Quem tem Jesus tem tudo: inclusive depressão

Alguém falou e acertou. Depressão é excesso de passado. Ansiedade é excesso de futuro. Eu esperava que o Cristianismo aliviasse os sintomas disso tudo. Mas é fácil perceber que fez o oposto.

Todo mundo já remoeu falhas passadas alguma vez e sabe como isso é horrível. Mas cristãos realmente devotos poderão atestar que a aflição desse comportamento se agrava de maneira alarmante quando essas falhas são encaradas como mais do que fracassos pessoais, e passam a ser chamadas de pecados. Ofensas contra Deus. O que é ruim se torna um inferno quando estamos sempre pensando se algo que fizemos no passado está interferindo em nosso ministério, nosso chamado, e em nosso relacionamento com Deus. Se nos macula, nos perverte por dentro de alguma forma.

A cada Santa Ceia, somos instruídos a lembrar de como nossos erros traspassaram a carne de Jesus. Gráfico. Geralmente a cerimônia termina com uma música triunfante, mas que não ecoa o que sentimos. Quando a bateria acelera, ainda estamos secando as lágrimas de uma culpa massacrante por coisas que fizemos anos atrás. Nossos maiores arrependimentos e vergonhas. Todos confessados pela milésima vez ali, como nos retiros, encontros, momentos de “unção” e “libertação”, e em tantas noites solitárias ao pé da cama.

Muitas pessoas que ouvem esse tipo de confissão responderiam de supetão que quem se sente assim na igreja nunca teve um “verdadeiro encontro com Jesus” e nunca entendeu que, na cruz, Deus apagou todo o nosso passado. Essas pessoas apenas não se deram conta de que a rotina cristã reforça pouco essa ideia, mas está cheia de rituais que reforçam o remorso, a vergonha e a culpa com grande força e frequência. Essas pessoas apenas não sofreram aquela medida de desilusão que introduz a clareza.

O futuro também é muito importante para o cristão. Tudo se trata do futuro, no fim das contas. Passar infinitos dias descansando com o Criador ou viver para sempre abandonado por ele sob tortura infernal.

Quanto mais alto você chega na escalada ministerial, mais preocupante se torna o futuro, se você for um cristão sincero. Você precisa tomar cada vez mais cuidado para evitar qualquer escândalo a todo custo, pois um passo em falso pode acabar com sua reputação. Claro, essa palavra é sempre ligada à vaidade e nunca é mencionada, mas segue por trás do pavor de, por um lapso, condenar a credibilidade do ministério, da família sacerdotal, da igreja local. E o que será do rebanho, do presbitério, da rede apostólica, da coalizão internacional, do Brasil e seu avivamento, e do mundo, enfim, que espera por nós?

Se essa bola de neve parece um exagero para algum leitor, ele com certeza não é um filho de pastor. Provavelmente nunca ouviu um ministro de destaque abrir o coração. Porque essa paranóia, esse peso de responsabilidade por uma geração, uma nação, um apocalipse, está constantemente no coração dos ministros mais dedicados. Todos sentindo que, se não usarem suas habilidades ao máximo de sua capacidade, ainda que cheguem a um comportamento sacrificial, provavelmente colocarão em risco coisas muito maiores que eles próprios. São essenciais. Estão presos pela nobreza em meio às engrenagens do avivamento prometido para um futuro sempre próximo e sempre distante.

Você já viu as estáticas? Estudos realizados no Canadá, por exemplo, apontam que oito por cento das pessoas comuns do país sofrem de depressão. Entre os líderes protestantes, o número salta para até vinte por cento.

Diversas correntes de pensamento defendem que uma das coisas mais importantes para se desenvolver paz e felicidade é a capacidade de estar plenamente presente aqui e agora. E a ciência tem comprovado a validade desse argumento. Enquanto isso, o cristão piedoso é jogado de um lado para o outro, entre o futuro e o passado. Dizem que a felicidade máxima nos aguarda no pós-vida, e enobrecem a abnegação. Não imaginam que, se após a morte vier o nada, nossos sacrifícios podem não ser recompensados e, nesse caso, terão servido apenas para minar os poucos dias que tínhamos sobre este planeta.

Para o Cristianismo, aceitar o momento presente assim como ele é e desfrutá-lo inteiramente consiste em conformidade com este século. É tornar-se como as virgens imprudentes, que deixaram de vigiar e ficaram de fora das bodas. É ceder ao pecado do hedonismo, do humanismo, e abdicar da verdadeira santidade, que olha sempre para trás, como a tradição judaica bíblica, e sempre para a frente, como Paulo advertiu. Mas nunca para hoje. Nunca para aqui.

Como pode um cristão devoto encontrar paz e felicidade oscilando entre os extremos que incentivam a depressão e a ansiedade? Como pode desfrutar da justiça que alega ter agora se está sempre lamentando o traste que foi e ressentindo a distante perfeição que um dia espera alcançar? Como pode uma pessoa que nunca está aqui ser feliz agora?

Não vamos esquecer. Ao cristão ansioso e deprimido, resta se arrepender. Pois ansiedade e depressão não são doenças, independentemente de serem diagnosticáveis a tratáveis. Depressão e ansiedade são fantasias, na maioria dos casos. E, quando reais, são coisas de pessoas egocêntricas e incrédulas — resultado de pecado. Não adianta procurar um psicólogo, um psiquiatra, um terapeuta. É preciso procurar Deus. Pois, para se sentir assim, você deve ter feito algo errado no passado. E, se continuar se sentindo assim, está pondo em risco seu futuro.

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