Pare de proteger a igreja

Todo cristão tem ao menos duas noções fundamentais do que é a Igreja. Um; é a religião organizada com seus dogmas — a instituição. Dois, é a dinâmica comunhão entre Deus e os mais diversos indivíduos — as pessoas.

Essa separação não é de importância secundária. Do contrário, não faríamos a famosa distinção entre frequentar a igreja e ser a Igreja. Pois é muito diferente proteger uma instituição de proteger as pessoas que a compõem.

Uma empresa, por exemplo, pode usar todos os meios legais e ilegais para assegurar seu crescimento e enriquecimento. Pode, nesse processo, se tornar poderosa e aparentar equidade conquistando grande aceitação pública. Mas também pode, ao mesmo tempo, massacrar seus funcionários menores com cargas horárias exageradas e mal remuneradas. A empresa vai bem, mas apenas o pequeno zelador e o porteiro sabem quanto a empresa é imoral.

Quando um cristão se rebela e protesta, quando expõe as dores do que viveu dentro da instituição, sempre precisa ouvir exortações típicas. “Não se levante contra a Igreja! Não fale mal dela! Você deveria fazer a diferença em vez de difamar. Mudá-la de dentro em vez de sair dela. Porque tanto rancor contra a Igreja? Ela ainda é o meio de Jesus se revelar ao mundo.”

Esse tipo de declaração mostra como confundimos o Corpo de Cristo com a religião evangélica; os filhos de Deus com a organização eclesiástica dos filhos de Deus. Não sinto que posso enfatizar com a devida medida a importância de diferenciar essas coisas.

A pessoa que protesta contra a religião raramente está gastando suas energias com uma simples maledicência contra indivíduos. É fácil distinguir esse comportamento de uma justa indignação contra um sistema opressor. Pode ser que seja ela quem realmente está “sendo a Igreja”, por levantar sua voz profética contra a igreja.

Vamos pensar no que significa dizer que é pela Igreja que Jesus é conhecido. Se não é pelo indivíduo que cuida do indivíduo, e sim pela instituição, Cristo está com má fama há muito tempo.

Temos pressa para defender a instituição. Para evitar que manchem a reputação de uma denominação ou que tornem o círculo evangélico menos atraente para os de fora. Isso não é necessariamente ruim. Até aquele ponto em que tentamos silenciar o outro. Fazê-lo sentir vergonha da sua dor. Culpa pelo seu protesto. Não é ruim proteger a instituição, mas é tirania censurar a crítica.

Os páreas costumam ser vistos como choramingões que não tiveram o bom senso de resolver as coisas como adultos, dialogando, e que agora fazem o infantil desfavor de exagerar as coisas e fazer a igreja parecer uma vilã injustamente. Mas ouça a história dessas pessoas. Muitas delas gastaram anos, décadas de suas vidas tentando tornar o ambiente evangélico mais digno e humano, e foram abusadas e pisoteadas muito além de seus relatos. Quem pensamos estar exagerando está muitas vezes pegando leve para não ofender.

Quando, em prol do universo cristão, deixamos de ouvir a voz de quem foi ferido por ele, estamos mesmo defendendo a Igreja? A Igreja com letra maiúscula não é essencialmente a união de pessoas feridas oferecendo cura umas às outras?

É comum encontrarmos desculpas para negligenciar a dor do outro. Chamamos de melancolia, de infantilidade. É só escolher o rótulo certo, e nos sentimos justificados ao ignorar que Igreja é aquela que dá voz ao oprimido em vez de tentar calá-lo. Medir a opressão alheia e escolher quais dores não importam não é um comportamento cristão.

No fim das contas, se uma dor que não é minha não dói nem importa, o que me torna Igreja? O discurso todo de Jesus e do Novo Testamento foi sobre estender a mão aos marginalizados e colocá-los em posição de igualdade. E existem marginalizados que não são as prostitutas, os travestis, e os pobres, que tanto amamos mencionar em discursos sensacionalistas. São apenas outros cristãos que a igreja com letra minúscula olha com desprezo e cuja voz desvaloriza, chamando-os de desviados, de fracos, de carnais. São a Igreja com letra maiúscula, sofrendo por Cristo sem a glória dos holofotes, perseguidos por seus irmãos como José, apenas porque enxergam um mundo diferente.

Meu estômago revira cada vez que vejo alguém defendendo a instituição em detrimento do indivíduo. Meu Deus, a instituição é inabalável. Ela vai muito bem, obrigado. Ela tem seu público cativo, seus advogados, tem quem não solte sua mão por nada. Mas quem segura a mão dos indivíduos fragilizados por ela? Quem vai ouvi-los e defendê-los?

Jesus não tinha compromisso com nenhuma religião organizada. Se tivesse, seria com o Judaísmo, já que o Cristianismo surgiu após sua morte e ele precisava ser judeu para sequer ser ouvido como Messias. Mas essa religião, em que nasceu, Jesus questionou durante todo seu ministério. Pregava, sim, para judeus, mas rompeu com o protocolo da instituição de novo e de novo para ouvir e dar voz àqueles para quem a religião fechava os olhos: os romanos, os samaritanos, e os judeus traidores da religião. Esses, Jesus não apenas ouviu, como chamou, acolheu, e glorificou como ícones de suas parábolas.

Se um estado que vai bem, em seu sucesso, acidentalmente começa a ferir seus menores cidadãos, o que se deve fazer? Extraditá-los? Um estado de equidade mudará até as próprias leis para garantir igualdade e justiça a todos. São os maus governantes que tentam calar as minorias incompreendidas.

Ao deparar com um cristão que não se encaixa à instituição, pode ser necessário escolher entre proteger a instituição ou o indivíduo. Entender quem de fato é o opressor e quem, o oprimido. Um egoísta não se importa com a amputação alheia, mas o bom pai se compadece da pequena farpa no dedo da criança.

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