Ontem quase desmaiei

Desde que contei à minha família sobre minha orientação, tenho sido bem otimista quanto ao nosso relacionamento. Mas, esta semana, caiu uma ficha que mudou tudo. Talvez em definitivo.

O dia em que falei com eles, em 2018, foi uma droga. Inclusive porque eu não soube como comunicar o que eu queria, mas isso já é história para outro texto. Acontece que, nos meses que se seguiram, minha família me deu esperanças para crer que as coisas ficariam mais fáceis entre a gente com o tempo.

Numa das conversas tensas que tivemos, apesar de não concordar comigo (como se sua orientação fosse o tipo de coisa que exige que alguém concorde com você), meu pai me assegurou que estava lendo o que podia para se informar e tentar me entender. De lá para cá, foi o que achei que vinha fazendo. Quem sempre lê o blog e me acompanha no Instagram viu como tenho sido positivo.

Desde o início, disse aos meus pais que não tinha intenção alguma de doutriná-los. Eu conheço todos os textos bíblicos que eles aprenderam como base para dizer que estou “enganado”, e sei que não significam o que a tradição cristã diz. Sei de seus contextos históricos e sociólogos, da discussão dos linguistas e acadêmicos em torno deles e que estão cientificamente desqualificados de qualquer discussão séria sobre sexualidade. Mas não forçaria nada disso goela abaixo da minha família. Disse apenas que, sempre que tivessem curiosidade sobre meu posicionamento e se sentissem prontos para isso, poderíamos dialogar, e eles teriam acesso a muito mais informação do que a igreja costuma oferecer quando se trata de Bíblia e sexualidade. Isso foi há praticamente um ano e meio. Eles não me procuraram uma vez sequer.

Eu sei, como qualquer ex-evangélico, quanta dor e quantos conflitos seriam evitados se simplesmente tivéssemos acesso a mais informação. Passei a escrever aqui a respeito dos mal-entendidos da religião sobre a homoafetividade. Mandava os links para minha família. Meu pai nunca respondia. Achei estranho. Semana passada, ele finalmente respondeu.

Filho, não é necessário me enviar os links para os textos. Obrigado. Sigo orando por você com todo o meu amor. Jesus te abençoe.

Se você é evangélico, provavelmente adorou essa resposta. Você entende meu pai. Já pode se sentir tranquilo: ele não se desviou. Eu asseguro, para seu alívio, que ele não apoia minhas “escolhas” e meu “comportamento”. Se você é gay, sabe quanto isso doeu.

O paradoxo cristão é que todos vão dizer que a verdade liberta, mas eles não têm interesse algum em descobri-la. Inclusive devido à inabalável e prepotente crença de que já conhecem a verdade melhor que todo mundo. A natureza do meio evangélico não é a mera ignorância, mas a deliberada rejeição do conhecimento. Para eles, isso pode soar como uma frase ofensiva de ódio, mas não é. É científico. Qualquer um que estudar a Teoria da Dinâmica em Espiral pode observar essa tendência, de modo que não estou fazendo uma crítica, e sim uma observação lógica que compreendo com o coração tão aberto quanto possível.

Estou tentando dizer que, como escrevi tantas vezes a quem me perguntou no Instagram e num texto aqui no blog, meus pais vêm me tratando com decência de lá para cá. Achei até que o Natal do ano passado seria um ótimo momento para nosso amor triunfar sobre nossas diferenças. Mas meu otimismo não compensou.

Depois daquela mensagem infame, meu pai e eu trocamos mais algumas e me dei conta de que ele desistiu de se informar sobre sexualidade há bastante tempo. Ele deve, mesmo, ter lido algumas coisas construtivas, mas nunca se abriu a mudar de opinião, porque reforçou os mesmos preconceitos que eu já conhecia lá atrás. Ele não vai me escutar. Ele se recusa a me entender. Ele não tem interesse nenhum em ver as coisas do meu ponto de vista. Ele quer me amar em oração, resignado a não fazer qualquer esforço para compreender uma parte fundamental da minha vida em que me esforcei tanto para incluí-lo.

Recebi as respostas condescendentes típicas de qualquer cristão fundamentalista e não deveria me assustar. Eu fui essa pessoa. Eu vivenciei, estudei e compreendo essa realidade. E a natureza dela é que as pessoas que a integram não têm interesse nem envergadura para estudar e compreender realidades além da sua. Mas saber isso (que merda) não alivia em nada a dor da rejeição. E os evangélicos que lerem isso dirão amém ao que meu pai me disse: que estou me fazendo de vítima.

Faz dias que não consigo administrar essa dor. Por isso acabei escrevendo. Preciso de algum escape terapêutico e, para mim, geralmente funciona escrever e saber que tem alguém me escutando e que minha dor pode ajudar pessoas numa situação parecida.

Hoje, assisti a um especial de comédia. Esse cara, eu não sabia, conta a história dele com seu pai. E foi curativo para mim. Mas, ao mesmo tempo, mexeu com todas as emoções que estou tentando administrar. Mais tarde, enquanto eu tentava curtir a TV com meu namorado, tive a pior crise de ansiedade da minha vida. Comecei a tremer do nada, no meio do episódio do seriado que a gente assiste. Nunca tinha tremido. Tentei um banho quente para me acalmar, mas comecei a hiperventilar como nunca antes. Minhas pernas bambearam, perdi a cor, e tive medo de desmaiar. A crise durou uns trinta minutos.

Neal Brennan no especial de comédia 3 Mics, da Netflix

Quando a quarentena passar, quero voltar a fazer terapia. Vou precisar, não acham? Enquanto isso, vou continuar a meditação, que foi só depois dela que meu coração retomou uma pulsação normal.

Obrigado por se importar com minha história, que isso me faz sentir menos solitário. E espero que você termine a leitura com a mesma sensação. Como sempre digo, você não está sozinho. Continue corajoso.

2 comentários

  1. Mitch, desculpe a audácia em te escrever depois de tanto tempo. Talvez você nunca mais verá outro comentário meu.
    Só quero dizer que te entendo, não discrimino sua orientação. Mas me solidarizo a você na questão de se sentir “abandonado”… talvez, se eu tivesse um (só um) olhar de carinho e atenção em 2017, talvez hoje minha vida não teria dado a virada que eu optei em fazer.
    Sabe, sempre te admirei, você ainda tem minha admiração. Se eu puder te ajudar de alguma forma, conte comigo ok?
    Só não conte com minhas orações, pois hoje fiquei cético, por não acreditar mais no “amor cristão”, pregado na maioria das “igrejas de Cristo”, optei por não fazer mais parte dessa classe mentirosa… Não estou julgando ninguém, mas percebi que ninguém vive o que prega, então hoje, estou livre… muito melhor que antes, sem estar debaixo de julgamento nenhum…
    Ah… sei lá… decidi te escrever para dizer que pode contar comigo, se precisar e se desejar ok? Me decepcionei com muita gente… sei que fiz o mesmo para muitos outros… até imagino os comentários… Mas desejo a você e seu namorado toda felicidade do mundo… sabe Mitch, não sei o que você ouviu ou desejou ouvir, mas respeito demais sua postura, e, eu acho que pra expor sua orientação, tem que ser mais homem que muitos dos que se dizem ser.
    Bjão, Eber

    1. Cara, esse é o comentário mais generoso que recebi de alguém do passado. Muito obrigado por ter escrito e se posicionado. Eu amo você e admiro, como sempre, seu coração. Obrigado por se oferecer pra participar da minha jornada. Vamo se escrevendo no insta. Um beijão!

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