Eu tenho amigos gays

No Instagram, muita gente me manda perguntas sobre temas complicados. Divórcio, legalismo, autoridade espiritual, e por aí vai. Perguntam sobre sexo e sexualidade também. Dos que perguntam sobre isso, vários são cristãos gays, lésbicas, e bissexuais.

Eu respondo sempre da melhor maneira que posso, mas a verdade é que tratar de tabus toma tempo. Por isso prometi escrever mais a fundo aqui no blog, em vários textos. E porque acho difícil me calar com tanta gente sofrendo por mera falta de informação.

Este mês, escrevi pela primeira vez sobre a dinâmica entre Bíblia e sexualidade. Depois, fiz uma enquete no Instagram perguntando: O texto ajudou você de alguma forma? Ficamos com 60% de sim e 40% de não.

Tomei tempo para escrever para cada uma das pessoas que disse que o texto não tinha ajudado. Perguntei por que se sentiam assim e o que eu poderia fazer para ajudar melhor. De trinta pessoas, três responderam. As demais viram minha mensagem e ignoraram.

Isso me faz pensar muito. Eu sei que vencer nossa própria homofobia é algo bem difícil e falo por experiência, como quem ainda está aprendendo. Mas, como o Cristianismo é sempre sobre estender as mãos aos marginalizados, me intriga que os cristãos queiram evitar falar sobre eles. Mas, das pessoas que me concederam o luxo de uma resposta, duas me disseram algo mais ou menos assim:

Eu não acho que a homossexualidade seja uma abominação. Eu tenho amigos gays e não acho que o pecado deles seja pior que o meu. Continuo orando por eles. Mas acredito que Gênesis mostra claramente que Deus criou homem e mulher e, na minha opinião, a homossexualidade foge do projeto de Deus de que geremos família, porque um casal homossexual não pode se reproduzir.

Tenho certeza de que você já ouviu os mesmos argumentos em algum momento. Eu entendo super bem essa opinião e respeito quem pensa assim porque eu já pensei a mesmíssima coisa. Mas hoje, creia você no que for, gostaria que pensasse apenas se o que vem a seguir parece familiar.

Eu não acho que mentira seja o pior pecado do mundo. Tenho até amigos que mentem e não acho que o pecado deles é pior que o meu. Continuo orando por eles. Mas acredito que os Evangelhos e I João mostram claramente que Jesus é a Verdade e que ele chamou mentirosos de filhos do Diabo. Na minha opinião, a mentira foge do projeto de Deus, de que andemos na luz, porque um mentiroso não pode nem ser filho de Deus.

Você nunca ouviu um discurso parecido. Ninguém jamais ouviu. Embora todo cristão devesse considerar que andar na luz seja muito mais importante do que se reproduzir. Um discurso assim nunca se ouviu sobre a mentira nem sobre qualquer outro pecado. Ninguém diz “Olha, nada contra, tenho amigos que manipulam”, ou “tenho amigos que sentem inveja”, “amigos que difamam”… Todo mundo tem esses amigos, mas ninguém sente que precisa dizer que tem. Esses amigos, a gente não sente que precisa mencionar porque os consideramos normais. Porque perdoamos. Porque fazem as mesmas coisas que a gente faz. Você não acha isso curioso?

Cristãos heterossexuais podem arranjar muitas maneiras de justificar essa distinção, mas converse com um cristão gay. Pergunte se ele se sente aceito, amado e igual quando alguém diz “Eu tenho amigos gays”.