Não creio mais nesse Deus

Ela estava sentada na cama, coberta pelo edredom até a cintura. Sorria sozinha assistindo a vídeos em seu smartphone. Ele chegou do banheiro, sentou do lado da esposa e ficou em silêncio olhando para o nada.

— Tá pensando em quê, Beto?

— Tanta coisa, amor…

Respondeu como se tivesse despertado de uma hipnose. O olhar ainda se ajustando à realidade.

É difícil se divertir com alguém em estado letárgico bem ao lado. O silêncio do esposo não deixaria a esposa se distrair em paz. Deixou o telefone a contragosto na cômoda e virou-se para o parceiro, que correspondeu desajeitado.

— Vai, Beto. Fala.

Ele suspirou. Caçou as palavras.

— Como você se sentiria se fosse obrigada a fazer minha vontade?

— Que pergunta é essa, gente?

— Não. É sério. — Tomou a mão da esposa entre as suas. — Imagine que você precisa fazer o que eu quero. Todo dia. Que… Seu destino depende disso!

— E nesse cenário, eu seria o quê? Sua empregada?

— Justamente! Quero dizer… Você seria, na prática, mas eu diria o tempo todo que você é a pessoa que mais amo e que quero o melhor para você.

— Então você me ama, mas eu tô ferrada se não fizer as suas vontades.

— Isso.

— Não parece amor, para mim. Aonde você quer chegar? Não é por nada, mas são onze da noite, já.

— “Não parece amor.” Não parece… E o que você acha de eu, não apenas pedir que você faça tudo que eu quero, mas que também abandone seus sonhos, gostos, preferências…? Enfim, tipo “Faça sempre o que eu quero e nunca o que você quer”.

— Eu vou dizer que você perdeu a cabeça. Do que você tá falando, afinal? Por que essa cara de deprimido?

Já fazia muito tempo que essa cara acompanhava o esposo, com suas perguntas silenciosas. Era difícil encontrar um jeito de explicar que estava em crise. Nem sequer aceitava que era essa sua condição. E não ajudava saber que sua esposa também não aceitaria.

Desviou o olhar. As mãos dele suaram frio, umedecendo as dela. Respirou fundo. Olhou nos olhos da esposa como um cão abandonado.

— Eu não acredito mais em Deus como nos ensinaram, Ana. Essa história de rejeitar qualquer vontade que eu tenha… Deixar meus sonhos pelos dele, meus impulsos pelos dele, minha opinião pela dele… É desumanizante. Quem sou eu sem minhas inclinações naturais, sem minha personalidade? Estão sempre repetindo que Deus é amor e que foi para a liberdade que Jesus nos libertou, e veio para nos dar vida em abundância, e tudo… E eu não vivo em abundância, benzinho. Eu não sei que tipo de amor e de liberdade é esse que nos ensinam. Tipo “Seja livre; só não faça nada que quer”. Ou então “Deus o ama, faça tudo que ele quer”. Eu… Eu não acredito num Deus que nos liberta do inferno para nos escravizar de novo em seguida.

Houve silêncio por um instante. A esposa recolheu a mão. Endireitou as costas. Falou com a voz trêmula.

— Beto. Eu não sei o que é isso tudo. Mas você é o cabeça aqui de casa. Pelo amor de Deus, não seja um incrédulo. A gente tem tudo que precisa, Beto. Estamos quase sendo ungidos pastores na igreja e só Deus sabe quanto a gente lutou por isso. Eu não vou admitir que o Inimigo…

— Mas, amor! — O esposo interrompeu. — Talvez o Diabo não tenha nada a ver com isso. E se for o Espírito Santo me guiando à verdade e…?

— Acontece que meu Deus não é deus de confusão.

— Pense comigo. Você não acreditaria que eu te amo se eu pedisse para você viver totalmente dedicada a mim. Entende? Você me acharia um narcisista, um megalomaníaco, um egocêntrico! Como pode alguém amar e exigir adoração?

— O sangue de Jesus tem poder, Beto!

— É sério! Jesus disse que o amor está no fato de ele se entregar por nós. Eu não sei se nos ensinaram um Deus diferente, Ana. Porque esse aí só quer que a gente entregue tudo o tempo todo!

— Meu Deus, Beto! Deixa o pastor ouvir que você tá falando essas coisas! Misericórdia!

— Mas, amor… — O esposo quase implorou.

— Você precisa orar, Beto. Precisa ler muita Bíblia e jejuar. Pedir para Deus falar com você. — Virou os olhos para o teto mudando o foco da conversa. — Deus, tem misericórdia do meu esposo. Eu me arrependo dessas palavras por ele. Ilumina o entendimento dele. Em nome de Jesus, Pai!

A esposa apagou o abajur. Deitou na cama emburrada, de costas para o esposo.

— Ore, Beto. Você precisa orar.

O esposo deitou. “Eu oro todo dia”, pensou desolado. A esposa não era exatamente uma mulher de oração.

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