Não acredito no Deus de Jó

Quando começamos a pregar um Deus realmente bom, as pessoas ficam agitadas. Elas têm muito medo de inventarmos um Deus “à nossa imagem”, que não quer saber de se vingar, de matar pessoas, e de torturá-las eternamente no inferno.

Talvez a gente goste de imaginar uma divindade cruel. Talvez porque nossa sede de justiça/vingança seria saciada por ela de um modo como nossas leis não permitem. Talvez para ter o gosto da superioridade no momento decisivo em que fossem separados os do céu e os do inferno. Talvez porque imaginemos que nossos sacrifícios valeriam a pena nesse momento.

Costumamos dizer que não se trata de crueldade, mas de justiça divina. “Uma vez que Deus é justo, ele vai punir os pecadores. Não seria justo mandar Hitler e Madre Teresa para o mesmo Paraíso.” Não percebemos que isso é outro jeito de admitir que acreditamos que Hitler merece queimar. Eternamente. O que me parece o tipo de coisa que uma boa pessoa não desejaria a ninguém.

Mas, antes que a gente complique demais o assunto questionando a própria existência do inferno, vamos lembrar das primeiras vezes que lemos as barbaridades que são atribuídas a Deus na Bíblia. Antes de racionalizarmos o hediondo para explicar tudo com “Era a primeira aliança”, e “Nós não entendemos o que é realmente bom sob o olhar superior de Deus” — frases comuns que não explicam nada de verdade.

Eu era apenas um pré-adolescente quando comecei a ler a Bíblia. Não sabia nada da vida. Mas lia que Deus mandou invadir uma terra e matar todo mundo, inclusive crianças, e pensava “Deve ter algo errado nessa história”. (Você não?) Jamais consegui aceitar que Deus tivesse deixado o inocente Jó penar daquele jeito, e nunca achei que a recompensa que recebe no fim da história valha a perda de sua família e tamanho sofrimento. E tudo simplesmente porque Deus teve o capricho de aceitar uma aposta com o Diabo quando os dois não tinham mais o que fazer.

Quando garoto, fiz uma oração pedindo que Deus me perdoasse por não acreditar na história de Jó como algo factual. Afinal, tinha aprendido que a Bíblia é a palavra de Deus. E muita gente deve se sentir assim, um infiel, quando seu estômago revira ao ler o Antigo Testamento e ao questionar a bondade do Deus retratado ali. Mas a verdade é que só um sociopata não sentiria a sombra de um dilema moral e de fé ao considerar que Jesus ou seu pai sejam capazes do que a Bíblia lhes atribui. Todo mundo, antes de ouvir racionalizações sobre as atrocidades bíblicas, ficou com um pé atrás com esse Deus.

Quando nos desdobramos para explicar e acreditar num Deus que comete chacinas, que testa seus filhos em provas secretas e sádicas, e que nos observa meticulosamente para decidir quem torturar pela eternidade… É nesse momento que deveríamos ter medo de inventar um Deus à nossa imagem. Porque somos nós, humanos, que instintivamente costumamos torcer para ver o circo pegar fogo. Nós é que queremos ter razão a todo custo, ser premiados por isso, e ver os errados pagarem por sua ignorância num circo romano.

Deus, porém, é amor. Eu acredito que a justiça dele não é punitiva, mas restauradora. O Evangelho é sobre Deus permitindo-se ser torturado pela humanidade e provando que nada se tira disso, pois ele volta à vida. E, nesse ato, oferecendo perdão e salvação ao mundo. Ao mundo todo. Aos certos e errados. Ou, como diz o Novo Testamento, ao judeu e ao gentio, ao grego e ao bárbaro, ao escravo e ao livre, derrubando todo muro de separação entre eles.

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