Como os terraplanistas estão melhores que os evangélicos

Tanto faz se os terraplanistas estão certos ou errados. A questão aqui é que eles podem, de um jeito ou de outro, estar mais perto de alcançar felicidade e maturidade do que a maioria das pessoas no meio evangélico.

Celebrando a dúvida

O mundo todo pode caçoar das pessoas que não acreditam que a Terra é esférica. Não importa. Elas continuam duvidando. Para ser terraplanista, é mandatório duvidar.

Qualquer um que integre uma igreja evangélica pode atestar que ela não é um ambiente seguro para contestar e discordar. O cristão comum que duvida acaba apelidado de Tomé, humanista, cético, e racional — um bando de coisas que não é necessariamente negativa, o que, por sua vez, já diz muito sobre esse universo onde certeza é tudo e duvidar é pecado.

Os terraplanistas não têm provas de que o Planeta não seja esférico. O que eles têm é uma teoria. A dúvida, então, os une. Você pode achar que a dúvida deles é idiota. Mas, ao abraçá-la, essas pessoas estão passando por uma porta para o crescimento que boa parte dos evangélicos nunca vai sequer abrir.

A porta da investigação

A religião funciona à base de tradição. Para manter as coisas como têm sido pelos últimos duzentos anos, é preciso conformidade. Assim, o evangelicalismo não incentiva o livre-pensamento. Como em qualquer religião, existem os sacerdotes e os leigos. Ovelhas não criam as regras nem escolhem como viver; apenas se preocupam em obedecer às regras e à vontade divina conforme expressa por seus pastores. Elas não precisam pensar e buscar respostas, porque seus líderes estão encarregados dessas tarefas. Basta sentar e ouvir o que Moisés tem a dizer depois de subir o monte fumegante. As ovelhas geralmente se acostumam a não investigar a natureza e a origem das tradições que seguem e, nesse processo, perdem a chance de enxergar quando tais tradições não servem mais ou chegam a ser nocivas.

Para os terraplanistas, pensar por si só é preciso. Eles podem não ter domínio de metodologias científicas de investigação. Mas são pessoas que estão aprendendo a duvidar de quem diz ter todas as respostas. Não querem acreditar gratuitamente nos grandes veículos de informação. Querem encontrar a verdade à sua maneira.

Coragem

Na Igreja, a maioria dos relacionamentos é superficial porque somos proibidos de ser vulneráveis. E é impossível criar conexões humanas profundas sem vulnerabilidade. Enquanto isso, os terraplanistas dão a cara a bater em canais de TV, aprendendo o poder de assumir posição por aquilo em que acreditam mesmo que sejam ridicularizados. Eles aprendem a cagar para o que o mundo pensa e a ser corajosos de um jeito que as pessoas mais confortáveis na religião talvez nunca aprendam. Enquanto tantos crentes se sentem escravizados pela necessidade do bom testemunho, muitos terraplanistas descobrem a coragem para ser autênticos e vulneráveis, o que cria o ambiente perfeito para a aceitação e a conexão. É assim que muita gente na comunidade da Terra Plana descobre um tesouro em falta na Igreja:

Comunidade

O documentário A Terra é Plana sugere que a principal força dos terraplanistas é o seu senso de comunidade. Em reuniões da Terra Plana ao redor de todo o mundo (ênfase na palavra redor), pessoas se encontram para compartilhar qualquer evidência que pareça suportar sua tese. Eles levantam dinheiro para realizar experimentos que os levem mais perto da verdade. Nesse processo, estão colaborando por algo que têm em comum. Algo maior que eles e em favor do mundo.

Quando os terraplanistas finalmente tiverem o conhecimento e a tecnologia necessários para verificar sua tese, por mais que não encontrem as respostas que esperam, terão percorrido uma trilha que valerá a pena. Terão se tornado independentes em sua busca pela verdade. Desapontados, talvez, mas autônomos. Donos de seu conhecimento. Vários deles terão possivelmente dominado princípios científicos que hoje estão apenas começando a arranhar. Se e quando descobrirem que a Terra é esférica, não perderão as horas gastas comendo juntos, conversando e buscando a verdade. Nada vai apagar as memórias das enormes convenções lotadas de pessoas com a habilidade de nos fazer sentir que tudo bem questionar a maioria.

Certos ou errados, a tendência da comunidade da Terra Plana é levá-los a crescer como indivíduos questionadores, confiantes, e cercados de amigos. Amigos com uma mente mais cheia de ciência do que no início de seus questionamentos. Com laços mais profundos do que os permitidos em grupos religiosos onde duvidar é pecado, questionar é rebelião, investigar é falta de espiritualidade, e ser vulnerável é sinal de fraqueza.

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