Jesus não concorda com a Bíblia toda e você também não deveria

Existem religiões bastante abertas ao questionamento. O budismo, por exemplo, o encoraja. Mas não o evangelicalismo moderno. Ouvi uma citação em algum lugar mais ou menos assim: Judeus abrem a Bíblia para começar uma conversa. Cristãos, para terminar.

Você pode verificar isso pelo nosso linguajar. Adoramos dizer a absurda frase “a Bíblia claramente diz”. Usamos palavras como “arminiano” e “calvinista”, mesmo sem conhecer direito as doutrinas de Armínio e Calvino. E, se não se encaixa à teologia tradicional, chamamos logo de heresia — uma palavra que significa o que, mesmo?

A gente usa e abusa de rótulos geralmente por causa do nosso zelo pelo que acreditamos ser a famosa “sã doutrina”. Mas, apesar das boas intenções, isso não é uma atitude positiva, porque tem sempre os mesmos resultados. Primeiro, cala o nosso próximo. Segundo, impede a gente de questionar nossas próprias crenças.

Dentre tantos motivos, calar nosso próximo é ruim porque faz ele sentir que a comunidade cristã não incentiva a liberdade de pensamento, o que é verdade em geral. Faz ele sentir vergonha e vontade de desistir do que poderia ser uma jornada importante e saudável. “Mas e se esse caminho fosse terminar mal?!” Não temos como prever isso. O que podemos prever é que roubar de alguém sua liberdade de escolha acarreta dor.

Quanto a questionar nossas próprias crenças, isso é fundamental ao processo de amadurecimento. Me mostre uma pessoa que, aos setenta anos, mantém as mesmas crenças desde a adolescência, e eu vou te mostrar um adulto infantil. Alguém que viveu tempo suficiente para se tornar sábio, mas se tornou bitolado, alheio à realidade ao seu redor, e muito provavelmente amargurado. Crescer é mudar.

O evangelicalismo moderno insiste que a gente não abra mão das crenças que herdamos, sendo que ele próprio é resultado do questionamento da tradição cristã. Ele pede que jamais aceitemos doutrinas que não concordem com o que pensavam os pais do Protestantismo, quando nem mesmo os protestantes Agostinho e Lutero concordavam em tudo teologicamente. A religião evangélica formal exige que aceitemos o que a Bíblia diz como verdade inquestionável e atemporal, sendo que ela própria é feita de histórias que questionam o que se pensava ser verdade sobre Deus e a maneira correta de viver para ele ao longo de séculos.

Quando a Lei Mosaica introduziu “Olho por olho, dente por dente”, há mais de cinco milênios, foi uma revolução no modo de pensar da época. (Outro dia explico melhor.) Alguns milhares de anos depois, Jesus já não achava que essa ideia era tão boa para o seu contexto cultural, e questionou a palavra de Deus publicamente dizendo: “Não. Se alguém te der um tapa, vire a outra face”.

Pode mesmo ser a expectativa de Jesus que não questionemos hoje o que Lutero pensava em plena Idade Média? Faz sentido imaginar que tudo o que Paulo achava correto para uma sociedade influenciada pelo paganismo grego há dois mil anos no Oriente Médio se encaixe como luva a uma sociedade ocidental do século XXI?

De acordo com a Bíblia, Deus primeiro instituiu o sacrifício ritual como parte fundamental da fé judaica. Depois, enviou profetas para anunciar que ele detestava sacrifícios. Mais tarde, vem Jesus para anunciar que o sacrifício seria abolido. Logo vieram os apóstolos, para dizer que o sacrifício estava caducando e prestes a desaparecer. Então, o templo foi destruído e nunca mais se reergueu, pondo fim ao sacrifício de uma vez por todas.

Os cristãos dizem que estão em busca de se tornar como Jesus. Se isso é verdade, está na hora de considerar que nosso Deus não trabalha sempre da mesma forma, mas que ele é sensível à realidade de cada época e cultura. (Leia mais aqui.) Com ele, precisamos aprender que nem tudo que é bom hoje será bom para sempre. Mudar é importante. E, pelo modo como Deus vem trabalhando com a humanidade, mudar parece também necessário.

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