relações homoeróticas numa posição degradante, que era a feminina. Os ativos sempre saíam ilesos.

Uma mente moderna tentaria resolver o problema propondo que relações homoeróticas se tornassem exclusivas para situações de afeto e consentimento. Mas o Judaísmo e o Cristianismo tentam enfrentar injustiças sexuais entre homens em épocas quando não existe aparato intelectual para se chegar a uma conclusão dessas. Eram contextos socioculturais muito distantes do que conhecemos hoje, sem os séculos de pesquisa e conhecimento que nos esclarecem a complexidade e nuance da sexualidade humana e reinterpretam os papeis sociais dos sexos. Assim, para ambas as correntes religiosas, a solução oferecida era radical, da única maneira que poderia ser.

A proposta era que sim, seria degradante para um homem se tornar como uma mulher, mas o problema não podia mais ser exclusivo de quem recebia a penetração. Era necessário atribuir responsabilidade aos homens que afeminavam os outros. O penetrador também deveria ser condenado. Vamos parar com qualquer interação sexual entre homens.

Em certo sentido, o Judaísmo de Moisés e o Cristianismo de Paulo dão um passo positivo para acabar com a dinâmica de abuso e desigualdade que regia as relações homoeróticas de seus contextos. Mas, sem a bagagem científica necessária para compreender a homoafetividade, criaram doutrinas que vêm alimentando a marginalização da homossexualidade até hoje. A Bíblia não tem culpa disso. Duvido muito que uma versão de Paulo do século XXI gostaria desse cenário.

Colocando seu viés na Bíblia

Assim que os estudiosos começam a apontar para a realidade histórica que você acabou de conhecer, as novas versões da Bíblia apareceram condenando “homossexuais ativos e passivos”, para encerrar a discussão. Os teólogos não os melhores passaram a dizer que malakoi eram os passivos e arsenokoitai eram os ativos ou um termo que Paulo inventou para englobar os dois. É isto que os linguistas chamam de forçar a barra para caramba, em linguagem técnica.

A Bíblia em português se adaptou versão após versão até chegar aonde estamos. Ela disse “efeminados” primeiro, “afeminados” depois, e então “homossexuais”, finalmente chegando a “ativos e passivos”. Esta, senhoras e senhores, é a história de como muitas pessoas, ao longo de séculos, distorceram o Antigo e o Novo Testamento, reescrevendo textos que simplesmente não possuem interpretação literal certa, num esforço nascido do preconceito e da falta de informação sobre… meu Deus, tanta coisa! Sobre sexualidade, sociologia, história, linguística, e por aí vai.

“A Bíblia claramente diz que homossexualidade é pecado”, agora você sabe, é uma declaração abestada, para pegar leve. Mas é extremamente nociva, principal pilar da discriminação e da autorrejeição que os gays enfrentam no mundo, e que precisa parar de ser repetida.

Paulo não pode ser evocado como autoridade para pecaminizar a homossexualidade. Ninguém na época dele era autoridade no assunto. Para dizer que o apóstolo condenou o comportamento homossexual, é preciso ignorar tantos fatos científicos, que chega a ser assombroso que as pessoas ainda digam essa bobagem. Paulo era um judeu, criado sob a Torá, sem noção alguma sobre sexualidade, falando a uma sociedade igualmente ignorante do tema há dois mil anos, num linguajar que nem os maiores acadêmicos do mundo asseguram que sabem traduzir. E mesmo que ele tenha feito um esforço contra o homoerotismo, foi com a intenção de enfrentar desigualdade e injustiça. Isto quer dizer que, quando a religião utiliza as cartas de Paulo para colocar os gays num patamar abaixo das outras pessoas, como pecadores, antinaturais, e errados, estão pervertendo a Bíblia. Estão usando uma iniciativa anti-desigualdade para alimentar a desigualdade. Estão tomando um discurso a favor da justiça social para marginalizar pessoas socialmente. E isso não pode mais ser justificado.

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