Quem precisa de demônios quando existem evangélicos?

Estudiosos no mundo inteiro entendem que a mensagem de Cristo era sobre combater o próprio ego e amar o próximo de maneira prática. Isso consiste em abandonar nossa vontade de impor nossos caprichos e em trabalhar por equidade para todos que pudermos alcançar. Mas a cultura evangélica do Brasil não tem nada a ver com isso. Ela é sobre levar os outros à pureza moral de acordo com códigos mosaicos e paulinos selecionados, para assegurar que sejam “salvos” como nós e, portanto, se comportem como nós e pensem como nós.

Essa cultura forma pessoas obcecadas com o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Obcecadas por rotular “certo e errado”, “santo e profano”. Tal como na Idade das Trevas. Ela cria caçadores de pecados que, quando ficam seguros de sua salvação e superioridade, se ocupam da moral alheia para trazer os outros ao seu nível e, quando ficam inseguros com suas próprias falhas e vergonha, se ocupam da moral alheia para sentir que não são tão ruins porque há quem cometa pecados piores. Estão prontos para queimar bruxas em fogueiras.

Essas pessoas deixam comentários furiosos por toda a internet, citando a Bíblia para desmascarar “heresias”, totalmente dopados pela própria santidade imaginada, que brilha como a face de Moisés, de modo que não podem ver o próprio semblante no espelho. Assim, não enxergam a repulsiva imoralidade dos seus crimes cibernéticos anônimos. Enquanto criam perfis falsos e compram celulares descartáveis para ameaçar outros cristãos de morte em nome de Deus, não se dão conta de que sua cruzada moderna é tão depravada quanto a primeira, marcada por sangue, ódio, e a construção de muros que Jesus morreu para derrubar — nós contra eles; os “de dentro” e os “de fora”.

Eu dediquei toda a minha vida aos outros até os meus 30 anos de idade. Não busquei carreira, fama, dinheiro nem formação. E hoje tenho seguidores evangélicos no Instagram que não gostam do que eu digo, mas que continuam lá apenas pela gula de me ver fracassar. Apenas torcendo pelo dia em que eu dê evidências de que estou “desviado” ou de que sou veado. Só esperando o sabor de dizer “Eu sempre soube”, assim se sentindo melhores que eu e qualquer veado que “não entrará no Reino de Deus”, como adoram dizer salivando. É muito importante, para essas pessoas, que a Bíblia diga que alguém não entrará no Reino, mas eles estão confiantes de que têm seu acesso garantido com essa atitude infernal.

Toda minha família, falha como é, dedicou sua vida aos outros a duras penas. Mas eu cresci vendo minha irmã ser difamada por suas melhores amigas evangélicas. Cresci para ver meu pai ralar pelo Brasil do lado de homens que foram seus heróis declarados e que hoje proíbem igrejas de recebê-lo sob a acusação de ter abandonado a sã doutrina. Cresci para ver minha mãe, a pessoa mais doce e santa que já conheci, receber mensagem de texto de evangélicos ameaçando-a de morte em nome de Deus.

Deixe-me esclarecer algo. Eu não deixei de ser evangélico por causa das inúmeras pessoas que feriram minha família e que hoje, mesmo não fazendo mais parte de nossas vidas e tendo sido despedidas em paz e sob votos e orações por uma vida feliz e plena, não nos esquecem nem deixam em paz, e que, em vez disso, encontram maneiras de se conectar numa rede crescente de lábios venenosos e corações rancorosos. Eu abandonei a religião por causa do meu sistema de crença. Ele não se encaixa ao mundo evangélico, porque eu acredito num Deus de amor que une as pessoas mais diversas e que desmantela o ego. Não é o deus dos evangélicos, porque essas atitudes que eu citei são serviços de “zelo bíblico” prestados a ele. O Deus em que acredito vomitaria essas oferendas.

E não me diga que nem todo mundo é assim, porque não estou falando de uma minoria ou de casos isolados. Os evangélicos que não se encaixam às generalizações que sempre faço como no primeiro parágrafo é que são a exceção, e qualquer cristão experiente e sincero pode afirmar o mesmo. É claro que não é a maioria dos evangélicos que está ameaçando outros irmãos de morte. Mas os que não estão fazendo isso estão oprimindo outros crentes de maneiras diferentes: perseguindo, criticando, caluniando, esperando que sejam castigados por Deus e “se arrependam”. No mínimo, são pessoas que leem um texto como este e não param para escrever “Eu sinto muito; nem sua mãe nem ninguém no mundo merece o que vocês enfrentam”. Porque eles não sentem muito. Não sentem nada. Estão lendo, não para se sondar a crescer, mas para procurar falhas. Em vez disso, fazem questão de parar para escrever “Não concordo totalmente com seu texto”, porque têm prazer em discordar e não notam sua falta de compaixão.

Deixe-me esclarecer algo mais. Ao contrário do que pensam as pessoas que me leem sem me conhecer, eu não exagero nem vitimizo. Eu pego é leve. Como os exemplos aqui devem ter indicado, a cultura evangélica latino-americana é muito mais nociva do que gostamos de admitir. E disso testemunham muitas outras famílias pastorais mundo afora, esmagadas pelos evangélicos que têm sede de vingança, que oram a deus para que os outros se ferrem, que se tornaram, em seu zelo pela Lei, acusadores e opositores — o exato tipo de pessoa que Jesus chamou de filhos de Satanás.