Sodoma não é sobre gays

A autoria dos cinco primeiros livros da Bíblia é atribuída pela tradição religiosa a Moisés. Daí a seriedade que as pessoas dão a eles. Mas é improvável, para não dizer impossível, que ele tenha escrito tudo isso. Estudiosos afirmam que há vários autores diferentes para o Pentateuco. Isso explica por que histórias que se repetem nesses livros se contradizem, por exemplo, e por que contêm estilos narrativos diferentes.

Com as características de uma época em que fato e ficção se misturavam na literatura, transformando ancestrais em super heróis para glorificação do seu povo, Gênesis e Êxodo são universalmente encarados como mitos de origem da humanidade e do povo hebreu. É muito importante saber disso porque nos ajuda a avaliar com mais inteligência a autoridade do Antigo Testamento, uma das principais ferramentas de pecaminização da homossexualidade. Tomar as histórias do Pentateuco como fatuais para moldar sua visão de mundo no século XXI não é a melhor escolha a se fazer.

A destruição de Sodoma e Gomorra, John Martin

Um pouquinho de sociologia

Gênesis, onde o Mito da Hospitalidade aparece como a história de Sodoma e Gomorra, foi escrito há cerca de três mil anos. Por isso é um livro que não tem nada objetivo a dizer sobre sexualidade: quando foi escrito, a raça humana não tinha nem ideia do que era isso. Estamos falando da Idade do Bronze. Tem noção? O conceito de sexualidade, historicamente, tem menos de trezentos anos. De Gênesis para cá, para se ter ideia, o termo “heterossexual” foi originalmente usado para se referir a indivíduos sexualmente pervertidos antes de se tornar a palavra que hoje a religião define como “normal”. Levou muitos anos para que “heterossexual” se tornasse o padrão.

Acontece que, quando falamos da Bíblia, muita gente ainda acredita que se trata da palavra de Deus, e descarta fatos científicos como se fossem contos de fadas. Então, a melhor maneira de explicar que o mito de Sodoma e Gomorra em Gênesis não é sobre homossexualidade é olhar para a própria Bíblia. E, se voce não sabe porque me refiro a essa história como mitológica, sugiro que leia o que escrevi na semana passada antes de continuar, clicando aqui.

Uma olhadinha no conto

Vamos lembrar a história. Spoiler: ela era okay milênios atrás, mas é hedionda para nossa cultura atual.

Dois anjos visitam Ló, o único homem justo das redondezas, para instigá-lo a fugir com sua família porque Deus viu que Sodoma e Gomorra são cidades perversas e vai destruí-las. Cidadãos dali, vendo os forasteiros, quase botam a casa de Ló abaixo pedindo “Deixem a gente usar os dois sexualmente”. Ló, para proteger os anjos, oferece suas duas filhas em seu lugar, e se torna assim o herói da história. Sim. Você leu certo. O único homem que Deus acha justo nesse conto oferece as filhas para serem violentadas. Mas os cristãos preferem focar na questão dos “afeminados”.

Qualquer um que lê Gênesis e acha que essa passagem é sobre homossexualidade é péssimo em interpretação de texto. O crime evitado no mito não tinha nada a ver com o afeto consensual entre pessoas do mesmo sexo. O crime era um estupro coletivo.

Note que, no relato, ninguém se choca por haver interesse de homens pelos dois forasteiros. Nada é mencionado que dê a entender que o problema fosse esse. Mais: se o pecado daqueles estupradores era a homossexualidade, por que eles aceitaram mulheres para seu deleite? É ilógico. Tão ilógico quanto considerar como herói o pai que oferece as filhas para sofrer em lugar de estranhos.

Acontece que esse mito é sobre hospitalidade. A moral é a seguinte: é melhor entregar seus bens mais preciosos do que não proteger forasteiros. Duvida? Mas a própria Bíblia explica.

Qual foi o pecado de Sodoma?

Sodoma e Gomorra são mencionadas várias vezes na Bíblia. E nenhuma delas aborda qualquer coisa sobre sexualidade. Observe um desses momentos, quando Deus aparece falando através de um profeta.

Este foi o pecado de Sodoma: Ela e suas filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam os pobres e os necessitados. Eram altivas e cometeram práticas repugnantes diante de mim. Por isso eu me desfiz delas conforme você viu. (Ezequiel 16: 49-50)

Uma lista de falhas e nada sobre sexo. O pecado não era Sodoma estar cheio de veado, como diz a religião. O pecado era falta de hospitalidade, uma virtude sagrada na antiguidade. O próprio Jesus menciona o mito para tratar da mesma temática.

Se alguém não ouvir suas palavras, sacudam a poeira dos pés quando saírem daquela casa ou cidade. Eu lhes digo a verdade: No dia do juízo haverá menor rigor para Sodoma e Gomorra do que para a cidade que não receber vocês. (Mateus 10:14-15)

Percebeu? Jesus está dizendo que cidades serão punidas com desgraça maior do que Sodoma se forem cheias de gays? Se forem promíscuas? Lotadas de estupradores? Não. Jesus era um homem de mentalidade muito à frente do Antigo Testamento e não menciona nada sobre sexualidade porque, em primeiro lugar, o mito não era sobre isso e, em segundo lugar, sua geração também estava a milênios de ter qualquer conceito sobre sexualidade. Ele diz que existe castigo reservado para quem não for hospitaleiro com seus discípulos.

Conclusão

Era uma vez uma rainha feiticeira que queria ser a mais bela do reino e envenenou uma maçã para matar uma garota mais bonita que ela. Moral da história: não confie em maçãs? Se alguém quiser se basear na história de Sodoma e Gomorra para dizer que homossexualidade é pecado, pode aproveitar e dizer que a fábula da Branca de Neve é sobre a maldade inerente das maçãs.

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