Como os seus pais reagem?

Às vezes, a curiosidade dos outros sobre o que meus pais pensam da minha vida me irrita. Fico imaginando quem só quer saber se eles me apoiam ou não para decidir se estão “desviados como eu”. Talvez seja coisa da minha cabeça. Mas eu sei que a maioria de vocês é super bem intencionada. Só perguntam sobre meus pais por causa do carinho que sentem por eles. Ou porque vocês também querem assumir sua liberdade e não sabem como lidar com suas próprias famílias. Então isso se torna importante para mim.

Vamos começar por aqui: eu tenho mais de 30 anos de idade, gente. Faz muito tempo que não presto contas a ninguém de como ajo, penso e sou. O que meus pais fazem hoje é o mesmo que vêm fazendo desde que eu me tornei maior de idade. Eles tentam respeitar meu espaço e individualidade como qualquer adulto coerente e como bons pais deveriam fazer.

Alguns de vocês querem saber como meu pai e minha mãe encaram minha sexualidade. Outros querem saber como eles lidam com minha teologia não tradicional. E tem quem queira saber como é, para eles, o fato de eu não fazer parte de nenhuma religião organizada, muito menos me considerar evangélico. A resposta mais simples é que eu não sei.

Além de meus pais não serem meus supervisores há muito tempo, faz quase um ano que não moramos juntos. Eles estão no ABC, cuidando muito bem da igreja deles. Eu estou no interior, morando com meu namorado, e construindo a vida dos meus sonhos. Dos nossos sonhos. Então eu realmente não consigo acompanhar o desempenho dos meus pais na tentativa de compreender, interpretar e aceitar minha jornada. Mas sei que eles também não estão preocupados em acompanhar meus passos.

Muita gente pensa: “Deve ser mudança demais para os pais do Mitch assimilarem assim, de repente”. Mas a verdade é que minhas mudanças só são muitas e súbitas para quem não me conhece. Porque eu falei de grande parte delas de uma vez, na iniciativa de me desvincular do mundo evangélico. Mas meus pais me criaram. Sempre tiveram uma metamorfose ambulante dentro de casa. Os choques que meus seguidores levaram em uma semana, meus pais vêm levando há uns vinte anos. Devem ter desistido de esperar que eu fosse normal quando completei dezoito anos e não quis tirar carteira de motorista.

O fato é que eu cresci discutindo teologia com meus pais. As mensagens de tolerância e de questionamento da tradição que vocês leem aqui, meus pais ouviram muito antes, fosse quando eu pregava na igreja deles ou quando a gente batia boca no carro estragando as férias. Meus pais não viram uma mudança repentina no meu Instagram. O que viram foi uma criança que mudou ao passar pela adolescência, que mudou de novo ao se tornar um jovem, e que continuou mudando após se tornar adulto.

É claro que meus pais não conseguem acompanhar o ritmo do meu crescimento. E que nunca conseguimos concordar em tudo. Todo mundo aqui já ouviu falar em lacuna geracional? Pois é. Pais nunca entendem completamente a visão dos filhos. E tudo bem.

Meus pais me amam e querem minha felicidade acima de tudo. Quando eles acreditam que estou engando, confiam no Espírito Santo para me guiar. Mas sabem que me criaram para ser autêntico e livre, e que nem sempre poderão me entender. Tanto faz. No Natal, que está chegando, meu namorado e eu vamos viajar para encontrar minha família e trocar amor e presentes. Se a gente não concorda em algo, não vai dar para notar. Vai ter amor demais no apartamento. Pelo menos é o que eu esperava quando escrevi isso.