Duvide da Bíblia para ser um cristão melhor

Eu sempre gostei de arte. Ter um olhar para ela veio naturalmente para mim. Quando criança, integrei a equipe de teatro da escola. Desde a adolescência, me tornei apaixonado por cinema. Sempre curioso sobre temas profundos. Sempre lendo. Devem ter sido essas inclinações e envolvimentos que me fizeram suspeitar do livro de Jó, bem na época em que eu achava que não ver a Bíblia como palavra literal de Deus era pecado.

Lendo quando garoto, eu não entendia porque aquela história parecia tão inverossímil, o que me fazia sentir um péssimo cristão. Hoje, em retrospecto, é fácil perceber. Instintivamente, eu sentia em todo o livro algo que cheirava a ficção. Eu não atinava, mas experimentava o efeito típico dos mitos. Não era minha fé que estava falhando. Eram meus conhecimentos artísticos que estavam identificando o texto pelo que ele devia ser.

Como disse na semana passada, eu pedi a Deus que me perdoasse por não acreditar que a história de Jó fosse real. Pedi até que me desse fé para mudar de opinião. Uma oração sincera nunca respondida.

Descobri anos mais tarde que os estudiosos não sabem quem escreveu esse livro. A antiga tradição judaica o atribuía a Moisés, mas estudos mais recentes sugerem que o autor de Jó deve ter vivido mais próximo da época de Jesus que da época mosaica. Pode também não ter sido o criador da história, mas alguém que adaptou uma antiga fábula da Mesopotâmia ou ao menos se inspirou em sua sabedoria, já que histórias dessa civilização apresentam paralelos notáveis com o livro de Jó.

A sensação de ler ficção é uma. A de ler uma notícia é outra. E é ainda diferente a sensação de ler uma poesia épica, como a Odisseia de Homero, por exemplo: o tipo de impressão que se tem ao ler Jó. Ficamos entre isso o que se sente ao ler o roteiro de uma peça de teatro antiga. Você pode não ter pensado nisso antes. Mas, se pegar a Bíblia agora e ler Jó, vai observar com clareza os momentos em que os personagens entram e saem de cena. Vai até encontrar um prólogo e um epílogo, coisa típica do teatro antigo.

Não estou dizendo que Jó não existiu, nem que esse livro da Bíblia não é importante. Você deve concordar que eu seria um ignorante se dissesse que A Odisseia não tem valor, mas também seria maluco se acreditasse que se trata de uma história real. Não questiono se o livro de Jó é ou não divinamente inspirado nem se ele é ou não útil à fé. Muito pode ser tirado dele. A questão é que podem ser noções saudáveis, se abordarmos o texto com uma perspectiva correta, ou noções devastadoras, se levarmos a história ao pé da letra.

Uma vez que o livro se trate de uma ficção, podemos compreendê-lo como o resultado de reflexões a respeito do sofrimento e da tragédia, num esforço para conciliar essas coisas com a fé num Deus bom e soberano. Isso partindo de autores que viveram antes de Jesus vir mostrar como Deus realmente é, e, portanto, com uma imagem equivocada dele.

Se considerarmos o livro como uma história real, temos que perguntar: Quando o Diabo abordou Deus e propôs uma aposta sobre o pobre do Jó, quem estava de testemunha no céu para depois contar a história? Temos que acreditar que Deus é capaz de aceitar ideias diabólicas sobre pessoas boas, respondendo a Satanás algo tão desumano quanto “Não matando, pode fazer esse inocente sofrer à vontade”. Temos que perguntar se Deus está fazendo conosco algo parecido com isso e se nossa fé se apoia nessa ideia para justificar nossas mazelas. Se esse é o caso, então cremos num Deus cruel, e Jesus necessariamente estava mentindo quando falou que Deus se parecia com ele.

É importante duvidar quando a Bíblia mostra um Deus diferente de Jesus. Pode ser o primeiro passo para uma investigação que leva a descobrir que Deus foi mal retratado no passado. Isso não diminui o valor da Bíblia. Apenas revela como ela é útil para avaliar a progressão da revelação divina através dos séculos. E isso pode nos ajudar a acreditar num Deus melhor do que o que nos ensinaram.

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