Por que saí da igreja

Este é um texto bem pessoal. Hoje, conto nos dedos quem sabe por que saí da igreja. E, para começar com spoiler, é por motivos mais humanos e menos polêmicos do que as pessoas costumam esperar.

Para mim, é importante falar sobre isso porque nem mesmo as pessoas da comunidade local de que eu fazia parte tiveram a chance de me ouvir me despedir e de entender meus motivos. Na época, disseram que seria melhor assim. Talvez eles não saibam, mas uma das coisas mais difíceis ao partir foi imaginar as pessoas que eu via toda semana na igreja ficando com um monte de perguntas sem resposta.

Gostaria de ter escrito antes sobre tudo isso, mas eu mesmo precisava de tempo para entender o que se passava. E eu poderia explicar contando toda a minha história, mas não sei se vocês têm tempo para isso agora. Eu mesmo não tenho, que a minha carona já vai chegar.

Eu desenvolvi um quadro depressivo e de ansiedade em 2016. Não exclusivamente atrelado à minha realidade religiosa, mas também à fase do desenvolvimento da minha consciência em que me encontrava, às minhas amizades, saúde física, finanças, sexualidade e carreira. Mas eu não sabia o que estava acontecendo. Sempre fui um cara calmo e a alegria da festa, e algo mudou. Tive uma crise de ansiedade em 2016 e outra no ano seguinte. Na época, nem sabia que era esse o nome daquele desespero assustador. Nem sabia que ansiedade era uma doença.

Eu falei muito com Deus em momentos super intensos e pessoais durante aqueles dois anos. Sempre sentia como se o Espírito Santo me dirigisse no mesmo sentido: eu precisava me afastar de todos os padrões repetitivos ao meu redor. De toda rotina que desencadeava e potencializava minha aflição psicológica. Infelizmente, isso significava me esconder de amigos, abandonar meus ofícios, e parar de frequentar a igreja.

Acho muito fácil, para as pessoas que deixam suas igrejas, dizer “Deus me mandou sair”, e não vou repetir isso. Mas é verdade que eu senti como se o Espírito Santo estivesse me dizendo para me afastar dos meus cargos por dois anos antes de finalmente obedecer.

— Eu vejo seu trabalho. Eu recebo e agradeço. Mas não pedi para você fazer tudo isso, Mitch.

— Ah, Deus, por favor! Como eu posso parar?

— É sua escolha parar ou continuar. Nada muda meu amor. Mas eu já disse que continuar assim não é nem necessário nem saudável.

Fazia parte do meu sistema de crença, na época, a ideia de que um cristão deve colocar em uso todo o seu potencial sem reservas em favor dos outros, mesmo que isso o anule. Foi como vivi por 30 anos, de todo coração e com a fé mais sincera. É uma crença que muitos cristãos têm, na verdade, e que parece bonita na superfície, mas que só quem pôs à prova sabe quanto é nociva.

Se alguém pensa que foi tranquilo simplesmente dar um pé em tudo, está muito enganado. Nunca foi minha intenção viver sem uma igreja local. Jamais tinha me imaginado fora da igreja dos meus pais, que eu mesmo pastoreei também. Tanto, que deixei meus ofícios aos poucos. Eu não queria me afastar de nada, e levei muito mais tempo do que o ideal para me permitir cuidar de mim. Fiz gradativamente, sempre com muito medo e me sentindo responsável pelo peso do mundo. Sempre esperando poder voltar à minha realidade de costume. Mas parecia que nenhum afastamento era suficiente para eu recuperar minha saúde mental.

Quando a gente fala que fez escolhas por razões psicológicas, as pessoas costumam pensar que somos frescos. Que somos zen. Que, se tivéssemos mais fé ou fôssemos menos “humanistas”, saúde mental não seria uma questão. Especialmente quando você é um líder cristão e todos veem você apenas no palco dando o seu melhor. Mas, durante 2016 e 2017, eu não sei quantas madrugadas passei dirigindo sem rumo, orando e chorando no meu carro. Ou sentado no alto de algum monte. Soluçando até ficar exausto. Gritando. Sentindo que viver não tinha mais sentido. Eu não sabia que estava numa crise existencial e que parar tudo era mandatório.

Pois é. Eu não culpo meus pastores por ter saído da igreja. Não culpo meus irmãos. Não saí porque houve um escândalo, um desentendimento, ou porque eu sou tão “herege”. Foi simplesmente para cuidar da minha saúde.

Talvez eu conte mais outro dia. Mas, por enquanto, o que devo acrescentar é que foi a escolha que mais adiei e uma das melhores e mais benéficas que já tomei na vida. Me ajudou muito a crescer como homem e como ser espiritual. Então, tudo o que quero dizer para terminar é isto: sua dor é válida. Tudo bem cuidar de você. Você não está sozinho.

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