O amor não é insensível

Em algum lugar do mundo, em algum momento, um cristão foi acometido por um câncer. No Instagram, ele publicou uma foto com o cabelo raspado. E a legenda que escreveu era assim:

Tem sido difícil enfrentar minha doença. Estou infeliz. É difícil conciliar minha fé com o cenário atual. A primeira sessão de químio se aproxima. Mas vamos em frente. Conto com suas orações.

Outro cristão viu essa publicação. Se comoveu. E deixou o seguinte comentário:

Ainda não é o fim. Nosso Deus faz proezas. Ele não erra.

Serviu de consolo. Era claro o amor naquelas palavras.

Esse relato se parece com incontáveis histórias reais, com certeza, mas eu acabei de inventá-la para contrastar com um episódio recente da minha vida.

Esta semana, meu namorado e eu comemoramos um ano juntos. E eu publiquei uma foto em que estou com o maior sorriso do feed, ao lado dele, com uma legenda que incluía estas palavras:

Nunca acreditei que existisse alguém que pudesse me fazer mais feliz do que jamais fui ou sonhei ser. Mas aí eu conheci você. Você supera tudo que eu sonhei. Jamais entendi o amor e a pessoa de Deus com tanta clareza até namorar você. Você me mostra como ele é.

Eu disse que a história do cristão com câncer aqui era inventada, mas faltou uma ressalva. O comentário, eu não inventei. Depois de publicar uma legenda dessas, celebrando um ano de amor, cumplicidade, companheirismo, celebrando que estou feliz e meu namorado também está, recebi este comentário inbox:

Ainda não é o fim. Nosso Deus faz proezas. Ele não erra.

É por isso que, neste momento, meu perfil é privado no Instagram. Porque eu não quero continuar sentindo tanta raiva da insensibilidade e ignorância evangélica. E, quanto mais eu tento perdoar, mais idiotices desse tipo tenho lido.

Eu entendo perfeitamente o sistema de pensamento que faz um cristão pensar que um comentário como esse pode ser amoroso neste contexto. Porque era o meu sistema de pensamento. O que eu não consigo entender não é a crença ou a intenção, mas a exata palavra que usei antes: a insensibilidade.

Quando eu cria como essa pessoa que deixou esse comentário tão ofensivo, eu não me atrevia a expressar meus pensamentos para os que eu achava que estavam enganados e em pecado. Porque eu simplesmente sabia que eles se ofenderiam.

Para mim, é muito chocante que, ao responder a esse comentário como ele merecia, eu tenha recebido a seguinte resposta: “Não duvide do meu amor”. Mas eu duvido. Porque o amor é gentil. Porque o amor sabe calar. Porque o amor pensa mil vezes antes de tratar a felicidade de alguém como um câncer.