Calar a boquinha: uma virtude cristã

Recentemente percebi um defeito que odeio em mim. Costumo dizer algo negativo sobre as coisas antes de elogiá-las.

“Mitch, gostou do filme?” “O roteiro está bem mal escrito, mas foi divertido.” Cara, não dava para dizer apenas que se divertiu?!

Percebi que faço isso primeiramente porque infla meu ego. Eu me acho grande coisa quando demonstro que não me impressiono facilmente. E faço isso também porque sinto que protejo minha imagem. Não quero, por exemplo, que alguém veja um filme bobo e pense “O Mitch disse que era divertido, mas o roteiro é péssimo”, porque imagino que essa pessoa duvidaria da minha inteligência e bom gosto. E Deus me livre de alguém duvidar das minhas qualidades subjetivas!

Estou tentando parar de ser chato assim. E escrevo porque gostaria que mais gente tentasse também. Porque cristãos parecem sentir um comichão por dizer que não concordam com a fé dos outros quando ninguém perguntou.

Outro dia, escrevi um recado de aniversário para um amigo porque não consegui contato por telefone. Ele adorou a mensagem. Acho. Porque respondeu mais ou menos assim:

“Cara, nem minha esposa me disse coisas tão lindas hoje. Sua mensagem foi a mais bonita do dia. Eu não concordo com grande parte da sua teologia e publicações na internet, mas muito obrigado!”

Estava indo bem, não é? Mas você deve estar se perguntando a mesma coisa que eu. Se amou tanto a mensagem, porque fazer questão de acrescentar algo negativo totalmente fora de contexto num momento de troca de afeto que poderia ser gostoso? “Obrigado pelo seu carinho, tome aqui esta reprovação.”

Pode ser que ele estivesse esperando havia bastante tempo pela chance de dizer que não concordava comigo teologicamente. Mas essa informação não teria valor algum para mim em qualquer momento. Muito menos naquele.

Eu recebo mensagens desse tipo semanalmente. “Não concordo com tudo que você diz, mas muito obrigado por ter publicado isso. Me fez muito bem. Era tudo que eu precisava de Deus”. Então para quê ser chato, não é? Vamos só agradecer. Ou ficar quietinhos, que é mais elegante.

As pessoas não caminham por aí esperando que você e eu coloquemos nosso sagrado selo de aprovação sobre suas crenças. A gente crê no que crê e somos difíceis de demover das nossas ideias. Se alguém quiser saber sua opinião, vai pedir.

Fomos ensinados que é papel do cristão zelar pela sã doutrina e entendemos que isso nos obriga a sair por aí dizendo quem está certo e quem não está. Então a sã doutrina com certeza é a nossa, não é mesmo? Acho que isso é presunção. Parafraseando C. S. Lewis, querer que as pessoas tenham a mesma experiência que nós não é cristão; é um tipo de mau-caratismo.

O papel cristão de verdade nunca foi assegurar que todos concordem teologicamente, e sim amar aos de todas as teologias como sendo parte de um só corpo, incondicionalmente. Eu confio que o Espírito de Deus guia todos os seus filhos à verdade. Pode ser até por meio de diálogos críticos. Mas estes serão generosos e bem-vindos, e não uma intromissão paternalista. O que você acha de a gente preferir o elogio ou o silêncio a uma crítica não solicitada? Eu tento daqui e você tenta daí.

2 comentários

  1. Que bom seria se todos praticassem um pouco essa postura. Tenho aprendido a ouvir mais do que falar e responder apenas o que foi perguntado e tem me causado um bem enorme. Evita o estresse de tb ouvir o que não perguntei (embora dificilmente isso aconteça) mas me da o direito de dizer: desculpa mas eu estou interessada na sua opinião. Como diz o título: cala a boquinha.

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