Pra você que sente dor

Hoje quero falar especialmente com você. Talvez você nem saiba, mas é a razão de eu manter esse blog.

Sabe quanto tempo faz que escrevo aqui? Dez anos. Comecei esta página com a intenção de combater o legalismo entre os cristãos quando eu tinha 23 anos. Hoje não sei se essa ideia serve.

Acontece que eu sou da paz. Não quero construir nada que sirva para combater alguma coisa. Eu gosto mesmo é de ajudar pessoas. De compartilhar conhecimento. De cooperar para que aquele um indivíduo se sinta menos sozinho no mundo e em sua crise existencial e de fé.

Várias vezes, pensei em parar de escrever. Principalmente por achar que estou malhando em ferro frio e por sentir centenas de pessoas me observando só para saber da minha vida e depois falar pelas minhas costas o que não me falariam pessoalmente. Mas eu não parei por causa de uma minoria.

Tem sempre alguém escrevendo como se sentiu liberto porque leu alguma coisa que eu escrevi. Mês passado, um cara me disse que o ajudei a conhecer um Jesus mais amoroso e a se tornar assim também, mesmo sem termos nos conhecido. Uma garota disse que nunca antes se sentiu tão livre quanto hoje, e que tenho grande parte nisso.

Eu imagino e sinto que muita gente não tem o senso de humor necessário para ler o que escrevo. Até por que meu humor é ácido e sarcástico e tem quem ache isso falta de educação. Sei também que tem quem acredite que só escrevo para descontar raiva e combater a Igreja. Vou esclarecer.

Eu sou uma pessoa. Tenho sentimentos, quem diria? Então, sim, eu sinto raiva. Muita raiva, mesmo. Mais do que eu gostaria de sentir. Porque existe um ódio muito saudável, na minha opinião, que é contra toda forma de opressão. Mas mesmo assim, eu passo desse ponto às vezes, porque muita coisa aqui dentro ainda dói.

Isso me faz lembrar das pessoas que me leem e acham que expressar dor só me confirma como alguém carnal, fraco, imaturo, melindroso, e por aí vai. Simplesmente porque a religião evangélica não aceita a vulnerabilidade e devora a humanidade das pessoas. “Não leve a sério, ele está ferido.” Já reparou que a igreja evangélica é o único lugar onde a palavra “ferido” é pejorativa?

Enfim, eu não escrevo como gostaria. Com a habilidade, a serenidade e a imparcialidade que quero alcançar um dia. Mas eu ainda escrevo com amor. Isso, quem me conhece testifica.

Sempre que os leitores que não me entendem vêm à mente, eu repito o mantra “Não escrevo para eles”. Porque eu realmente não estou escrevendo para todas as pessoas que acreditam que a Bíblia e Deus como elas entendem e o Cristianismo formal e a teologia tradicional são inquestionáveis. Não estou escrevendo para as pessoas que estão felizes e se sentem seguras em sua religião. Não escrevo para os militantes do mundo evangélico que fariam de tudo para manter as coisas como elas estão sem enxergar a dor do indivíduo ao seu lado. Eu escrevo para vocês, que doem.

Eu escrevo porque alguns de vocês sentem que não têm ninguém que valide a sua dor, o seu medo e a sua dúvida. E que as pessoas que deveriam fazê-lo tentam apenas sufocar sua experiência ou tratá-la com placebos. Meu público é você, que sempre questiona suas crenças, não apenas por não ter fé, mas porque quer crer de maneira madura. Escrevo para você, que não sente que sou o dono da verdade, mas sabe que você também não é, e que tira alguma coisa do conhecimento que compartilho para enxergar Deus e o mundo ao seu redor com olhos de mais compaixão, empatia, e amor. Escrevo porque sei que, cada vez que falo da minha experiência, um de vocês pensa “Meu Deus, alguém me entende”, porque sua experiência é igualzinha, e isso faz você sentir esperança.

Ainda vou precisar da paciência de vocês até chegar a um momento quando eu consiga não cuspir fogo quando escrevo certos parágrafos sobre o que fizeram comigo e com você, e fazem a muitos outros, se é que um dia chego lá. Mas até então, vou continuar escrevendo. Porque, se eu ajudar uma minoria, valeu a pena. E a vocês, que continuam corajosos, eu agradeço. Vocês também me dão esperança.

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