Síndrome do Trauma Religioso

Outro dia, uma garota veio elogiar meus textos. Depois que começamos a conversar, introduziu o famoso “Só queria dizer uma coisinha…” Tivemos uma conversa estranha.

Ela foi dizendo que todo mundo sofre aflições psicológicas e isso é parte da vida. [Verdade.] Que muita gente que não sofre estresse por motivos religiosos sofre por causa da carreira, da saúde ou da família. [Também verdade.] E logo tentou me convencer de que não há motivos para considerar desordens mentais decorrentes de experiências religiosas mais graves do que as que possuem outra origem. [Não é bem assim.]

Senti que ela estava buscando palavras educadas para me dizer “Pare de choramingar; seu sofrimento não é especial”. E, por mais que eu não tenha o menor interesse na glorificação do sofrimento, seja meu ou qualquer outro, nossa inconveniente colega está muito enganada, e eu sabia que seria importante falar disso com vocês aqui um dia.

Para início de conversa, todo sofrimento é especial porque é único. Se duas pessoas têm depressão pelo mesmo motivo, experimentam simultaneamente sofrimentos diferentes. Cada pessoa é complexa de maneira individual e reage a tudo de maneira peculiar e, por isso, nenhuma dor é igual a outra.

Se uma garota perdeu a mãe e outra perdeu o bicho de estimação, podemos instintivamente considerar o primeiro cenário pior. Mas não queremos respeitar o luto de apenas uma das meninas nem dizer à que perdeu o cachorro: “Pare de chorar, que tem gente que perde a mãe”. Isso seria insensível para com ambos os casos, porque tenta invalidar uma dor e objetificar a outra.

Tenho tido pesadelos. Nunca tinha acontecido antes. Eles começaram quando rompi de vez com a religião. Sonho com coisas nas quais não acredito mais. Acordo no meio da noite me sentindo sozinho, confuso, com medo. Meu coração aperta enquanto não consigo evitar me perguntar se eu deveria voltar atrás, embora tenha certeza de que estou onde deveria. Esta semana, no meu sonho, eu estendia o braço olhando para o céu enquanto orava, gritando “Eu creio” com uma intensidade familiar e gigante. Acordei com o braço estendido para o nada na cama e um arrepio percorreu meu pescoço. Queria correr ou sumir. Parecia o início de uma crise de ansiedade.

Você já deve ter ouvido falar do Transtorno de Estresse Pós-traumático. É uma perturbação mental que acomete certas pessoas que enfrentaram uma situação marcante como um acidente, uma violência ou uma guerra, por exemplo. Ele pode causar taquicardia, tonturas, dor de cabeça, distúrbios do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade, e hipervigilância, dentre outras coisas.

Uma pessoa com esse transtorno não está sob o efeito do estresse comum relacionado ao trabalho ou ao dinheiro. Estamos falando de algo bem mais raro e grave. Por quê? Por que o mundo da saúde está estudando outra desordem, tão grave quanto essa, porém ainda mais exclusiva, da qual você provavelmente nunca ouviu falar: a Síndrome do Trauma Religioso.

Saiu até no New York Times. A Síndrome do Trauma Religioso possui seu próprio conjunto definido e reconhecível de causas, ciclos de abuso, e de sintomas. Estes podem incluir as características de depressão clínica, transtorno de ansiedade, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo, suicídio, e principalmente do Transtorno do Estresse Pós-traumático. E a lista segue.

Esta é uma perturbação mental que acomete exclusivamente pessoas que sofreram abuso em sua religião ou que a deixaram. Muitas delas têm pesadelos assustadores. Algumas chegam a desenvolver características homicidas. Todas sofrem uma pressão e vazio existencial esmagadores.

A pessoa que tenta invalidar seu sofrimento ou relativizar a gravidade da sua dor não sabe o que está dizendo. Vocês, leitores mais frequentes que estão desconstruindo sua fé, acreditem: eu sei que devem estar estarrecidos agora. Selecionei um artigo sobre o assunto para quem quiser se informar mais aqui.

Não hesite em buscar ajuda. Pessoas do lado de lá, confortáveis na religião, podem não entender o que você está enfrentando. Mas há quem entenda. Seu sofrimento não precisa ser glorificado, mas precisa ser reconhecido para ser superado. Sua dor é válida. Você não está sozinho. Continue corajoso.

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