Adão e Ivo

Muita gente diz que a homossexualidade não faz parte do plano de Deus para a humanidade por uma única razão: só casais heterossexuais podem se reproduzir. Mas a capacidade de gerar filhos não deveria ditar se algo é ou não parte do plano de Deus. Vamos pensar sobre isso.

Ninguém acredita realmente que o propósito divino para todas as pessoas seja tão primário e simplório quanto a reprodução. Isso seria reduzir de modo ridículo a imaginação de Deus, a experiência humana, e o conteúdo das Escrituras. Ao acreditar que reproduzir-se é um fator determinante para se encaixar à vontade de Deus, estamos excluindo dela muito mais gente além dos não heterossexuais. Deixamos de fora:

  • Os inférteis por razão genética ou de outra natureza;
  • Os que jamais alcançam o sonho do casamento por N razões;
  • Os viúvos sem filhos que não querem se casar novamente;
  • Os solteiros que nem sequer desejam um casamento (já que os cristãos acreditam que o sexo deve ser reservado para os casados e costumam combater outros métodos reprodutivos);
  • Jesus Cristo, que nunca teve filhos.

Além de rebaixar injustamente uma multidão de pessoas que nunca terão filhos, dizer que o plano de Deus para as pessoas é que se reproduzam é o resultado de um olhar incorreto sobre a Bíblia.

Geralmente, as pessoas pensam assim simplesmente por causa da ordem dada a Adão e Eva no mito da criação de Gênesis — “Multipliquem-se”. A questão aqui não é apenas se esse é um relato fatual. É que seria bobagem pensar que todos os seres humanos têm a mesma missão dos dois primeiros únicos da Terra, que deveriam popular um planeta que hoje está superlotado. Não faz sentido imaginar que Deus ainda esteja dizendo “multiplique-se” a todo mundo.

Para descobrir o propósito divino para a humanidade, não podemos olhar para um só capítulo da Bíblia. Especialmente um que narra uma época de imensa ignorância humana. Aliás, para toda questão teológica determinante, não se pode considerar apenas um capítulo nem apenas um livro. O correto é avaliar cada questão sob um olhar macro da Bíblia.

As Escrituras dizem que Deus nos criou para ser imagem e semelhança de seu Filho. Para ter a vida eterna, que consiste em conhecê-lo. Para desfrutar do seu amor e dividi-lo por meio de boas obras. São muitos os textos bíblicos que repetem essas ideias, e nenhum deles inclui a reprodução.

Existe também um jargão evangélico por trás do problema. “A família é projeto de Deus”. Uma frase que glorifica o núcleo familiar de maneira positiva, mas que também contribui negativamente para a criação de várias neuroses. Dentre elas, ficamos com a ideia fixa de que todo cristão precisa casar e se reproduzir. E assim ignoramos algo que todo cristão sabe — que Deus mesmo se encarrega de criar para si uma grande família ao nos adotar como filhos e nos tornar irmãos. Sim, família é parte fundamental do plano bíblico de Deus, mas ele não precisa de mais ninguém se reproduzindo para alcançar seu sonho. Primeiro, porque gente suficiente já se reproduziu; segundo, porque essa família é espiritual e não meramente biológica.

As pessoas dizem: “Se Deus fosse a favor da homossexualidade, teria criado Adão e Ivo em vez de Adão e Eva”. Essa frase desqualifica de uma discussão sensata qualquer pessoa, especialmente a que acredita que o relato da criação em Gênesis seja literal. Se Deus realmente fez um casal para popular a terra no Éden, é óbvio que ele colocaria ali macho e fêmea. Isso não demonstra se Deus é pró ou anti gay, mas que ele tem raciocínio lógico.

Então poderiam retrucar: “Deus poderia ter criado dois machos com fisiologia diferente e capazes de se reproduzir sem a necessidade de uma fêmea, se fosse a favor da homossexualidade”. Esse pensamento reduz o papel dos sexos na natureza. Ele denuncia uma visão redutiva do sexo feminino e do papel da mulher na sociedade. Ele implica que mulheres existem para procriar, e eu tenho certeza de que até as mulheres cristãs não feministas que sonham ter filhos discordam desse absurdo. Assim como a Bíblia.

Deus não criou macho e fêmea para fazer uma declaração sobre heterossexualidade. Segundo o próprio relato de Gênesis, ele criou homem e mulher para que reflitam a imagem de Deus, o que significa que ele fez macho e fêmea porque os dois fazem um papel complementar de revelar a natureza divina. E essa revelação não está nem poderia estar restrita ao sexo e à reprodução a não ser que a natureza divina fosse muito limitada.

Homens existem para revelar certas facetas da beleza de Deus. Mulheres existem para revelar outras facetas da beleza de Deus. Tomar algo tão profundo e belo quanto o papel dos sexos para definir qual é a sexualidade “correta”, além de demonstrar ignorância sobre a riqueza da sexualidade humana e sobre a Bíblia, é uma depreciação do ato sexual, do que significa ser homem, do que significa ser mulher, e do que significa ser humano.