Por que não voltei mais à igreja

No mês passado, num museu, experimentei um fenômeno de que a maioria das pessoas já ouviu falar. Estava cara a cara com um quadro que parecia cheio de borrões sem sentido. Quando me afastei dele, descobri por acidente que os borrões formavam a figura de uma paisagem apenas visível de longe.

Pode ser uma ilustração clichê, mas resume perfeitamente minha experiência ao sair da igreja. Eu era um borrão. Mesmo sabendo que minha cor não harmonizava com a figura ao redor, era incapaz de enxergar meu grau de incompatibilidade e a existência de uma moldura que o quadro jamais ultrapassaria. Ao me afastar, percebi com clareza inédita por que era tão doloroso seguir ali dentro. Não fazia mais sentido me forçar a pertencer a um universo que nunca foi meu amigo, o que me levou à ansiedade e depressão que mencionei na semana passada.

Os fundamentos da minha fé conflitaram progressivamente com os do movimento evangélico desde a minha adolescência. Para ter a chance de fazer algo positivo por esse meio, eu sentia que precisava silenciar partes cada vez mais significativas da minha cosmovisão e identidade, porque não se pode ser um membro integrado de um time e fazer oposição a ele o tempo todo. Nadar contra a correnteza tentando influenciá-la finalmente me esgotou. E senti como se tivesse dado toda a contribuição que aquele meio podia conter.

Quando deixei a igreja dos meus pais, que eu tanto amava, já tinha escolhido outra para frequentar. Mas o afastamento me deu espaço para respirar e encarar todos os modos como a religião me oprimiu e feriu ao longo da vida. Fosse por coisas que combati ou pelas que um dia foram importantes para mim e já não eram mais. Pela primeira vez, senti permissão para aceitar minha dor, não como pastor ou ovelha, mas como um simples ser humano — único responsável por minha integridade e felicidade. Pude aceitar minha desilusão com o meio evangélico e a possibilidade de uma vida mais saudável.

Por você, montei navios / Encarei o frio da solidão / E uma multidão de estrelas / Quando, enfim, saltei no cais / E, ao invés de muros, vi quintais / Dali não sairia nunca mais // – Tempo de se Amar, 5 a Seco

No começo dessa fase, deparei com uma charge de David Hayard que me ajudou a me entender. Eu estava crescendo especialmente. E já tinha crescido além do que a religião poderia comportar havia muito tempo, quando ainda relutava com a voz no meu coração para tentar me encaixar pelo “bem maior”.

Para coroar esse ciclo de dois anos com lógica e alívio, graças ao meu principal tutor que não sabe exatamente que tem esse papel, Phil Drysdale, descobri recentemente a Dinâmica em Espiral. É uma teoria baseada em mais de cinquenta anos de estudos ao redor do mundo. Ela mapeia o desenvolvimento da consciência humana de maneira individual e coletiva, revelando suas diferentes maneiras de interpretar a realidade de acordo com o estágio em que se encontre.

Você pode fazer parte de uma comunidade que, coletivamente, sustenta valores de certo estágio. Mas porque essa comunidade não é seu contato exclusivo com o mundo, você encontra outras referências para interpretar o que acontece na sua vida. Assim, sua consciência individual pode começar a se enveredar no sentido de um próximo estágio de desenvolvimento que a consciência coletiva da sua comunidade ainda não é capaz de assimilar e que, muito provavelmente, enxergará como negativa. E é assim que tantas pessoas sofrem conflitos de fé e crises de identidade dentro de sistemas religiosos sem saber exatamente o que está acontecendo ou a razão do seu deslocamento e angústia.

Este é o motivo de eu nunca mais ter voltado para a igreja e pelo qual provavelmente nunca voltarei. Estou num estágio que a comunidade evangélica não compreende e não pode aceitar. E ela está em outro, que eu compreendo, mas transcendi. Pode soar condescendente, mas eu não estou dizendo que qualquer estágio é melhor que o outro.

De todo modo, eu sei que essas palavras não vão ofender vocês, que estão se encaminhando para o mesmo estágio em que estou, que já se encontram nele, ou que já o transcenderam. Para vocês, vai fazer sentido. Suas cores não são problema algum. Elas apenas não combinam com o pequeno quadro ao seu redor. Talvez seja hora de encontrar um espaço maior que harmonize com o tamanho delas.

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