Lembra quando Deus afogou todos os bichinhos do planeta?

Imagine que tenho um filho de seis anos. Ele adora a história da arca de Noé. Principalmente porque conto para ele com a ajuda de ilustrações e músicas divertidas. Os protagonistas são os bichos fofinhos no barco.

Pule para o futuro, e meu filho tem treze anos. Ele agora se dá conta de que, nessa história, Deus salva apenas uma família humana disfuncional e poucos casais de animais. O resto do mundo inteiro, Deus literalmente mata afogado.

— Veja bem, filho, Deus prometeu não destruir mais a vida na Terra com água.

— Mas depois disso ele manda fogo para destruir exércitos inteiros. Cidades inteiras. Ele manda a terra abrir e engolir gente viva na frente da família, pai! E assim… Não destrói mais o mundo com água, mas pretende matar todo mundo de novo de outra maneira?

Se meu filho hipotético puxou para mim, a essa altura já percebeu um monte de outros furos no roteiro da história bíblica de um Deus que é amoroso, justo, e bom.

— Pai, quando você diz que a Bíblia é a palavra de Deus, você está incluindo as partes em que ele manda invadir um território de surpresa e matar todo mundo, inclusive as crianças?

— Filho, não é porque ele fez isso que faria novamente.

— Mas a Bíblia não diz “minhas palavras não passarão”? Se ela é a palavra de Deus, hoje mesmo Deus pode dizer o que disse no passado. Até porque a Bíblia também diz que ele não muda, não é?

A maioria das pessoas simplesmente diz que “eram outros tempos” e “Deus agia de forma diferente” porque era a “época da Lei”, mas isso não explica muita coisa. Na verdade, só complica tudo. Estamos apenas tentando empurrar a poeira para debaixo do tapete.

Em primeiro lugar, existe muita violência divina registrada na Bíblia antes do advento da Lei. Em segundo lugar, a Bíblia diz que Deus é bom. Esmagar a humanidade faz parte de sua bondade, seguindo uma lógica que a teologia vem tentando explicar por séculos sem sucesso. A Bíblia também diz que Deus é perfeito. Então, ser violento e vingativo faria parte de uma natureza que não pode ser aprimorada, e Deus não teria motivos para abandonar tais qualidades. É por isso que, em terceiro lugar, a maioria de nós nem acredita que Deus parou de agir com violência.

O furacão Harvey, que assolou o Texas em 2017, foi atribuído pelos evangélicos a Deus, como punição pela homossexualidade de Houston. O maremoto de 2010 no Haiti, segundo os evangélicos, foi enviado por Deus para punir a feitiçaria.

— Mas, pai… Se a Bíblia é a palavra de Deus, então ele próprio está dizendo que, se a gente irritá-lo o suficiente, ele causa uma catástrofe devastando até a vida de pessoas inocentes?

— Essa é a história que boa parte da Bíblia conta sobre Deus, filho. Mas duvido que Jesus contaria a mesma coisa.

— Então acho que é isso, pai. Se Jesus é a palavra de Deus, a versão dele do Pai é a verdadeira, e as outras versões contêm equívocos. Então… Ou Jesus é a palavra de Deus e a Bíblia automaticamente não pode ser, ou a Bíblia é a palavra de Deus e ele não se parece nadinha com Jesus.

Tirinha | insta: @umsabadoqualquer

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