The Send: estádios lotados de omissão

Em 1991, nasceu um clássico do suspense chamado O Silêncio dos Inocentes. O título original, The Silence of the Lambs, poderia ser traduzido ao pé da letra como “o silêncio dos cordeiros”. E também poderia ser o nome da cena que vem me aterrorizando há duas semanas.

Como comentei no último texto, Todd White disse a um gigantesco público, representante da comunidade evangélica no Brasil, que, para crer no Evangelho e ser cristão, você precisa se posicionar contra o casamento gay. E ninguém protestou.

Se você acredita que a homossexualidade é pecado ou não, quero deixar claro: não é a questão aqui. Se você acredita ou não que o Todd foi antibíblico, tanto faz também. O ponto é o seguinte: posicionar-se a favor da igualdade para todos é um ideal universal. É papel de todos ficar do lado dos direitos civis garantidos a qualquer cidadão. Uma boa pessoa, independentemente da sua religião, não quer viver numa sociedade que trata as pessoas com diferença, privilegiando uns e marginalizando outros. Acho que podemos concordar sobre isso.

Imagine uma sociedade que seguisse as seguintes regras. Alcoólatras não podem publicar livros. Pessoas brancas não podem fumar. Prostitutos não podem votar. Pessoas negras não podem frequentar faculdades. Gays e lésbicas não podem viajar. Imigrantes não podem se casar.

Se você precisasse apoiar essas regras para ser cristão, não preferiria outra religião? Por causa da fé ou qualquer outro motivo, é nosso direito não achar correto ingerir álcool, fumar, e prostituir-se. Mas não temos direito de proibir que as pessoas façam essas coisas. Se eu quiser esse veto como cidadão, estarei descarrilhando da democracia e cogitando a ditadura. Se quiser fazer isso por religião, não deve ser difícil, por conta dela própria, enxergar que minha arrogância já atingiu níveis estratosféricos. Estou deixando a graça e cogitando o radicalismo religioso.

Você pode não ser a favor das atividades que listei no exemplo ali em cima. Mas com certeza é a favor de que todo mundo tenha direito de escolher. Se é pecado ou não, é problema de cada um. O importante é que todos queremos viver numa sociedade livre, onde o Estado que protege o direito de um também o assegura para todos os demais.

A coisa democrática e cristã é esta: se a lei defende que brancos podem votar, então que votar seja para todos os seres humanos de todas as cores. Se beber álcool é direito dos ricos, que seja também direito dos pobres. Se é pecado ou não, faz zero diferença na discussão. Se heterossexuais têm a liberdade civil de viajar quando bem entenderem, que essa liberdade seja também para todas as pessoas de qualquer orientação. O pensamento cristão e o pensamento democrático concordam no seguinte.

Que o direito de um seja o direito de todos, pois todos são iguais.

Se uma pessoa de qualquer classe assume um microfone e diz que devemos tomar o que é direito de todos e retirá-lo de alguns, é nosso dever como cidadãos e como cristãos protestar. Se a gente se abstém de algo porque acredita que seja pecado, tudo bem. Mas não é nosso papel exigir que ninguém mais faça o mesmo. Parafraseando (novamente) C. S. Lewis, querer que as pessoas tenham a mesma experiência que nós não é cristão; é um tipo de mau-caratismo. E também é mau-caratismo contemplar a injustiça em silêncio.

É isso que vem me assombrando desde o The Send. Aquelas dezenas de milhares de pessoas totalmente omissas ao direito de todos de ser tratados como iguais — uma atitude antidemocrática e anticristã.

Imagine se o Todd White tivesse gritado “Se você não se posiciona contra o voto dos alcoólatras, você não é cristão”. Você ficaria calado bem ao lado de um amigo que participa dos AA? Como poderia bater palmas?! Mas um estádio lotado de pessoas que têm amigos gays dentro da igreja aplaudiu a hipótese de eles não serem iguais perante a lei. Quase posso ouvir os corações de pelo menos catorze mil cristãos gays quebrando enquanto viam seus “amigos” aplaudindo o homem que diz ser mandatório se opor ao direito deles, conquistado com muito esforço. Estou à beira das lágrimas imaginando aqueles jovens e adolescentes constatando que, para aquele estádio lotado, eles não são iguais. Ou se tornam heteros ou não devem ter o mesmo direito que todo mundo. Se isso não enoja você independentemente da sua noção de pecado, você não está escutando.

Heidegger disse e Martin Luther King repetiu: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. Mas se os cordeiros lotando três estádios nem ao menos se dão conta de que fizeram silêncio quando não deviam… Se eles nem percebem sua contradição ao se reunir para tomar posição por Cristo e achar bom se posicionar contra um direito básico garantido por lei para a pessoa marginalizada logo ao seu lado… Onde está a bondade?

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