Gays não são uma abominação

Em nossa cultura a palavra abominação remete a algo desprezível, extremamente vil, e até mesmo repulsivo. Eu não consigo pensar num termo mais desumanizante que esse.

Os cristãos parecem não se dar conta do peso dessa palavra. Como o livro de Levítico faz uso dela, eles continuam dizendo, sem a menor vergonha, que homossexualidade é uma abominação. Pior, com a justificativa de que essa não é a sua opinião sobre o assunto, mas sim o que Deus diz.

A Bíblia, na verdade, não aborda o assunto da homossexualidade. Mas, mesmo que abordasse, um discurso cristão é regido por sensibilidade, empatia, e amor. Não é possível amar e chamar de abominável ao mesmo tempo. Os cristãos dizem “não estamos chamando os gays de abomináveis, mas sim suas práticas”. Faltou conversar com essas pessoas e ler um pouco; se informar: o fato mais básico sobre sexualidade é que não se trata de opção nem simplesmente de prática. Se você disser que a heterossexualidade é uma abominação, não tem como não subentender que o heterossexual é abominável.

Entendo os crentes que tentam justificar seus discursos homofóbicos. A maioria sente que, se Deus acha que a homossexualidade é uma abominação, é seu dever alertar os gays da gravidade do assunto. Por isso, é preciso saber que a palavra “abominação” em Levítico não tem o significado que damos a ela hoje.

Levítico se divide em três partes. Uma delas é sobre santidade. E santidade, ali, não é pureza moral, como para os cristãos do século XXI. É apenas separação; distinção.

Os egípcios, antes da Lei Mosaica, já tinham seus próprios códigos sobre abominação. Para eles, era abominação comer perto de pastores, por exemplo, ou misturar-se com hebreus. Quando o “povo de Deus” cria suas próprias leis, adapta essa ideia que outros pagãos já vinham praticando.

Na Lei, os hebreus são chamados a ser diferentes dos povos ao seu redor, de modo que santidade para eles tem a ver com não ter os mesmos costumes de higiene e dieta dos povos vizinhos, por exemplo.

Sabe o que Levítico chama de abominação? Comer lagosta. Usar uma roupa feita de dois tecidos ou mais. Existem coisas graves que o livro chama pelo mesmo nome, sim. Mas nem tudo que leva esse rótulo é considerado hoje pecado pelos cristãos. Mesmo porque, nesse contexto, a palavra “abominação” nem servia para definir se algo era pecado ou não. Servia apenas para apontar práticas que tornariam o povo judeu indistinguível dos seus vizinhos.

É muito conveniente, para o cristão heterossexual, apontar para as pessoas de diferentes orientações e chamá-las de abomináveis, porque assim ele se sente espiritualmente superior. Mas se Levítico for levado a sério por esse cristão, ele precisa saber que é sua obrigação, de acordo com o mesmo livro bíblico, casar-se com a viúva de seu irmão e engravidá-la. Segundo Levítico, o homem que não faz isso comete uma abominação. Você, em nossos dias, consideraria vil, desprezível e repulsivo alguém que não quisesse se casar com a própria cunhada? Acharia que o homem que não a engravidasse está em pecado?

A maioria do que a Bíblia chama de abominação não resiste ao teste do tempo porque essas coisas eram de cunho cultural. A cultura muda e, com ela, o modo de ver as coisas. Assim, os cristãos deixaram de considerar que seja pecado comer lagosta, não casar com sua cunhada viúva, e usar roupas feitas de algodão e elastano. Passou da hora de a gente se perguntar porque fazemos tanta questão de que a regra não se aplique a algumas pessoas simplesmente por terem orientações sexuais diferentes da nossa.

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